Mundo Cão

Aconteceu em uma cidade qualquer, em um país qualquer do planeta. Ali nasceu um cão sem eira nem beira, com seu destino de vira-lata. Porém, nem de tudo desprovido, contava com o charme irresistível de seu olhar maroto, o que lhe permitiu conquistar facilmente as graças de um mendigo.

Comia de bom grado tudo o que o homem lhe oferecia. E este, por carinho e força do bom hábito, quando o servia tinha o cuidado de forrar o chão com jornais invariavelmente encontrados por ali, largados. E assim o cão foi crescendo, se alimentando de sobras e letras avidamente engolidas, realmente apreciando aquela mistura de papel, tinta e comida.

Até este ponto, nenhuma surpresa, mas o extraordinário ocorre certa noite quando, ao chegar em casa, um jornalista encontra seu cão inerte e gelado junto à mesa do computador. Na tela aberta (ele não sabia como), encontraria também escancarados os segredos bem guardados de toda uma vida.

Blog Planeta Terra apresenta Mundo Cão
Postado em 22 de setembro de 2011

Queridos seguidores, leitores eventuais e também os que me acessam pela primeira vez: é sem pesar que comunico ser esta a minha última postagem. Digo isto porque há alguns anos compartilho neste blog os meus pensamentos, meu modo de encarar a vida, ideias e sentimentos acerca da humanidade, compreensões que não queria guardar comigo e nem manter inéditas quando eu deixar o planeta. O que no caso, tenho certeza, não demora a acontecer.

Muitos de vocês perguntaram, em inúmeras ocasiões, quem sou eu. Queriam conhecer meu rosto, saber quais lugares frequento, se sou preto ou branco, velho, novo, pobre, rico, feio ou bonito, como se a embalagem somasse mais ao conteúdo. Mas hoje, já próximo dos meus onze anos, não tenho razões para esconder minha identidade, mistério que fiz questão de manter e agora revelo, linha por linha, bem aos poucos, por motivos que tenho certeza que ao final da leitura se tornarão claros.

Começo dizendo, já sem receio, que nasci “um jaguar em corpo de fusca”. Mas esses últimos anos, totalmente dedicados ao exercício da escrita, agora me cobram um preço alto: meus olhos já não enxergam tão bem e a idade pesa em meus ombros, dificultando ainda mais os movimentos limitados que, desajeitadamente, me permitem o acesso ao teclado.

Desde cedo desenvolvi o gosto pelas letras. Para mim, elas sempre tiveram um sabor especial. Delas me alimentei descobrindo minha capacidade de pensar, expandindo também minha visão do mundo. Por minha conta aprendi a ler e a escrever, mesmo privado do talento de vocalizar uma só palavra — algo que certamente me salvou de ser tratado como aberração, já que, tenho certeza, teria passado minha vida inteira em laboratórios sendo virado e revirado do avesso. Isso na melhor das hipóteses, pois talvez eu fosse anunciado como a própria encarnação do diabo.

Mas deixando de lado as elucubrações, o fato é que acredito piamente estar em plena mutação. Assunto, aliás, amplamente debatido neste blog, considerando que tudo na natureza está em constante evolução. E já que surgiu a questão dos conteúdos aqui abordados, explico a quem me acessa pela primeira vez que nunca acumulei nesta página qualquer antiga postagem. Trato meu blog como um diário, substituindo o que é de ontem pelo que é de hoje sem qualquer culpa ou sentimento de perda. Afinal, é da minha natureza não viver no passado; talvez por isso eu viva em paz, sem brigas e ressentimentos, vivendo simplesmente o que é cada momento. Por isso, agora, consciente de que meu tempo chega ao fim, sinto o sincero desejo de falar um pouco de mim.

Começo revelando que não foi sem espanto que um dia, ao acaso, descobri que podia ler. Eu era ainda pele e osso, tinha muito pouca idade e seguia de perto aquele homem por onde quer que ele fosse. Falo daquele que um dia me encontrou abandonado, recém-nascido, vindo a se tornar o meu melhor amigo. Com ele vivi pelas ruas, e sobre quem ele era eu soube bem pouco, nada além do fato de que foi o único, em toda minha vida, que me tratou como igual e não como cachorro.

Durante dois anos vagamos lado a lado, até chegar a notícia que mudou tudo. No jornal que era de ontem e que servia como toalha para o almoço, li a matéria que falava sobre a ação deflagrada pela prefeitura, se não me engano intitulada “Operação Carrocinha”. Para dar cabo dos cães vadios, que sem qualquer controle se amontoavam nas ruas, tinha como meta recolher a todos que não possuíssem casa ou abrigo.

Naquele momento percebi o olhar preocupado do meu amigo, embora eu não tivesse qualquer ideia do que aconteceria com quem fosse levado. Afinal, na comunidade da qual éramos parte não dava mesmo para distinguir quem era cão ou não, de modo que fiquei pensando sobre o destino a ser dado a tantos desvalidos. E foi um pouco mais tarde, ainda refletindo sobre aquilo, que vi a carrocinha chegar à praça onde nos reuníamos.

Nem pensei em fugir. Apenas me coloquei de pé junto ao amigo, pois velho como ele era não poderia correr. Foram súplicas e súplicas, ele implorando aos encarregados que não me levassem. Mas me vendo agarrado pelo pescoço e jogado junto dos outros, logo começou a gritar pesados xingamentos. Vi quando um cassetete bateu forte em seu ombro, fazendo-o cair imediatamente. E colocado na viatura policial que dava cobertura à ação, foi finalmente calado por dores e braços truculentos.

Hoje só posso imaginar que tenha sido impossível para ele sobreviver muito mais depois disso. Eu, por outro lado, vivenciei o revés do destino, pois acabei sendo levado não pela carrocinha, mas por um jovem jornalista. Isso, é claro, após ele se comprometer a me providenciar imediatamente um abrigo. Não sei por que entre tantos ele escolheu justamente a mim. Talvez porque tenha fitado meus olhos chorosos e assustados, que acabaram saindo estampados na matéria assinada por ele no dia seguinte.

Não tenho todas as respostas e longe de mim tal pretensão. Afinal, sempre fui e serei um cão. Sim, sou um cão, e é isso o que encerra minha real condição, apesar de guardar também essa estranha humanidade. Por isso é verdade, que se me questiono sobre o que há de irracional no modo de viver em sociedade, o faço porque acredito que além da leitura dos fatos vale a reflexão.

Enquanto eu vivia nas ruas nada me possuía, nem mesmo a alegria ou o sofrimento. Mas quando minha vida mudou, me permitindo descobrir o que é ter conforto, soube também o que é ser possuído. Assim acontece com muitos que, mesmo sem serem cachorros, têm dono de uma forma ou de outra — a quem chamam status, carreira, dinheiro…

É assim na casa que me abriga: o tal jornalista não vive, apenas habita. Mesmo sem ter um dono, ele faz do trabalho e do que pensam sobre ele a sua coleira. Já eu, após passar tantos anos aqui confinado, sinto imensas saudades de quem era e da minha antiga liberdade. Mas nos livros que meu dono acumula, sem nunca ler por falta de tempo, encontrei rotas de fuga e abri janelas para o mundo. Desse modo, mesmo aqui trancafiado, explorei todo tipo de porta e conheci milhares de pessoas. Entendi que umas eram evoluídas e outras não, concluindo que há os que não compreendem sequer a diferença entre uma coisa e outra.

Embora eu tenha experimentado as duas pontas do abismo, acredito sinceramente que o que torna o homem mais humano não é o lugar onde ele vive, de onde vem ou o que tem, e sim como ele vive e o que faz com isso. Não quero dizer que um cão possa ser mais inteligente ou esperto do que um homem — não me condenem por este equívoco! Apenas acredito que grande parte da humanidade não tem ideia de sua real capacidade, nem compreende claramente em que difere dos demais amimais. E tanto acredito nisso que, se houver de fato reencarnação, lhes asseguro que na próxima vida quero encarnar como gente.

Acreditem em mim, não sou um louco que pensa ser cachorro! Nem tampouco um cachorro que acredita ser homem! E longe da minha pessoa (ops!) querer convencer a quem quer que seja, mas como ainda me resta algum tempo, revelo um pouco mais desta minha incrível existência.

Aqui não sou o único bicho, há também um papagaio entre os pertences. E este, sim, tem o dom de falar. Habilidade que a ninguém espanta, muito embora, para o meu azar, ele não tenha a menor ideia do que diz. Pretensioso como eu era, decidi um dia ajudá-lo. Mas incapaz de ir além dos meus grunhidos, não consegui com ele qualquer diálogo.

Houve também um momento em que cogitei revelar ao meu dono minhas espantosas particularidades. Mas depois duvidei se ele sobreviveria a tamanho choque, e por prudência achei melhor não assombrá-lo. Mais tarde, revendo melhor minha situação, entendi que meu instinto gritava que eu não lhe desse essa confiança. Algo me dizia que, sendo ele um jornalista, o provável é que se revelasse desleal comigo. Cheguei inclusive a me imaginar novamente estampado no jornal, mostrando aquele mesmo olhar assustado. Afinal, vamos combinar: seria um furo de reportagem fe-no-me-nal!

Talvez vocês estejam me julgando ingrato com quem generosamente salvou minha vida, aquele que impediu minha morte e provável reencarnação como sabão. No entanto, lhes garanto a minha justa afeição por ele pedindo apenas que pensem comigo, que se coloquem em meu lugar. Afinal, ele me trata apenas como dono, nunca como amigo, fato que me tornou, de certa forma, um sujeito bastante arredio. Falta-nos intimidade e, por assim dizer, empatia, algo experimentado somente por aqueles que se conhecem e compartilham de adversidades semelhantes. Em resumo, pelo sim, pelo não, preferi simplificar colocando ponto final na questão.

Porém, agora, é chegada minha hora, e fica aqui minha maior preocupação: será que deixei filhotes? Será que por onde andei caminham outros como eu? Sei que deixo esta entre muitas indagações, julgando-a pessoalmente como a mais importante. Por isso faço agora um único pedido, um apelo de pai: se tiverem notícias de cães como eu, não os tratem como aberrações. Garantam-lhes o direito à liberdade de simplesmente serem o que são. Assim, quem sabe, todos possam desfrutar de uma coexistência mais interessante e, por que não dizer, mais “humana”. Afinal, seria este o plano maior do Criador? Um universo em evolução?

Quando fechou a tela, o homem já não sabia mais quem era. Suando frio, querendo gritar, passou a noite fritando as ideias. Ele tinha o corpo do cachorro, tinha a história e, sobretudo, o medo de ser internado como louco. Como aceitar que o destino lhe entregava um furo de reportagem, quando intimamente começava a se assombrar com os fantasmas de talvez carregar uma dupla personalidade, sem saber qual delas seria a mais delirante?

 

 

 

2 comentários em “Mundo Cão

    • 22/09/2011 em 22:59
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      Ei, Priscila! Fico feliz que pense assim, amiga! Que bom saber disso… beijão corrido, mas cheio de saudades!

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