Nem cota, nem casta, nem gangue

9788564046047_frontcoverpor Cláudia Vasconcelos

 

Prezado Sr. Ministro Joaquim Barbosa,

Toda vez que sou acometida por imensa raiva o resultado logo me visita na forma de gastrite intensa, por conta de refluxo e hérnia de hiato — doenças de gente idosa. O santo Omeprazol poderá até amenizar tamanho ardor no estômago, mas o que acabará de vez com essa queimação será a solução favorável do caso Aerus, visto que as notícias divulgadas pelo jornal O Globo provocaram em mim uma raiva intensa, aquela que sentimos quando nos vemos impotentes ante a injustiça.

Creio que sua agenda não lhe permita se fixar em muitos assuntos de jornal, mas este, em particular, faço questão de trazer-lhe para que sua compreensão sobre a situação dos aposentados e demitidos da Varig se consolide: o Conselho Nacional de Justiça ouvirá, entre outros, Ilka R. Miranda, escrevente de cartório e mulher do juiz Luiz Roberto Ayoub — responsável pelo processo de recuperação da Varig —, por fortes indícios de enriquecimento ilícito do 8º Ofício de Notas do Rio, para o qual foram levadas as certidões da massa falida da Varig. Outro tópico é o inacreditável crescimento de 157% da dívida da Varig durante a recuperação judicial e a lembrança da venda estupenda da Varig após um ano de sua compra, com ágio de 1.000%: “Fundo comprou Varig por US$ 24 milhões e revendeu por US$ 275 milhões”. E os números não mentem, veja:

R$ 7 BILHÕES, ERA A DÍVIDA INICIAL da Varig, contabilizada em 2005, no pedido de recuperação judicial
R$ 18 BILHÕES, É O VALOR DA DÍVIDA que consta no relatório usado como base pela Justiça para decretar a falência da empresa, em 2010. Hoje, o débito total é estimado em R$ 20 bilhões. Tudo isso publicado no jornal O Globo de 11/01/13, ministro.

Isso posto, vou lhe fazer um relato: no dia 1º de janeiro de 2013, o colega Nery Rocha morreu de depressão. Ele vinha há algum tempo deprimido em função dessa situação escabrosa em que estamos metidos até o pescoço desde abril de 2006. No entanto, ao receber a notícia de que uma liminar tinha sido interposta a nosso favor, ele se animou com a expectativa de ter sua dignidade devolvida e seus direitos readquiridos — como todos nós —, mas ao saber que a União voltara atrás através de manobras judiciais, caiu novamente em prostração e dali só saiu para o cemitério. Poderia lhe contar em detalhes também o caso de outra colega que sofreu um AVC em frente ao computador, ao ler a última decisão do Governo, e tantos outros mais, mas não é este o meu objetivo, caro ministro.

O que quero, efetivamente, é deixar claro que não pertencemos a cotas, quer raciais, de pobreza etc., tampouco de castas, como a política, que tudo pode e consegue — como, por exemplo, não pagar imposto de renda sobre os aviltantes 14º e 15º salários —, e menos ainda a gangues, como a que o senhor acabou de condenar no processo conhecido como “mensalão”. Somos tão somente idosos que tiveram um sonho e contribuíram regiamente para que o mesmo se tornasse realidade: ter uma aposentadoria tranquila. E esta, senhor ministro, nos foi tirada na calada da noite de 11 para 12 de abril de 2006.

Veja o senhor o que o responsável pela recuperação judicial da Varig faturou, e não satisfeito com a bolada, botou até a esposa na jogada, via cartório, para que a fortuna amealhada nas nossas barbas servisse de prato à nossa gastrite grupal.

Somos hoje um monte de gente velha. Sim, perdemos até nossa identidade. Levaram tudo de nós, inclusive a dignidade. O que nos resta, meu caro guardião de nosso Brasil (perdoe por chamá-lo desta forma), é somente uma esperança rota e ela está depositada no senhor.

Atenciosamente,
Cláudia Vasconcelos
Comissária aposentada da Varig, onde trabalhou por 30 anos

 

 

Cláudia Vasconcelos é escritora e poeta. Nasceu em Porto Alegre, na penúltima meia hora do dia 18 do mês de agosto. Ainda menina, tomou gosto pelas redondilhas das palavras. Não parou mais. Sua alma de viajante a levou aos quatro cantos do planeta, nas asas dos aviões da Varig, onde foi comissária de bordo por 30 anos. Pela KBR, publicou Estrela Brasileira, há mais de 30 dias nos TOP100 da Amazon.

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

Um comentário em “Nem cota, nem casta, nem gangue

  • 12/01/2013 em 13:03
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    Apreciada Cláudia, a verdade é que o Estado esta para proteger as elites e controlar as massas, simples assim. Desde a época de Gregos & Romanos estas são suas funções. De fato os que lucraram em “mais uma” negociata foram estes pequenos grupos. Vivemos numa sociedade de castas, com regras diferentes para cada uma delas, basta ver como criminosos, del alto nível, permanecem imunes, a pesar de condenações “teatrais”. Sim, o mundo no qual vivemos, não somente aqui, porém la fora, é regido por “células cancerosas”.

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