No Admirável Mundo Novo: a Era de Aquário

Há uma espécie de alegria, de sensação de vitória, neste admirável mundo novo no qual estamos entrando.  Estamos apenas começando uma fase de globalização e equalização das coisas e gentes. Agora, mais do que nunca, o padrão geral possibilitado pela tecnologia e pela comunicação de massa, toma forma e diminui as diferenças. O Big Brother* dominador do livro de Aldous Huxley não é uma invenção. É um espectro real.

Todo mundo quer ser bonito, alto, magro, forte, inteligente e  jovem para sempre, para além de todos os males e feiuras. E se não quer, é porque ainda não sabe que quer. E assim vamos, mexendo na genética, escolhendo embriões, adicionando à nossa ciência todas as magias e terapias antigas, todos os remédios, quer dizer, o que leva de volta ao meio, à média.  Não podemos  nem mais ficar tristes ou realizar um luto no tempo necessário: tomamos antidepressivos e outras drogas legais para voltar a um bem-estar rápido e produtivo .

Sinto desconforto em pensar que daqui a pouco não haverá meio de o sujeito se esconder, ficar na sua, ter liberdade de pensar e achar outra coisa que não o pensamento fruto das melhores cabeças pensantes do planeta reunidas, num tempo de alto poder de comunicação de massa. De todas as nacionalidades, da nata do que o ser humano pode pensar, será definido um padrão, considerado o melhor. Padrão este que já está tomando forma, como eu já disse. O estar bem, sadio, normal, será um padrão em princípio difícil de se colocar à parte, tal a sua excelência.

Sempre desconfiei de padrões, dessa busca quadrada de perfeição. Quando o sujeito nascer, terá sido tratado geneticamente para ter as melhores possibilidades de desempenho. Depois, haverá chances iguais de estudo para todos, apoio psicológico, desenvolvimento das habilidades pessoas, até cada um virar um adulto muito parecido com todos os outros.

Um patrão pode vigiar os empregados com microcâmeras escondidas. Pais podem vigiar os filhos e vice-versa e por aí vai. A mútua espionagem já está se tornando real e imperceptível na sua semente de inversão: criamos uma nova prisão, a chamamos de liberdade e todo mundo acredita.

E o que vai ficar faltando? Eu nem sei se vai ficar faltando alguma coisa, mas me parece que vai ficar faltando o indivíduo, o indivisível, o peculiar, o errado, o troncho, o que combina com o inesperado que acontece sempre no Universo inteiro pra ninguém ficar pensando que é o próprio Deus, este símbolo que foi nomeado de várias maneiras apenas para lembrar que há muita coisa superior a nós, seres humanos ou não, no Universo em que habitamos.

Onde está o Amor nessa sociedade de robôs? Representado por sentimentos sociáveis para com o próximo, o semelhante? E o dessemelhante? Que ninguém se iluda: o dessemelhante marcará sua presença sempre, nem que tenham que ocorrer pequenas ou grandes catástrofes, digamos, naturais. Ou artificiais. Bem, toda esta visão futura não passa de um sonho, ainda. Mas as pegadas do animal já são visíveis, e os caçadores já as encontraram. E vão segui-las.

Na Terra, a humanidade anda devagar. Sempre pensamos que o Grande Fim está ali, na próxima esquina da nossa vida, que seremos testemunhas do Holocausto Final. Mas qual! Já presenciamos, coletivamente, muitos holocaustos. E temos esperanças de acabar com a nossa ignorância. Mas agora creio que já dá pra perceber que a ignorância é tanta que não dá pra encontrar o fim dela numa simples mudança de estação. O mundo não acaba nem muda tanto assim a cada retorno do verão ou do inverno. Não dá pra fugir do esforço individual, da responsabilidade de cada um consigo mesmo, da luta contra toda a ignorância e opacidade dentro de cada um.

Enfim, a Era de Aquário, da tecnologia e da comunicação coletiva, não vai nos trazer a Liberdade, como a Era de Peixes não a trouxe também e tampouco as eras anteriores.  Será apenas um modo diferente de viver. Pensei que talvez proporcionando melhores condições ao indivíduo para se libertar da sua negra ignorância… Não sei. Em nada ela difere do período da invenção da roda ou da escrita, ou do começo da agricultura. Não sei se é confortador ou não saber que algumas pessoas naqueles mais tempos antigos sabiam que ainda tínhamos muito feijão pra comer.

 

* Da WIKIPÉDIA:  Admirável Mundo Novo (Brave New World na versão original em língua inglesa) é um livro escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932 que narra um hipotético futuro onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas. A sociedade desse “futuro” criado por Huxley não possui a ética religiosa e valores morais que regem a sociedade atual. Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo da droga sem efeitos colaterais aparentes chamada “soma”. As crianças têm educação sexual desde os mais tenros anos da vida. O conceito de família também não existe.

 

 

Um comentário em “No Admirável Mundo Novo: a Era de Aquário

  • 22/10/2011 em 14:59
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    Boa, Rosângela! É isso aí…
    Gostei muito, como sempre…
    abraço,
    Raul

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