Nas ondas do rádio

Hoje em dia, uma das grandes discussões que a nós se coloca é o desaparecimento do livro impresso, diante do surgimento de meios digitais como os e-books e seus mecanismos de acesso: Ipad, Kindle, Galaxy e tantos outros. Essa dúvida, porém, não ocorre só neste momento e não se restringe à mídia impressa. O que o futuro nos reserva, o que permanecerá e o que desaparecerá no futuro? Esta é a questão que se apresenta.

No passado, dizia-se que o videocassete (para os mais novos, afirmo, sim, que se usava uma fita para gravar e ver vídeos), depois o DVD e agora o blue-ray iriam acabar com o cinema. Contudo, o que ocorreu foi o ressurgimento da indústria cinematográfica em todas as suas múltiplas possibilidades de exibição.

Talvez o caso mais emblemático de ameaça não materializada seja o que ocorreu à época em que surgiu a televisão. Para os profetas do apocalipse de plantão, ela decretaria o fim da “Era do Rádio”. Mas lá se vão mais de 50 anos e o rádio e a televisão convivem, respeitando-se mutuamente, cada um com seu próprio público e espaço.

O próprio espaço, no que se refere ao armazenamento de conteúdo, se tornou o maior argumento de computadores e atualmente dos tablets. Poder guardar livros, mensagens e tudo o que a escrita produz é algo que assusta os desavisados e inflama os mais entusiasmados.

Pessoalmente, quando contemplo meus livros nas prateleiras de madeira, me vejo atraído pelas cores diversas das capas que os envolvem amigavelmente. Algumas encadernações são velhas amigas, outras são paixões mais recentes; ambas me seduzem. Cada uma delas reproduz uma cor e traduz uma ideia ou pensamento. Sinto-me meio jardineiro e poeta, num jardim de flores e de fantasias. Ainda não consegui resistir, ao me deparar com uma livraria, a seu chamado silencioso e incrível, que me desperta os sentidos e me convida a entrar.

Se pudesse, levaria tantos livros comigo que acho que nem no transcorrer de uma vida longa, que espero se Deus quiser alcançar, conseguiria lê-los. O mistério, as aventuras ou a paixão que um escritor traçou, com sua inspiração e poesia, estão ali, impressos nas páginas.

Se, todavia, ressaltei como exemplo de convivência pacífica a relação entre o rádio e a televisão, não quero dizer que isso ocorreu sem perdas e ganhos.

No passado mais remoto, a chamada “Era de Ouro do Rádio”, este veículo de comunicação reinava absoluto, mas sofreu um abalo de grandes proporções com a chegada da TV nos lares das famílias, modificando hábitos e costumes.

A radiotransmissão, seus programas e artistas sofreram um duro golpe com a chegada da imagem em movimento: um mundo encantado e desconhecido surgia em “preto e branco”, transformando a relação do ser humano com os recursos tecnológicos. A comunicação e seus veículos, em especial o rádio, tiveram que se reinventar e ocupar um espaço novo, cujo futuro, num primeiro momento, se mostrava incerto.

Na minha vida, entretanto, apesar dessa nova possibilidade que me cativou, sempre houve um lugar reservado para esse amigo fiel de várias jornadas. Minha ligação com o rádio, sobretudo com programas em que ainda existe um locutor ou comentarista, é antiga e permanece, apesar do fascínio despertado pela antiga “telinha”, hoje encontrada em diversos tamanhos.

A parceria subsiste embora eu me surpreenda, vez por outra, com alguém me chamando de “brother” e perguntando se quero ganhar camisetas, chinelos ou outras bugigangas se responder a três perguntas sobre bandas que não conheço, ou se conseguir ligar para o estúdio em 30 segundos, a partir de agora: “Está valendo, moçada!”

Sinal dos tempos… Mas confesso que me espanto quando, à procura de uma música que me alivie do trânsito infernal, escuto piadas ou comentários de mau gosto. Esse humor ácido, à base de piadas de baixo nível e de consumo rápido que fere a integridade das pessoas, não me atrai.

Não julgo quem gosta ou aqueles que, sem serem tão rigorosos na escuta, se distraem com isso, afinal a proposta é distrair e divertir quem o escuta. Prefiro, entretanto, ouvir alguém que diz algo interessante, sem ter que gritar no meu ouvido, sem destratar quem quer que seja. Acho melhor acompanhar a narração de uma partida de futebol, com velhos ou novos bordões, do que um humorista que machuca para fazer rir.

Talvez seja assim porque, quando criança, um dos programas prediletos em família era ir ao estádio ver uma partida de nosso time. Nosso, porque meu pai não admitia torcida contrária à do seu time de coração, principalmente se o torcedor fosse da família. Minha mãe, superavançada para a época, era mais fanática do que ele.

Assim, na década de 1960, todas as quartas e domingos tínhamos nossa rotina sagrada: eu e meus pais nos dirigíamos ao campo para assistir a uma partida de futebol de nosso time. Na ida, meu pai dirigia; na volta, dependendo do resultado, minha mãe era responsável pelo retorno da turma.

Isso ocorria principalmente nas derrotas de nossa agremiação. Meu pai, rouco de tanto xingar o juiz e inconformado pela marcação de pelo menos cinco pênaltis claros a nosso favor, vinha discutindo consigo e com os companheiros de time, amigos diletos que acabara de conhecer na saída do jogo.

Minha mãe nada dizia nessas horas, apenas se sentava à direção do valente Fusca 68 e nos conduzia de volta para casa. Eu, em silêncio, me deitava no banco de trás, compreendendo a fúria do pai e respeitando sua dor, que eu mesmo compartilhava.

Minha mãe ligava o carro e em seguida o rádio. Ouvíamos, então, nosso cronista esportivo predileto, que nos explicava o porquê do insucesso de nosso time. Só era interrompido pelos repórteres de campo, que, com as entrevistas dos craques da bola, tentavam explicar o inexplicável.

“O futebol é uma caixinha de surpresas”, “o negócio é levantar a cabeça e partir para outra”, “nós tentamos tudo, mas a bola não entrou”… Enquanto isso, o trânsito fluía devagar, aliviando nossa decepção. Comparecer a uma partida de futebol era programa de família e como tal não havia espaço para um mau humor eterno.

Mesmo as torcidas contrárias tinham respeito umas pelas outras e, quando se cruzavam na saída, não manifestavam intenção de agredir os adversários. As pessoas que estavam do lado perdedor andavam rápido, com cara de poucos amigos; já os vitoriosos não tinham pressa de ir embora, às vezes comendo com prazer um último churrasquinho ou oferecendo às crianças que os acompanhavam um grande saco de pipocas.

Felizmente, nosso time, na época, mais ganhava do que perdia, mas, independentemente do resultado, nossa rotina radiofônica não mudava. Deitado no banco traseiro eu me deixava levar pela voz que vinha do locutor conhecido, por meio das ondas curtas da comunicação.

O fusquinha seguia na sua toada tranquila, esperando o desafogar do tráfego, que era pesado mas andava diligentemente. Abandonando-me ao bamboleio do veículo, envolvido pela voz grave do narrador, eu adormecia sossegado. Não raro acordava, ainda meio sonolento, já em minha cama, na qual meu pai me depositara, com pena de despertar o jovem torcedor.

Muitos anos depois, meu filho André, ainda pequeno, fez uma excursão à Disney. Cedi à ida dele um pouco relutante, mas convencido pela insistência da mulher e do pequeno viajante, sabendo também que um colega de sala iria junto, acompanhado dos pais.

Quando retornou, o intrépido aventureiro me abraçou longamente, me deu um beijo e me entregou um embrulho pequeno. Era meu presente! Quando abri o regalo, vi que era um aparelho de rádio. Ele olhou para mim com satisfação e me explicou sorrindo:

— Pai, eu não sabia o que te dar! Aí vi o rádio. Eu sabia que você ia gostar!

Quando meu filho era pequeno, nas noites fugazes nas quais um sonho desagradável vinha visitá-lo, eu me deitava ao seu lado, e, nessas ocasiões, levava um pequeno rádio para ouvir o último programa de esporte da noite, enquanto ele se recuperava. Ouvia baixinho, esperando que meu filho se acalmasse e adormecesse tranquilo, e agora era presenteado pela minha atitude de carinho e solidariedade paterna. Sorri para ele e confirmei:

— Adorei, meu filho!

Seus olhos brilharam ainda mais; ele me deu outro abraço e saiu para brincar com os amigos.

Até hoje, passados tantos anos, com o filho adulto e fora de casa, ainda topo com meu presente quando abro inadvertidamente a gaveta da mesa de cabeceira ao lado da cama, à noite, antes de dormir. Encostado no fundo do móvel, vejo meu antigo regalo, hoje mudo, mas ainda conservado e íntegro. Lembro-me de tudo o que ouvi e senti através de sua fala:,rememoro um garoto e um pai. Dessa maneira, viajo pelas ondas do rádio, que tocam as fibras do meu coração.

 

 

6 comentários em “Nas ondas do rádio

  • 16/02/2012 em 10:51
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    Linda história de vcs dois!!!! Tenho certeza que pra ambos estão felizes em recordar….

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  • 16/02/2012 em 10:49
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    Que lindo!!!!!!Achei maravilhosa essa história de carinho, afeto, amor entre pai e filho…O André ficou todo satisfeito pela lembrança.
    Que perdure por muitos e muitos anos essa parceria entre vocês.
    Viva o amor!

    Bjs

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    • 16/02/2012 em 12:07
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      Que bom que ele gostou Fabi!
      Eu também espero.Os laços do amor não se desfazem jamais!
      Bjos

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  • 15/02/2012 em 22:05
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    Outra de suas belas historias, obrigado. Penso o seguinte: nosso mundo, meu e seu, vem mudando gradativamente ao longo dos anos. Mas agora, as mudanças são mais rápidas. Tive alguma dificuldade para explicar a minha filha o que era uma maquina de escrever. Parece que evoluir da maquina de escrever comum para a maquina de escrever elétrica, e depois para um editor de textos no computador, foi um processo natural. Entretanto, não parece natural ao jovem o caminho inverso. Não parece natural ao jovem insistirmos em usar papel, visto que eles encaram isso como “mais uma arvore que foi cortada”. Compreende? o natural, para mim e você, tem a ver com nossa vivência. O natural do homem de hoje tem a ver com as novas formas de se encarar a vida. Quando vimos radio e televisão, e cinema, vimos novas tecnologias que pareciam se anular e acabaram se complementando. Quando vimos BETAMAX e VHS por exemplo, vimos a disputa de duas tecnologias, onde uma venceu. Quando vemos livro de papel e tablets, estamos vendo uma coisa nova, que não devem se complementar pela premência pratica de seus usos: centenas de livros didáticos dentro de um equipamento. Fim do papel, fim das mochilas pesadas, e talvez também o fim da caligrafia. Meu filho de 23 anos, filosofa: “caligrafia pra que? daqui a pouco vamos estar só falando, em seguida só pensando, nem vamos mais precisar de teclado…”. Estranho mundo novo meu amigo. Nossos amados livros vão para o museu.

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    • 15/02/2012 em 23:16
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      Caetano.Eu que agradeço! “Admirável Mundo Novo “,e assustador!
      Acho que tudo esta indo rápido demais!Pareço um pouco saudosista,mas é verdade!
      Tenho saudades de ter mais tempo,corro às vezes sem saber porque, sigo a boiada.
      Enquanto isso escrevo e leio,nas horas em que meu tempo se torna meu.
      Um grande abraço,
      Gustavo.

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