Neurótica: uma autorradiografia

Analista bioenergético observa paciente que a seu comando esperneia no divã

Alan, como vocês sabem, não me dá moleza: critica todos e tudo que eu falo ou faço, deve ser a tal prerrogativa do falo, ops, desculpem, do macho. Vive repetindo que sou “mercadoria estragada”, não tenho mais jeito, que tudo de bom que eu pudesse ser um dia foi alterado em definitivo enquanto cresci com meu ego esmagado; aí ele para por um dramático segundo ( :XXXXXXXX, um segundo de silêncio) e segue com a homenagem à minha falecida mãezinha cujo defunto ainda está fresco, tenha piedade, homem.

O que ele não sabe, porque eu escondo muito bem, melhor que minha recém adquirida garrafinha de bolso para uísque, é que apesar dos anos de terapia gritando, esperneando e abraçando quem eu não queria — como se vê no vídeo, trecho escolhido de um incrível documentário da BBC — continuei pela vida anal como era desde criancinha, e viva Freud. Prova disso é que passei os últimos 30 minutos redobrando os lençóis e toalhas no armário do banheiro, e meu sonho agora que estou ficando rica é contratar uma camareira de hotel aqui pra casa, afinal de contas, faço questão de tudo muito bem ordenadinho e as dobrinhas todas sem uma ruga sequer, quem hoje em dia consegue isso? Pois é: por mais que fizesse nunca consegui “destruir o policial dentro da minha cabeça” como era obrigatório na minha época, e sempre me senti meio besta socando travesseiro e tentando espernear daquele jeito no consultório da psicanalista, vamos combinar.

Ah. Tudo bem. O que ninguém sabia (com exceção dos autores da manipulação idealista, claro), e que o documentário da BBC mostra muito bem, é que por trás de todas aquelas intenções espirituais dos anos 1970 estava a estratégia de formar uma sociedade altamente consumista, e ainda por cima de conferir poder à esquerda, ah, bom, aí já podemos voltar ao Alan, um filho de Esalém pra neurótico nenhum botar defeito: acabo de entender por que motivo ele me obrigou a dedicar quatro horas de minha ocupadíssima vida a ver o tal documentário de 2002, tudo pra me convencer de que bom mesmo é se mover para a direita conservadora, como já escrevi no outro dia: “Jovem que não é de esquerda não tem coração, velho que continua de esquerda não tem cérebro”, sabem como é. E tome de proselitismo, atitude muito a propósito em tempos de eleição e tentativa de hegemonia petista. Tô fora. Depois do meu breve e fracassado mergulho no amor tardio às falsas benesses dos democratas americanos, últimos herdeiros dos individealistas dos 1970, tomei nojo de política, definitivamente.

Nem quero ouvir falar mais nisso, e não sei se volto à terapia ou às manias de mamãe (Alan não sabe da missa a metade: lá em casa, por exemplo, todo dia da semana equivalia ao mesmo prato no cardápio, pelo menos consegui combater isso, bem, mais ou menos, já que de pequeno é que se torce o pepino, e haja vontade para destorcê-lo, argh), e nem cheguei à metade da crônica ainda, nossa mãe.

O que ficou de tudo isso foi minha definitiva mania de me olhar de fora, controlar a mim mesma não importa aonde e nem ao lado de quem, uma espécie de ego psicoticamente dividido. Além, é claro, da eterna necessidade de ter um policial do lado de fora para contrabalançar o do lado de dentro, e é aí que Alan entra, mais importante ainda depois do falecimento de mamãe — que costumava ocupar o posto com a brilhante desculpa de me proteger eternamente.

Na semana passada, imaginem, Alan liquidou com a dentista que frequentei desde que nos mudamos aqui para o Vale. Explico: todo aquele caso maluco da minha suspeita de hepatite C, não sei se já contei, começou no consultório dessa dentista, acreditem ou não.

Adquiri com a velhice uma sensibilidade nos dentes devida à gengiva recedida, um negócio chato, embora meio habitual para a idade. Mas ultimamente, depois da dor de garganta, da dor no lado esquerdo da testa, da labirintite e de outras mazelas vinculadas ao estresse de executiva, desenvolvi uma espécie de “abscesso crônico” na gengiva, isso, de acordo com o diagnóstico da nossa dentista, claro, que já foi logo me dizendo que eu nunca mais me livraria disso — uma bactéria tão aderente feito o amor do Alan por mim, wishful thinking (traduzindo grosseiramente, “pensamento cheio de vontade”, outro blablablá idealístico dos 1970), voltando à dentista: a mulher me receitou pela terceira ou quarta vez desde que o tal abscesso vem me perturbando — Alan, otimista como sempre, me alertando de que esse troço ainda vai acabar destruindo o osso da minha mandíbula, que nem o câncer de Freud, mais sobre isso mais tarde — uma rodada de antibióticos, que foi o que causou a alteração no meu fígado etc. etc.

O caso é que no outro dia Alan quebrou um dente e precisou ir à mesma dentista. A doutora atrasou bastante, e Alan muito impaciente disse que não esperaria. Além do mais, como quem nada quisesse, acrescentou: “Nem aparelho de Raio-X essa mulher tem”, mas como é que é?

Gente. Dei uma parada, fiquei espantada com a minha falta de discernimento, minha falta de cuidado comigo, e não é que era verdade mesmo? Não é que por três longos anos a nossa dentista nunca tinha tirado uma banal radiografia? Até engasguei, juro, ali mesmo, na sala de espera do consultório de interior. Algo assim deveria ser proibido pela polícia, e foi assim que Alan picou em pedacinhos a minha dentista. Fui forçada pela veracidade dos fatos a abrir mão para sempre da dedicada e incompetente técnica dentária, ah, coitada, esclarece o Alan a esta cronista desligada: custa muito caro um aparelho de Raio-X! (E eu impressionada com o ultrassom de limpeza e aquela luzinha azul de secar restauração de resina, imaginem.)

Meu problema é que a irritação persiste. Recorri a uma querida amiga e vizinha e ela me recomendou um novo dentista, no centro da cidade desta vez — e desta vez fiz questão de perguntar por telefone mesmo, antes até de marcar a consulta: com Raio-X no consultório, quem jamais duvidaria? Francamente. A única questão é o tamanho da fila: dois meses de espera no mínimo, não importa quem indica. Até lá, que fim terá tido minha bactéria de estimação?

E um bom domingo procês, ufa, me excedi nos caracteres outra vez, quase 6 mil! Fosse no Globo, eu teria que me cortar,  iria doer, desculpem aí a verborragia!

 

 

Um comentário em “Neurótica: uma autorradiografia

  • 05/08/2012 em 10:44
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    Bem todos sabemos que “Psicologia” não é uma ciência, no sentido completo da acepção.
    Também sabemos, hoje, que a maior parte das “Teorias” estavam furadas.
    A pesar disto, pasmem, continuam sendo ensinadas e tomadas como a mais cristalina verdade.
    Bem, fazer o que… Ao final de contas precisamos de referências, não necessariamente verdadeiras… para ter um ponto de vista, isto inclui: religiões, doutrinas politicas, psicologia, magia… e outras coisas insanas.

    “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”
    (Carl Jung)

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