Na fossa

“Todos da casa, sem exceção, estavam esgotados. Havia [é Freud falando em primeira pessoa] me submetido às mais diferentes práticas médicas e vivido sentimentos recorrentes de humilhação”, leio no belo livro de Lúcio Marzagão sobre a morte de Freud que estou terminando de editar hoje, acrescentando ao texto as últimas fotos. Entendo perfeitamente o que ele quer dizer. De manhã, tinha recebido um telefonema da minha tia de Belô, a qual, comentando situações semelhantes que já tinha vivenciado em sua longeva vida, diz que entende também perfeitamente o que estou sentindo. Foi bom de ouvir, valeu, minha tia.

Não estou precisando de analista, eu acho. Se estivesse, apoio não me faltaria: não só passei os últimos 45 dias editando três livros diferentes de três diferentes psicanalistas freudianos, todos muito feras (na verdade quatro, porque o terceiro livro, coletivo, foi escrito a seis mãos sem incluir a autora do primeiro, hum, ficou meio confuso, ato falho, será que deu pra entender daí? quando os livros saírem vocês entenderão com certeza), como ainda consumi alguns minutos na tarde deste sábado editando a crônica da dublê de astróloga e psicanalista Rosângela Alvarenga, também autora da KBR, com o título sugestivo de “Psicanálise não é conversa”; e não é mesmo, algo que Fábio Belo, um dos três que citei logo aí em cima, já enfatizara no texto que eu havia lido. Ufa.

No outro dia eu estava conversando com o Alan e disse a ele que hoje em dia todo mundo se diz ou estressado ou deprimido. Mas depressão, como todo mundo, ou, sei lá, quase ninguém sabe, não é um estado de tristeza profunda, é outra coisa, um desarranjo químico-cerebral que não passa, nem mesmo se a tristeza passar, sabem como é: a gente acorda no buraco sem fundo sem que nada na realidade que nos circunda evidencie esse estado inescapável de fim de mundo. Pois não estou deprimida, não desta vez, e digo ao Alan que nos anos 1970, quando com muito boa vontade eu era ainda uma adolescente, a gente não se estressava nem se deprimia: ficava “na fossa”.

Ele adorou o termo, que eu literalmente traduzi como “shithole”, achou muito expressivo, ora, vamos combinar. “Estar na fossa” era um estado de tédio e tristeza essencialmente urbano, meio escuro meio claro e muito bem cantado pela Maysa (que, aliás, era uma autêntica deprimida), uma queda temporária e muito bem justificada por algum rompimento amoroso, um fracasso na escola, uma briga com a melhor amiga, uma perda qualquer que ao ritmo gostoso de altos e baixos em que a nossa adolescência ia — sem nada deste excesso conectado de bem ou mal e de qualquer maneira amplamente exibido que temos hoje em dia —, tinha até sua própria dosagem de charme, era um estado meio otimista, algo que certamente logo passaria; mas ninguém, ninguém mesmo, ninguém ao menos que eu tenha encontrado e conversado sobre isso a esmo, sabia o que “fossa” literalmente significa.

Mas agora, morando no mato… meninos, eu sei. Aprendi finalmente. Fossa é um buraco que você cava nos fundos da sua casa, ou alma, não sei, e que vai paulatinamente, sem perceber muito bem o que está fazendo, preenchendo de merda — a sua e a dos que com você convivem, até que um dia (aqui em casa, felizmente, este dia não chegou ainda, nossas cagadas são relativamente poucas) a coisa chega ao limite; daí você tem que chamar um sujeito especializado e pagar a ele pra limpar aquela merda toda, nada a ver com análise freudiana, embora guarde com essa outra técnica antiga alguns poucos pontos em comum, ah, melhor deixar pra lá.

Vai daí que conversando com ele, Alan,  entendi que “estar na fossa” — embora fosse um evento que a gente até cultivasse pra granjear simpatia, um bom carinho na cabeça, ou, em último acaso, uma cura efetiva para desinteresse amoroso por parte de um determinado “gatinho” (nesse caso a fossa teria endereço certo e deveria ser largamente propagada, se é que vocês me entendem) — era, literalmente… um estar na merda que a gente na época mal poderia imaginar, com os nossos esgotos de apartamento muito bem encaminhados em tubos brancos de PVC subterrâneos, ah, desencana, vai: uma tremenda tristeza temporária mas com um bom motivo, destinada, se a balada estivesse animada, a passar num bom trocar de olhos.

Bem. Longe vai a adolescência. Tô agora naquele período que antecede a degenerescência no qual a gente supostamente deve estar maduro, bem de vida, colhendo os frutos de uma vida consumida com alguma decência, com sorte recebendo algumas narres (do iídiche, pra quem ainda não leu meu livro sobre o Ulysses de Joyce, Santa Molly —  shame on you — “narres = gosto [ou mais do que gosto um sentimento de orgulho, de prazer indescritível decorrente do bem-feito alheio, um filho, por exemplo, bem casado, encaminhado na vida]”) dos filhos adultos (não eu, que não tive essa sorte, este tipo de projeto social recorrente, coisa que Alan me joga na cara todo santo dia, porque ele, obviamente, tem de sobra); mas aí, por outro lado, mergulha em outro gênero de altos e baixos incontornáveis e incompreensivos: a velhice doente dos pais.

Pois é. Não posso dizer como disse logo acima que eu esteja deprimida, mas fossa é pouco pra mim, por mais que seja fedida, ok, desculpem. Eu qualificaria o que estou passando como uma patologia psíquica que nunca vi referida nos compêndios de psicologia, não que eu tenha essa erudição toda, claro, como vocês sabem, sou uma diletante assumida — sei de tudo muito pouco, nunca suficiente para emitir nem mesmo um parecer rouco, mas sigo em frente em ritmo de bravo palpite: tenho enfrentado ultimamente o que eu chamaria de “luto profilático” ou qualquer loucura parecida — como não consigo que venha logo aquela fase em que a tristeza traz junto consigo a saudade e o alívio, fico estancada na primeira parte do processo psicanalítico, nem Roudinesco que eu saiba foi capaz de quantificar isso, vamos combinar.

E o que mais me irrita e entristece (pra não dizer que chego às raias do desespero, argh), me desculpem os bem-intencionados, é quando alguém diz que minha mãe está muito bem, obrigada, “se sentando na cama e até dizendo coisas que fazem sentido”, tipo assim como se fosse sair do hospital na semana que vem caminhando e falando normalmente como só nos meus sonhos há tantos anos ela tem feito.

Ah. Tá bom. Nem matando este texto se parece com algo chamado “crônica de domingo”, então melhor publicar sábado de uma vez e acabar logo com isso. Fazer o quê. Tô assim e não saio disso. Tem fases na vida em que nem dormindo direto a gente escapa de uma (aparentemente) eterna quarta-feira de cinzas. Emburaquei de vez.

E que o fantasma da fossa nunca pegue vocês, é o que lhes desejo, nem neste próximo domingo nem nunca; mas se vier a pegar, saibam que tudo passa, demora, mas passa, é o que digo  a mim mesma cotidianamente (e fico esperando passar). Só a depressão fica, porque aí, meus amigos, só mesmo à base daquelas malfadadas drogas psicoativas, um mal que tampouco desejo a ninguém.

Bom domingo! Pra cima com a viga, moçada!

 

 

6 comentários em “Na fossa

  • 15/04/2012 em 17:23
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    Tá certo, Carlos, o Alan já comentou isso, mas a “minha” fossa é das antigas, entende? Ou lá se vai todo o duplo-sentido… Bjs

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  • 15/04/2012 em 17:14
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    Noga,

    o interessante é que a fossa, se bem feita, pode durar anos, pois a fossa construída por especialistas, tem um sistema de autodegeneração que faz com que a lei de lavoisier chegue a bom termo: tudo se transforma…

    Salve,

    Carlos

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  • 15/04/2012 em 13:13
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    Obrigada, queridas amigas, Rosângela em especial: é gratificante quando o senso de humor é reconhecido, dá um trabalho… Beijos, e bom domingo!

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  • 15/04/2012 em 13:09
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    Adorei essa sua crônica. Mesmo falando da sua “fossa” você não perde o senso de humor. Eu morri de rir a cronica inteira! Eduardo Mascarenhas dizia que senso de humor é uma forma superior de inteligencia. Eu sempre concordei, e agora nossaa opinião ganha mais 1 ponto.
    Parabéns!

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  • 15/04/2012 em 09:36
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    Tá mal hein amiga! Estou solidária. Dá até raiva de ouvir: Mas vai passar!

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  • 15/04/2012 em 07:16
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    Oi Noga. Querida, carregar a “cruz com classe” e’ a unica forma. Temos um grande exemplo disso, embora Ele tivesse um ” bom motivo”. Para nos, pobres mortais a cruz doi nao simplesmente nos ombros, mas infinitamente ,dolorosamente, na conciencia de lutarmos, diuturnamente, contra aquele desejo inconfessavel que acabamos por ter, de “pessoalmente” acabarmos com ” a cruz”. Isso deixa qualquer um na fossa. Creio que todos da KBR te amam, isso deve ajudar, espero, a superar a fossa, o melhor termo de que se tem noticia. Conheci muitas e usei-as, mesmo com o nariz tapado, era horrivel.

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