Não se abandona o barco

Uma viagem num transatlântico de luxo se tornou um desejo de muitas pessoas. Porém, o que parecia ser um sonho se tornou um pesadelo.

Em nosso imaginário, nos vemos atravessando os oceanos num ambiente de alegria e prazer, uma imagem que nos últimos tempos foi vendida às pessoas exaustivamente. Não é por outro motivo que cada vez mais se constroem navios gigantescos, verdadeiros arranha-céus marítimos.

Eu mesmo me aventurei num desses cruzeiros, por insistência da esposa e dos filhos; e, apesar de se tratar de uma viagem curta de três dias, confesso que me senti aliviado quando coloquei os pés em um porto seguro. A despeito das evidências, ainda tenho dificuldade para aceitar que algo tão pesado flutue na água sem afundar.

O mesmo espanto às vezes me acomete quando me vejo em um avião e este se eleva aos céus, mesmo sendo mais pesado que o ar. Resquícios de um homem antigo que permanecem em meu inconsciente? Não sei dizer. Mas que me causa espanto, isso não posso negar. Contudo voltemos ao mar, ou melhor, ao navio, objeto inicial destas reflexões, embora não sua razão principal.

Quero falar do infeliz acontecimento destes últimos dias, ocorrido com um destes transatlânticos, o Costa Concordia, que se chocou contra as rochas e tombou perto da ilha de Giglio, na Itália. Havia 4200 pessoas a bordo, das quais treze já tiveram morte confirmada e cerca de 20 se encontram desaparecidas. O capitão é acusado de abandonar o navio e não coordenar o salvamento daqueles que estavam sob sua responsabilidade.

Enquanto se apuram os fatos e, sem condenar antes de um júri, me pergunto: O que faz algumas pessoas abandonarem aquilo ou aqueles sob sua guarda? Por que, na hora do desespero, não é incomum ver homens fortes e sadios passarem por cima de mulheres, pessoas idosas e crianças? Esta realidade cruel é vista em outros episódios trágicos que envolvem grandes multidões, nos quais o risco de morte surge de forma inesperada e violenta. Na vida, vale o “salve-se quem puder”?

Não acredito. Ainda que não tenha vivenciado essas experiências no plano externo, creio que permanecer firme diante de uma grande onda que se aproxima é o papel principal de todo capitão. E não falo desse episódio trágico em específico; falo de nossa própria vida e do modo como nos conduzimos diante dos imprevistos. Somos os responsáveis por nossa atitude diante do revés, do inesperado.

Confesso que o medo se aproxima veloz quando me encontro no meio de uma tempestade pessoal. Quando as dores batem forte sobre o meu convés, quando a doença se aproxima sem compaixão e sem se intimidar diante das minhas preces de proteção. Olho para o céu e ele me parece nublado, não avisto as estrelas nem seu Criador. O desespero se encontra junto a mim e me convida a abandonar o barco.

Mas já que não está ao meu alcance evitar os acidentes de percurso sempre que eles surgem, o desespero insiste para que eu seja por ele derrotado, ressaltando, ainda, que muitos dos eventos perigosos e amedrontadores pelos quais passo foram criados por minha própria negligência (outros são condições encontradas neste mundo). Assim sendo, seria melhor abandonar a esperança e se deixar levar, em sua companhia, para as águas profundas da depressão.

Quando isso ocorre, tenho duas opções: aceitar o convite nefasto desse sentimento intruso ou permanecer lutando diante das dificuldades que me envolvem. Nessa hora, uso de todos os recursos que possuo: a força intelectual e psíquica ou aquela que extraio da amizade. Mesmo o mais bravo capitão, sozinho, não conseguirá enfrentar o mar revolto e os ventos do sofrimento, mas cabe a ele aceitar a realidade que o cerca e encarar seu fardo e os percalços que aparecem. Nossa atitude determina a forma de permanecer presente, e estar vivo é mais que respirar, é ter consciência de cada momento.

Se olharmos em volta, veremos outras pessoas tão (ou até mais) aflitas do que nós. Para elas podemos representar aqueles que permanecem à frente do navio, acreditando em um futuro melhor. Mesmo não vendo as estrelas, sabemos que elas estão lá e que foram criadas por Deus, assim como nós. Sabemos, ainda, que não estamos sós… E esta certeza nos leva adiante e nos dá força para enfrentar nosso destino!

 

 

10 comentários em “Não se abandona o barco

  • 11/02/2012 em 08:39
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    Gustavo,
    Graças a lembrança de “nossa” Valéria, tive a grata satisfação de ler mais um de suas crônicas. Muito boa!
    Um abraço,
    Cláudia

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    • 11/02/2012 em 10:14
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      Cláudia
      Agradeço e espero uma nova a oportunidade,
      de te ter como leitora.
      Abs,
      Gustavo.

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  • 07/02/2012 em 14:11
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    Sempre, quando estou mais folgada, leio algumas de suas crônicas.
    Parabéns!
    Abraço,
    Dora

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    • 07/02/2012 em 18:04
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      Que bom Dora!
      Espero te ter sempre por perto,
      Abraço,
      Guta.

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  • 06/02/2012 em 19:06
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    Gustavo ,
    é isso ai , estamos juntos no mesmo barco rumo as incertezas da vida , com suas tempestades de sentimentos que critam dentro da gente , e mesmo assim temos que consegui nosso equilibrio emocional ,

    Pois bem, é hora de ir: eu para morrer, e vós para viver. Quem de nós irá para o melhor é obscuro a todos, menos a Deus.

    Sócrates
    abs
    INES

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    • 07/02/2012 em 12:44
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      Ines
      Viver é estar diante do imponderável.
      Aceitar a vida da forma que nos apresenta é o nosso grande desafio1
      Um abraço,
      Gustavo.

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  • 04/02/2012 em 23:41
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    Gustavo,
    realmente é um texto muito profundo ,onde todos nós estamos no mesmo barco, rumo a um destino. No caminho nos perdemos ,mas não perdemos a esperança de encontrar o nosso rumo. O bom é que podemos compartilhar nossas dores com outras pessoas desde que haja confiança.
    Abraços,
    ,Luciana

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    • 05/02/2012 em 13:19
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      Luciana
      fico feliz de que tenha gostado.
      Compartilhar ,dores e esperanças, nos ajuda a prosseguir nesta viagem.
      Abraços,
      Gustavo

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  • 03/02/2012 em 15:37
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    Gustavo,
    estamos juntos no mesmo navio, ou em uma mesma frota de barcos, na mesma direçåo, rumo ao infinito. O que me conforta é que, ao compartilharmos as nossa experiências, como você generosamente faz,conseguimos mudar um pouco o nosso rumo e assim, não nos perdemos do nosso destino e prumo.
    As dores são semelhantes e acho que a cura também é, e deve ser compartlhafa.
    Quem achar primeiro dispara o sinalizador.
    Abraços
    Sandra

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    • 03/02/2012 em 18:54
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      Sandra
      é bom ter você por perto.
      Em todos os momentos da vida ter um amigo junto a nós,
      nos ajuda a enfrentar as dificuldades.E mesmo quando este não esta presente de corpo,
      sabemos que sua alma nos acompanha com carinho e afeto.
      Abs,
      Gustavo

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