Na selva

No princípio, a selva era lá  fora; lá longe, nas matas fechadas, nos lugares que chamamos ermos (de gente), longe da civilização, onde habitavam animais ferozes, peçonhentos e sanguinários. O bicho. Depois nos juntamos em grupos, construímos coisas extraordinárias, prédios, pontes, navios, aviões! Foguetes! Segundo alguns, conquistamos a lua, só por pisar lá! A lua mágica dos amantes, dos loucos, dos artistas; a rainha da noite.

Que maravilha nos protegermos e produzirmos mais qualidade de vida, conforto, a medicina! Antibióticos, cortisona, analgésicos, técnicas e mais técnicas cirúrgicas. Nada de animais puxando carroças; nos movemos em automóveis grandes, pequenos, bicicletas, scooters, coletivos — de luxo ou sem luxo —, como facilita a vida! Sem falar na comunicação! Da televisão (não esqueci o rádio, não) aos telefones  celulares, tablets, iPods, internet! Uau!

Porém, na civilização a violência aumenta; é enorme, súbita, nas gentes e nas máquinas. Gente demais… Crianças não podem mais brincar sozinhas nas ruas… Cuidado quando parar num sinal… Segure bem a sua bolsa, viu?

Matamos animais para nossos caprichos de riqueza: casacos, finas iguarias, patê do fígado de gansos torturados, ovos de codornas também torturadas. Mas enfim, não vemos nada disso! Na TV e no cinema, nas colunas sociais, só atores, atrizes lindos; anúncios de coisas tão apetitosas na aparência; história de terrores que aconteceram com os outros, graças a Deus, coitados.  Choramos, sentimos fundo, solidários. De repente, a violência e a barbárie chegam cada vez mais perto… meu vizinho… meu parente distante… minha filha querida… meu bebê.

Representantes do povo, da Pátria (pátria, lembra?) roubando a própria, descaradamente e acima do bem e do mal!!!! Impunes. Oh! O mundo está acabando, pela enésima vez! Toda civilização que dominou  as demais morreu na ruína da perda, justamente, dos valores que defendiam, na degradação, na sarjeta, na sordidez. E já foram várias: o mundo não acaba por causa disso, está apenas mudando de ciclo. Porque queremos viver.

Na descida do ciclo, depois do auge, como agora, percebemos, comentamos, fazemos mesas redondas com as cabeças mais brilhantes para explicar, entender e concluir que a selva é  aqui na civilização. Lá, no ermo, é a natureza, violenta e dura, mas que segue suas leis: são inocentes na inconsciência de seus instintos.

Mas nós não somos inocentes. Temos consciência. E aí é que perdemos o sossego e  começamos a desconfiar que a selva é dentro de nós mesmos. Não quero cansá-lo, leitor, por ora: isso já é assunto para outra crônica!

 

Um comentário em “Na selva

  • 18/09/2011 em 17:05
    Permalink

    É isso aí, mais uma que gostei.
    Na próxima semana será a vez de “soltar os bichos…”
    Já estou esperando…
    Abraço,

    Resposta

Deixe você também o seu comentário