Na beira do rio

Ele se aproximou da criança dormindo. Era ainda noite, mas o amanhecer estava próximo. Viu o rosto do filho, iluminado pela luz da vela que trazia nas mãos. Movimentou seu ombro com delicadeza, gerando um leve movimento. O menino abriu os olhos, entre o sonho e a realidade. Viu que era o pai ao seu lado.

— Vamos! — disse, sussurrando ao menino, com um sorriso tranquilo nos lábios.

Pedro se viu despertado por aquela palavra mágica e se lembrou do prometido.

— Pai, vamos pescar? Você prometeu que quando acabássemos de colher o milho, nós iríamos! — respondeu no mesmo tom o menino.

O pai olhou para seu jovem ajudante, e assentiu com a cabeça. O garoto se vestiu rápido e silenciosamente, para não acordar a irmã que dormia no berço ao lado de sua cama. Se dirigiu para a sala, onde sua mãe já tinha posto sobre a mesa um copo de leite e um pedaço de pão feito no forno. O garoto comeu ligeiro, com medo de perder a aventura.

— Mãe, vou pescar com o pai! Vou pescar com ele! — disse baixo, quase sem conter o entusiasmo. O pai viu a alegria do filho e ficou feliz também. A mãe sorriu com o abraço que recebia, fruto da alegria sincera do garoto.

Os dois pescadores se dirigiram para fora da pequena casa que os abrigava, em silêncio. Não queriam acordar a pequena Júlia, que dormia tranquilamente. Ao abrirem a porta, encontraram o Carranca de pé. O cão que há pouco ainda dormia em frente à porta na varanda, coberta pelas telhas coloniais antigas, pressentiu que um passeio ia acontecer. Forte e musculoso, de porte médio, vigiava a propriedade e protegia a família. Era famoso por acompanhar José, o dono da fazenda, no trabalho e aonde mais este fosse. Impunha respeito, e não temor aos que se aproximavam de seu dono e da família. Era sua a responsabilidade de cuidar de todos. Carranca tinha  uma predileção por Pedro, seu companheiro de brincadeiras .

— Hoje você não vai Carranca, cuida da casa e das mulheres!

O cão olhou para o menino, pedindo ajuda.

— Pai. deixa ele ir com a gente?

— Hoje não, filho, sua mãe e Júlia estão em casa e não quero deixá-las sozinhas, com o dia ainda por nascer.

O garoto se abaixou e coçou com carinho a orelha do amigo. Este compreendeu que não participaria da aventura. Resignado, deu três voltas em torno de si e se deitou em frente à porta de entrada.

— Vigia, Carranca!

O cão levantou a cabeça como se confirmando o pedido e se deixou ficar, deitado junto à porta, mas vigilante. Seu olhar triste acompanhou o dono e o menino desaparecerem de sua vista.

Pai e filho pegaram as varas de bambu encostadas na parede da casa, e junto a elas um embornal. Dentro deste, separados em uma caixa com tampa transparente, anzóis,chumbadas,rolos de linhas de pesca. Havia ainda um alicate, um vidro pequeno de mercúrio cromo, algodão e fita de curativo. José levava o necessário se porventura seu companheiro de pescaria espetasse o dedo no anzol em vez de no peixe. Colocou ainda dentro uma garrafa de café e um pedaço de bolo de fubá. Mais não precisavam.

Passaram em frente à horta da casa, e com o enxadão já no jeito, José cavucou a terra. Logo apareceram várias minhocas, grandes e pequenas, grossas e finas. Pedro ia pegando e colocando numa latinha de massa de tomate vazia. Assim, já com tudo pronto, partiram em direção à margem do Rio São Francisco. O dia dava os primeiros sinais de vida. O sol surgiu no horizonte, iluminando o caminho dos pescadores.

Em pouco tempo chegaram à curva do rio, um braço que abrira passagem vindo da fazenda de seu Lico, vizinho de cerca, indo em direção ao leito. Ali se sentaram. À sua frente, uns igapós e capins de água jogavam uma sombra sobre a água. Colocaram as iscas nos anzóis, cada um ciente de sua função. O chapéu que lhes cobria a cabeça não deixava o sol, agora resplandecente, atrapalhar a visão. O garotou se levantou e olhou para o pai, que tinha se erguido também:

— Lance com cuidado para não enroscar no mato! — instruiu o filho o pai pescador.

O garoto não se fez de rogado. Levou a vara para trás, ficando com o corpo de lado em direção à água. Fez um movimento para frente e a linha de nylon se projetou com a ajuda da chumbada e do anzol preso a ela, que mergulhou na água, caindo junto à vegetação, mas numa distancia segura.

— Muito bom, filho!

O garoto sorriu com satisfação. José, por sua vez, fez movimento parecido, mas com mais desenvoltura e precisão. Seu lançamento colocou a isca 20 metros acima de onde a do filho estava.

Se assentaram e se deixaram ficar, pai e filho em silêncio, aproveitando a presença um do outro. O tempo passou ligeiro. Numa fieira feita de ramo, já pendiam três peixes; ainda se debatiam, recusando o próprio destino.

O pai pegou o menor deles. Retirou da caixa um dos anzóis grandes e o fincou atrás da barbatana do escolhido. O que parecia judiação era precisão. O menino acompanhava atento os movimentos do pescador. Num movimento firme, José jogou o pequeno atrativo de volta na água.

Enquanto esperavam, o pai fincou a vara com firmeza na beira do barranco. Abriu o embornal e serviu o café; pegaram cada um o pedaço de bolo, trazido para essa necessidade, e comeram com prazer.

Não se passou muito tempo e um puxão forte entortou a ponta da vara, até que esta quase atingisse a água. O homem se levantou ligeiro, puxou num movimento brusco na direção contrária. Um peixe imenso voou para fora d’água, tentando se desvencilhar da armadilha que o atraía.

— Dourado! — gritou Pedro. Seus olhos brilharam ao ver o reflexo da cor do ouro no costado do Rei do Rio.

José nem ouviu o garoto. Sabia que ele estava certo. Dourado era o peixe mais valente e bonito da região; tinha como sua principal característica ao ser fisgado se lançar fora d’água, para com movimentos bruscos de cabeça se desvencilhar do anzol que prendia a boca, através da cartilagem. Mas José conhecia o rio, conhecia os peixes, e tinha por isso mesmo colocado o anzol com a ponta voltada em direção ao centro: era anzol para pescar dourado.

O peixe lutava por sua vida, se atirava para o ar, num voo desesperado para a liberdade. O garoto quase não respirava para não atrapalhar o pai. A luta demorou um tanto, até que finalmente o grande peixe se sentiu sem forças para continuar a briga. José o puxou para fora d’água, trazendo-o para junto da relva até onde estavam sentados desde o início da aventura. Seu rosto estava molhado de suor, as mãos tremiam pelo esforço feito. O peixe media quase um metro de envergadura, mais um pouco e era do tamanho do garoto, que o admirava estupefato.

— Pai, ele é enorme!

— É, filho, e deve pesar mais de 20 quilos! — respondeu o pai, também admirando o próprio feito.

O peixe trazia preso à boca o anzol traiçoeiro. Abria e fechava as guelras, ainda tentando lutar por sua vida. Seu corpo, com uma coloração dourada e reflexos vermelhos, justificava seu nome. Cada escama que lhe dava o matiz ainda apresentava um pequeno risco preto, com um desenho único em seu perfil: da cabeça à cauda era uma joia perfeita da natureza.

— Pai! Ele deve ser bem mais velho do que eu, para ser tão grande!  — exclamou o jovem pescador, num misto de alegria e tristeza na voz.

— É verdade, meu filho! — disse José. Prendendo com firmeza e cuidado o peixe ao chão, retirou o alicate do embornal . Prendeu-o firmemente ao anzol, e, com cuidado e presteza, o retirou da boca do grande peixe. Olhou para o filho e falou:

— Pedro, o peixe é seu! O que fazemos? O levamos conosco ou o devolvemos ao rio?

O garoto sentiu o peso da decisão. Olhou para o grande peixe, lembrou-se de sua bravura e beleza e disse:

— Pai, solta ele!

O pescador, com um sorriso discreto, levantou o lutador com dificuldade. Colocou-o dentro d’água pela cabeça, fazendo com as mãos um movimento com o dorso e a cauda, de forma lenta e contínua. O garoto olhava, sem saber ao certo se sua decisão chegara tarde demais para que o prisioneiro voltasse à vida.

De repente, como se tivesse levado um choque, o peixe despertou. Deu uma forte rabanada e se soltou. Ainda viram de relance o reflexo de seu corpo sob a água cristalina, que o sol ressaltara uma última vez, antes que desaparecesse no rio. Pai e filho ficaram ali parados, por um instante que parecia interminável.

— Pedro! Vamos para casa! Pois peixe nós já temos, e história também!

Sorrindo, o menino abraçou o pai, e juntos caminharam felizes de volta ao lar.

 

 

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