Nada estava dando certo naquela tarde

Bibi no barco

Todos os dias os dois velhos amigos saíam para sua pescaria. Lá se vão muitos anos, começo do século vinte, ainda nos tempos em que o rio Piracicaba era uma cornucópia de dourados. Todas as tardes era comum voltarem com meia dúzia de exemplares de mais de oito quilos. Parece história de pescador, mas é realidade. Vou contando a história desde o começo, com detalhes, para ficar mais interessante.

Leopoldo era o nome, mas todos o conheciam pela alcunha de Bibi, isso por causa daquele calhambeque: quando ele chegava com o veículo ia logo buzinando. Era dono da chácara Itaim, que viria a ser um dos bairros mais importantes de São Paulo, mas gostava mesmo era de pescar, daí ter se mudado para a cidade do interior famosa pela piscosidade de seu rio cheio de corredeiras, onde os dourados gostam de esperar suas presas: vai daí que é só passar com uma isca perto de qualquer desses pontos e é fatal, logo um relâmpago dourado estará se debatendo na ponta da linha.

Nada estava dando certo naquela tarde.

Tivemos vários contratempos. O esquecimento da carretilha, depois as iscas que deveriam estar vivas mas tinham sucumbido ao calor — e achar quem tivesse outros lambaris para vender àquela hora foi difícil —, depois chegando ao barco perceber que estava cheio de água da chuva de depois do almoço, tivemos que esvaziar de canequinha. Tudo isso nos custou um atraso de mais de duas horas.

Até pensamos que não daria tempo de estar na nossa corredeira  favorita a tempo de ver o sol cair atrás da árvores na melhor hora para pegar nossos peixes.  É nesse ponto do dia que eles costumam caçar. Enfim, tudo estava preparado: varas, carretilhas, iscas, alicate de ponta chata para agarrar o maxilar, de ponta fina para tirar o anzol, cordel para passar atrás dos olhos dos peixes e ainda mantê-los vivos.

Lá vamos nós. Sento na proa do barco e meu companheiro encarregado do motor fica na popa. Escuto quando ele puxa a corda para ligar o motor. Nessa hora, sempre fico torcendo para que o velho motor funcione de acordo. Para minha satisfação, por incrível que pareça, o ruído dá indicações de que o aparato funcionou de cara.

Saímos meio emburrados um com o outro, trocando acusações pelos imprevistos, mas o lindo dia com uma aragem amena foi nos esfriando a cabeça. Em cerca de cinco a dez minutos, chegamos muito próximos de nosso ponto preferido.

O rio rugia e forçava o barquinho para o lado das pedras, mas o velho motor estava dando conta do recado quando, subitamente, após o que pareceu ser uma tosse de pigarro, parou. Juntamente com o toar da água, pude ouvir o amigo puxando freneticamente o cordel do motor, mas este aparentemente tinha sucumbido irremediavelmente. Ainda escutei alguns impropérios do pescador frustrado e depois um barulho de algo grande, caindo no rio. Eu estava tão zangado que nem olhava para trás, mas não pude deixar de questionar sobre aquele estrondo:

— O que aconteceu com o motor, Cachoeira?

— Pinchei no rio.

— Boa.

Essa cena bucólica é para nós, habitantes do combalido planeta Terra, de difícil compreensão, tanto pela parte ecológica quanto pela psicológica. A tranquilidade e bonomia daqueles dois homens pescando dentro de uma cidade é hoje impensável. Dá até saudades de alguma coisa que a gente nem sabe o quê.

 postado também no meu blog

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

3 comentários em “Nada estava dando certo naquela tarde

  • 12/11/2011 em 00:22
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    Sou muito saudosista e esses temas me interessam muito
    vontade de regressar ao pasado,mas não adianta, não volta mais
    Adorei, continue escrevendo para nos deleitar.
    Um abração

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  • 08/09/2011 em 16:53
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    Priscila, adoro viajar com você! Seja pelas fazendas de Minas ou num barquinho… amei!
    Beijos e até a próxima, querida!

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  • 05/09/2011 em 21:06
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    Olá Priscila.
    Realmente a história é muito boa! E numa cidade que virou metrôpole agitada, não dá para imaginar. E nos traz uma saudade de alguma coisa que ficou lá para traz e que infelizmente não tem mais como voltar! Parabéns! beijo grande

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