Nem só de crimes vive a literatura policial

Quem gosta de História e História da Arte, especialmente a italiana, e mais especificamente a de Veneza, não pode deixar de conhecer o investigador Guido Brunetti, criado pela norte americana Donna Leon: nem só de crimes vive a literatura policial.

Nascida em Nova Jersey (1942), professora e escritora, em sua juventude Donna viajou para a Itália, onde estudou nas cidades de Perugia e Siena. Depois de trabalhar como guia turística em Roma, teve vários empregos como professora em escolas na Europa e Ásia. Desde 1981 vive em Veneza.

Senhora de uma escrita cinematográfica, com um fantástico domínio dos diálogos, Donna Leon é, além de tudo, uma mulher cultíssima. Seus livros contêm, além da fórmula policial muito bem aplicada, uma agradabilíssima lição de História e História da arte, tendo em todos eles múltiplas referências à ópera e à literatura. Trazem também um manancial inesgotável de receitas culinárias da cozinha mediterrânea mais sofisticada, e um precioso roteiro do melhor que há em Veneza e não consta de nenhum guia. Donna Leon conhece Veneza como a palma da sua mão, e se compraz em descrevê-la bem, com seus itinerários mais secretos.

Esta familiaridade não é de se admirar: sendo norte-americana, trabalhou muito tempo em Veneza, ensinando literatura inglesa. O protagonista de seus livros não poderia viver em outro local. Guido Brunetti está por volta dos 40 anos, tem dois filhos adolescentes e é casado com uma professora universitária. Os pais dela são riquíssimos, vivem de negócios financeiros algo obscuros e frequentam a alta aristocracia de Veneza e do restante da Itália, enquanto Guido Brunetti veio de classes mais baixas, é formado em direito, recebe um magro salário como policial e não tem muita paciência para as festas dos sogros. No entanto, são essas festas que proporcionam à autora a oportunidade de escrever sobre os fantásticos palácios e locais requintados de Veneza.

Guido e sua esposa se dão muito bem. Ele adora os filhos e tem um desprezo absoluto pela classe política italiana que considera, sem exceção, atolada na mais vil corrupção — uma corrupção que extravasa todos os poderes, inclusive o da polícia.
Morte no Teatro La Fenice foi a estreia no Brasil do charmoso Guido Brunetti, um comissário instintivo, ágil e cordial, funcionário exemplar da polícia de Veneza. Nesse livro, Brunetti investiga o caso do maestro Wellauer, encontrado morto em seu camarim depois de reger o primeiro ato de uma famosa ópera de Verdi.

Em Fardo da Nobreza, os jardins de uma casa abandonada em uma pequena vila na Itália permaneceram intocados por cinquenta anos. Quando o novo proprietário assume a propriedade e dá início a uma reforma, um túmulo macabro vem à tona. Animais, fungos e bactérias fizeram seu terrível trabalho, e o cadáver humano encontra-se em estado avançado de decomposição, o que impede o reconhecimento do corpo. Um anel valioso torna-se a principal pista desse mistério, que leva o comissário Guido Brunetti ao coração da aristocracia veneziana, uma família que ainda sofre com o desaparecimento do filho e cujos segredos perturbadores remontam à Segunda Guerra Mundial.

Enquanto eles dormiam se passa no início da primavera em Veneza. Tomado pelo tédio, o comissário Guido Brunetti já perdia as esperanças de qualquer ação, até que recebe uma estranha visita. Mais uma vez retratando as peripécias desse atípico detetive — amante da boa mesa e da literatura e casado com uma intelectual filha de um conde veneziano — em meio a canais, praças e vielas que ele conhece como ninguém, Donna Leon conduz os leitores aos subterrâneos de uma misteriosa organização religiosa, protegida por figurões da cidade. Brunetti precisará de muita cautela e astúcia para aplacar a influência dos poderosos, inclusive de seu chefe, e proteger uma boa alma.

Se não fosse pelo feriado de Ferragosto, que todos os anos inunda Veneza de turistas, a notícia de um travesti encontrado morto num terreno baldio certamente se tornaria o assunto mais comentado da cidade. Além disso, uma onda de calor faz os moradores se trancarem em suas casas, na segurança dos aparelhos de ar-condicionado, e o crime fica diluído entre os muitos outros escândalos que estampam as capas dos jornais. Para o chefe da polícia de Veneza, trata-se de um caso simples, banal: o michê fora assassinado por um cliente insatisfeito com os serviços prestados.

Em Vestido para morrer, apenas o comissário Guido Brunetti suspeita de algo maior por trás do crime. Quando o corpo é identificado como sendo o de um diretor de banco, Brunetti se vê às voltas com uma conspiração que envolve algumas das figuras mais importantes da cidade, e novos cadáveres não tardam a aparecer.

Num chuvoso domingo de inverno, a arqueóloga americana Brett Lynch recebe uma inesperada visita no apartamento que divide com a namorada — a cantora lírica Flavia Petrelli —, e acaba brutalmente espancada. Em Acqua Alta, o comissário Guido Brunetti, velho conhecido da diva do Scala, assume o caso e, com a ajuda de um pintor e connoisseur, desvenda os códigos internos do mercado de antiguidades e uma complexa rede de negociações espúrias. Por trás de tudo, paira a sombra da Máfia siciliana, que parece influenciar todos os setores da economia italiana. Como veem, nem só de crimes e cadáveres vive a literatura policial!

Até a próxima.

 

 

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