Na selva 2

Dizia eu, na semana passada, que no princípio a selva era lá  fora; lá longe, nas matas fechadas, nos lugares ermos, longe da civilização. Lá onde habitavam animais ferozes, peçonhentos e sanguinários, astutos. Então nos juntamos em grupos, construímos coisas — cabanas, cumbucas, arado, armas — extraordinárias. Que maravilha nos protegermos, produzirmos conforto e mais qualidade de vida! Na civilização, porém,  a violência aumenta; é enorme, súbita, nas gentes e nas máquinas. É gente demais…

Concluímos então, consternados, que a selva está aqui, na civilização. Lá no ermo é a natureza, violenta e dura, mas que segue suas leis, inocentes, na inconsciência de seus instintos. Mas nós não somos inocentes. Temos consciência. E aí é que perdemos o sossego e  começamos a desconfiar de  que a selva não é lá nem cá: é em cada ser humano.

Desde que nascemos, quando respiramos pela primeira vez e o ar vai abrindo os alvéolos pulmonares enquanto entramos neste mundo, somos puro estado de sobrevivência. Lutamos contra tudo e contra todos, não sabemos onde estamos! São desejos titânicos que nos movem. Se somos atendidos, bem, conforto, vida. Se não, lutamos. Berramos. Queremos tudo para já.

Esse nosso núcleo de sobrevivência cresce, aprende, usa todos os nossos recursos: racionalidade, bom senso, estratégias e tudo o mais que adquirimos no decorrer da vida; vira o que alguns chamam Ego.

O professor de Yoga muito conhecido, Prof. Hermógenes, assim se referiu a ele: “A ignorância mais funesta é a que esconde de mim minha personalidade essencial, fazendo-me acreditar que sou tão somente um pequenino reivindicante ego rixento, ciumento, vaidoso e frágil; as coisas que me gratificam, eu prendo pelo apego. As outras que me incomodam, me desconfortam ou maltrato, tenho-lhes aversão. É o mesmo eu que faz de mim um egoísta, que me leva ao apego à existência ou a aversão à morte.”

Acho que todos conhecemos esta figura. Não vou escolher um nome entre tantos pelos quais é mais ou menos conhecido.

E não pensem que ele é inútil, não! Nem mortal. É por causa dele que lutamos para acordar mais cedo, cumprir nossos compromissos, realizar nossos sonhos. Sem ele, a vida parava. Mas ele aparece na esquina, lindo, charmoso, a voz aveludada, e nos tenta: “Já experimentou isso ou aquilo? Ninguém vai ficar sabendo…”

Todo mundo faz isso… Dinheiro fácil, fácil. Sexo sem compromisso nem consequência! Pensamos que o outro é que está chamando? Não. Ele é que está respondendo a um chamado nosso…

 

Um comentário em “Na selva 2

  • 24/09/2011 em 17:21
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    Parabéns, Rosângela!
    É isso aí…
    EGO…
    Eu Gosto…
    Eu Quero…
    Sai da frente…

    abraço,

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