Nem Cristo agradou a todos

papafranpor Antonio Ernesto Martins

 

Minha mãe, do alto de seus setenta e poucos anos, desencavou esta máxima, muito utilizada em minha família, para comentar os ataques sistemáticos que Jorge Bergoglio vem sofrendo, principalmente depois de se tornar Papa Francisco I.

São acusações que partem de todos os cantos, e são comuns a todas as personalidades que alcançam uma exposição massiva na mídia e que, até mesmo por essa insistência dos meios de comunicação em nos bombardear com o mesmo assunto por tanto tempo e repetidamente, acabam por isso mesmo desencadeando rejeição e má vontade, até mesmo naqueles que não têm opinião formada sobre o individuo, muito menos convicções de cunho religioso ou ideológico.

Basta ligar a TV ou abrir o jornal para nos depararmos com um protagonismo que não nos interessa, que nos é imposto, para carregarmos nossas metralhadoras com fragmentos de injúrias ou fatos colhidos fugazmente, em relatos de origem muitas vezes duvidosa, e dispararmos nosso contra-ataque legitimo, manifestação de nossa liberdade de pensamento e protesto contra qualquer tipo de lavagem cerebral. E isso vale tanto para papas como para ex-Big Brothers.

Mas quando o assunto é religião, parece que a coisa ferve além do razoável; os extremismos fundamentalistas pipocam aqui e ali, cegos de paixão e legitimamente intolerantes com os desvios humanos que mancham os discursos e as doutrinas religiosas. Sábio era o Manuel do Botequim, que pregou uma placa em seu estabelecimento que dizia assim: “Aqui é proibido discutir futebol e religião.” Sabia o velho português que era briga na certa, prejuízo, copos e garrafas quebradas, desrespeito e nenhuma conclusão que se pudesse aproveitar.

No caso do padre argentino Jorge, o Manuel do Botequim teria problemas, sem dúvida, para conter em seus domínios um assunto tão presente na pauta social de um mundo conflagrado por crises e carências morais, econômicas e políticas, carente também de conforto espiritual.

A Igreja Católica, como instituição mastodôntica e milenar, abriga muitas “igrejas”, e é sabido que essas diversas correntes de pensamento e suas divergências ajudam a ancorar seus dogmas em tempos passados, impedindo-a de responder com agilidade aos novos desafios e questões de uma sociedade que se transformou e se transforma na velocidade da fibra ótica — o que traz descontentamento, para os fiéis e não fiéis, e serviu para afastar muitos das igrejas. O crescimento das religiões e seitas de vertente neopentecostal é uma das diversas consequências disso.

É inegável também a dívida de sangue que a igreja tem com a humanidade pelos momentos em que, dirigida por homens, como é até hoje, se embrenhou por associações promíscuas com a nobreza e com o poder e praticou barbaridades. No entanto, a dificuldade de se contextualizar esses fatos nos impede de olhar para os dias de hoje e para o papel por ela desempenhado, principalmente, em seu trabalho pastoral de enfrentamento social nas comunidades mais pobres do planeta.

De todas as acusações a Jorge Bergoglio, me parece que a conivência — que em alguns discursos exaltados já virou colaboração — com a ditadura argentina é a preferida em nossa revolta, principalmente em países, como o Brasil, que também sofreram essa violação.

Acho importante ponderar que toda ditadura — ou toda proposta totalitária, seja o fascismo de Mussolini, o nazismo de Hitler ou o golpe militar de 1964 —, em um primeiro momento, não se apresenta ao povo como um projeto de supressão dos direitos civis, de tortura, de perseguições e quebra da ordem democrática. Antes, se aproveita de um estado de desordem econômica, jurídica e social, onde as instituições encontram-se fracas e questionadas, para acenar com uma bandeira de ordem, respeito às regras, estabilização econômica e valorização da nacionalidade.

Nesse contexto, muita gente boa, até mesmo com viés de esquerda, adere ou fica seduzido por essa tábua de salvação. Pouco tempo depois, quando as reais intenções se manifestam, espalhando a escuridão, muitos terão que se decidir: ou fogem para o exílio, ou ficam na luta armada, ou tentam manter uma resistência sistemática dentro da legalidade, através das poucas instituições que ainda conseguem se manter de pé. Nesse último caso, é necessário uma estratégia bem elaborada para evitar um enfrentamento explícito que possa pôr tudo a perder.

Com a igreja não foi diferente. E dentro dessa igreja múltipla, muitos certamente continuaram entusiasmados com a falsa promessa de coesão social dos governos autoritários, fechando os olhos para os crimes cometidos nos calabouços, enquanto outros se utilizaram do prestígio que lhes restou para interferir no que estava ao seu alcance. Assim foi com as demais entidades que permaneceram na legalidade, e essa dualidade existiu tanto nas associações de empresários como dentro das próprias forças armadas.

É extremamente importante não esquecer o passado, e que as responsabilidades sejam investigadas, colocadas publicamente e punidas, em respeito às famílias que perderam seus filhos torturados e assassinados, muitas ainda hoje sem ter tido o direito a um sepultamento digno. Entretanto, me preocupa que nossos faróis sejam todos voltados para trás, deixando de iluminar a estrada que temos pela frente e nos ajudar a enxergar com nitidez os reais buracos e obstáculos que nos desafiam.

Quando olho para frente, vejo sinais importantes de esperança nas pequenas atitudes tomadas até agora por Padre Jorge em seu pouco tempo de pontificado. Longe ainda dos anseios de uma sociedade moderna, que espera adesões explícitas a questões como o aborto, o casamento gay, os anticoncepcionais e o papel da mulher no cristianismo, os gestos e as palavras de Francisco I conclamam mais de um bilhão de habitantes a proclamar uma igreja mais simples e atuante junto aos mais necessitados, e a redescobrir valores humanos e religiosos contidos na base da mensagem de Jesus que podem ter desdobramentos políticos muito positivos — independente de qualquer fé, compartilhada ou não.

Por fim, me debruço sobre a entrevista concedida por Mabel Careaga, filha de Ester Balestrino, amiga de Padre Jorge Bergoglio assassinada pela última ditadura militar argentina em dezembro de 1977. Na chamada, a entrevista publicada revela que Mabel cobra do atual Papa um pedido de perdão em nome da Igreja, mas lendo o texto na íntegra ficamos sabendo que, pouco antes de ser morta, Mabel ligou para seu amigo Padre Jorge pedindo-lhe que fosse até sua casa para dar a extrema-unção a um familiar. Ao chegar lá, Jorge soube do real motivo do pedido: Mabel queria que Bergoglio levasse embora alguns livros sobre marxismo de sua biblioteca particular, pois já estava sendo monitorada pela repressão. O Padre levou os livros; Mabel admite que Jorge foi solidário com sua mãe e, em um dado momento, declara que não concorda com os que pretendem demonizar o novo Papa. Diz que Bergoglio protegeu muita gente, mas poderia ter defendido os Padres Orlando Yorio e Franz Jalics, sequestrados em 1976. Já o jornal Clarín confirmou que “Jorge Bergoglio intercedeu perante o almirante Emilio Massera, homem forte da ditadura, para tentar obter informações sobre o paradeiro de Yorio e Jalics”.

Disse o ainda arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, no livro Sobre el cielo y la tierra: “Na igreja houve cristãos mortos na guerrilha, cristãos que ajudaram a salvar vidas e cristãos repressores que acreditavam estar salvando a pátria. A conferência dos bispos fez muitas negociações reservadas”. Convocado como testemunha durante o julgamento por crimes cometidos na Escola de Mecânica da Marinha, o Cardeal Bergoglio insistiu em dizer que ajudou muita gente. Dizem que alguns atravessaram a fronteira vestidos de padre com documentos cedidos por Bergoglio.

Mabel Careaga, em alguns momentos de sua entrevista, deixa transparecer claramente uma certa gratidão a Bergoglio por sua amizade e atitudes com sua mãe Ester; em outros, declara que “ele foi parte de uma igreja que, como instituição, foi cúmplice dos militares”. Por fim, reconhece algumas atitudes de Bergoglio, mas retruca: “ Ele poderia ter feito muito mais”.

É como diz minha mãe: “Nem Cristo agradou a todos.”

Desejo fortemente que o Papa Francisco I possa reconduzir a igreja de volta ao bom combate do evangelho, e use sua influência, força política e espiritual para ajudar a humanidade a alcançar o bem comum, tornando nossa sociedade mais justa.

 

 

Antonio Ernesto é escritor, roteirista e diretor de cinema e TV. Aos 16 anos escreveu sua primeira peça teatral, “A Causa dos Rebeldes”. À frente da Cinemix Produções roteirizou e dirigiu programas de TV, vídeos publicitários, filmes institucionais e documentários como “Orquestra Tabajara”, “Sacolão – Loucos por Futebol” e “Não Quero Falar da Chacina”, todos exibidos pelo Canal Brasil – Globosat. Seu primeiro romance, Sacudindo o pó da estrada, será lançado pela KBR no próximo 2 de abril.

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

6 comentários em “Nem Cristo agradou a todos

  • 23/03/2013 em 15:30
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    Podem visitar meu blog.
    Nele apresento algumas provas do vinculo desde 1929 da igreja com as ditaduras.
    manuelfunes.blogspot.com

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    • 23/03/2013 em 16:17
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      Existe um processo pela ocultação de informações por parte da Igreja no desaparecimento de mais de 400 crianças, nas mãos de VIDELA. Não “SUPOSIÇÃO” esta correndo em justiça. Agora perguntas que surgem: como eles tinham informações sobre estes sequestros Infantes? Porque se negam a informar a Policia?

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  • 23/03/2013 em 15:28
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    O vinculo do Vaticano com “Ditadores” é antigo.
    Alias o próprio vaticano nasce Mussolini vende 44 km quadrados e uma renda alta anual aos Prelados para ser reconhecido e ter o apoio da Igreja a fascismo. Isto é um fato. Recentemente a Igreja “exige” que Pinochet seja liberado de Inglaterra onde estava detido para responder a crimes durante a ditadura. O que aconteceu na Argentina é Cafe pequeno (bem.. se trafego de crianças pode ser considerado uma indulgência). Em resumo estas relações amancebadas entre entre Vaticano e Ditadores é uma rotina, desde inicio em 1929.

    http://youtu.be/bg0MoS_UD2w
    http://youtu.be/njX0O0szQI8
    http://youtu.be/Ua0_HWcNQPc

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  • 23/03/2013 em 14:43
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    Fico feliz em perceber, pelo que parece, que Manuel Funes já se convence de que a teoria de colaboração de Pe. Jorge Bergoglio com a ditadura militar não tem fundamentos sólidos, visto que em seu comentário acima, evita e desvia completamente o sentido e o objeto de minha crônica para outras questões: agora as opiniões conservadoras do atual Papa. Mas esse é outro assunto que podemos tratar com imparcialidade e com isenção sem ser necessário que se misture as questões, pois umas não justificam nem ratificam as outras.
    Tive acesso sim as homilias de Papa Francisco I e nelas encontrei diversas posições conservadoras em relação a assuntos que ainda vão demorar a serem enfrentados pela igreja e outras extremamente progressistas em relação a atuação pastoral da igreja e ao retorno a sua essência evangelizadora. É a maravilhosa dualidade humana e seu livre arbítrio que ainda hoje incomoda tanta gente.

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  • 23/03/2013 em 13:26
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    Me parece que o autor não tive acesso as “homilias” do Jesuíta, então vamos lembrar-lhe:

    O jesuíta argentino está mais para “cruzado” do que para pastor de ovelhas. Apesar de se fingir de humilde e consensual, é um ser extremamente radical, determinado a acabar de uma forma ou de outra com qualquer tipo de oposição. Para aqueles entre os “meus” leitores que acham que estou exagerando, aqui vai uma amostra do pensamento dele:

    — Bergoglio é considerado um ortodoxo conservador em assuntos relacionados à sexualidade, se opondo firmemente ao aborto, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e o uso de métodos contraceptivos;

    — ”Quem não reza ao senhor, reza ao diabo, quando não se confessa a Deus, se confessa à mundaneidade do demônio”, afirmou nessa homilia chave na qual expôs os princípios de seu pontificado: “Caminhar, Edificar, Confessar”;

    — O cardeal Bergoglio atribuiu na ocasião a “uma manobra do diabo”, a uma “pretensão destrutiva do plano de Deus” a iniciativa legislativa que desgastou suas relações com a presidente Cristina Kirchner, que acabou sendo aprovada;

    — ”Se não rezarmos a Deus, estamos a rezar ao Diabo.”

    Se isso é seu conceito de consensual e coerente om novos tempos, então temos um problema conceitual.

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