Mulheres de aço, coração de açúcar

Às vezes, parece que a gente vai sucumbir, tanto é o desalento ao nos depararmos com tanto escárnio com nossa gente, fotos ecologicamente incorretas mostrando que em nome da política aceita-se tudo: inimigos mortais a quem se humilhou, xingou, ofendeu, no vale-tudo das eleições são visitados e se aceita ser fotografado trocando afagos.

O pior é que o ofendido, se é que tem essa capacidade, parece nutrir por seu ofensor uma amizade de infância. Tudo isso me enoja. Fica difícil dizer quem é mais pernicioso, o que não sabe de nada ou aquele sabe-tudo.

Quando esse estupor invade nosso peito, parece que nada dos valores que carregamos é válido, e tudo é válido. Quando vemos que as pessoas encarregadas de nossa segurança estão contaminadas pelo vírus da ganância, quando vemos que nossos juízes estão tão conspurcados que não têm moral para julgar ninguém e nossos doutos advogados aceitam por dinheiro representar os piores facínoras; engenheiros rasgando seus diplomas para lucrar em compras de materiais inferiores aos adequados; médicos jogando por terra seu juramento de Hipócrates aceitando fazer cirurgias no lugar de parto natural para ganhar tempo e dinheiro; economistas alterando deliberadamente dados estatísticos para enganar o cidadão; e por aí vai… Enquanto houver a raça humana, tudo será assim.

Felizmente, existe a contrapartida. Conheço muitas pessoas de bem, guerreiros da paz e harmonia, gente que dedica seu tempo e conhecimento em benefício de outros, na maioria das vezes desconhecidos: são os voluntários e voluntárias da associação a que pertenço, homens e mulheres que a dirigem cedendo seu tempo e conhecimento para manter e melhorar o maior clube da America Latina, o Pinheiros.

Mas hoje quero destacar um grupo específico no meio desse batalhão de abnegados. São as voluntárias do DAS — Departamento de Assistência Social. Durante todo o ano se reúnem para confeccionar trabalhos divinos, feitos com muito carinho, que são doados ou vendidos nos bazares com renda destinada a ajudar os funcionários de renda mais baixa.

É lindo ver o salão cheio de cabecinhas, na sua maioria brancas. Elas vêm felizes e com muita pertinácia, muitas com bengalas e dificuldades de locomoção, o que não as impede de chegar, com muito sacrifício. O alarido às vezes é muito grande, as conversas são muitas, mas as mãos de fada continuam sem trégua.

Pois bem, o maior bazar é o da festa junina, e elas se revezaram durante quatro dias na venda das mercadorias que produziram. Algumas ficavam sentadinhas aguardando os fregueses, mas quando estes chegavam, armavam um sorriso e os recebiam de pé. Há uma que, com mais de noventa anos, permaneceu por quatro dias sem esmorecer em um dos estandes. Eu disse a todas as outras que não me falassem sobre cansaço, enquanto aquela ainda estivesse de pé. Algumas ainda desfilaram, apresentando suas próprias obras.

Meus mais profundos agradecimentos a essas mulheres de aço e coração de açúcar. Agradeço por me darem esperança na humanidade.

O Arnaldo falou que ando muito amarga. Na próxima falarei de amenidades.

 

 publicado também aqui

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

5 comentários em “Mulheres de aço, coração de açúcar

  • 02/07/2012 em 19:28
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    Minha querida Priscila!!!
    Não é “amargura”, mas sim nossa triste realidade. Ainda bem que sempre “esbarramos” em pessoas como as que vc descreve e agradece por fazerem parte da tua vida, parabens à elas. Bjs no coração.

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  • 02/07/2012 em 10:59
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    Bom dia!

    Vi minha mãe na velhinha poderosa. Grande crônica!

    Abraço.

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  • 30/06/2012 em 09:07
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    Bom Dia Priscila,
    Sua crônica não está amarga, simplesmente revela como estão as coisas no nosso Brasil. Tudo que você menciona, ficou normal. A partir de um homem do povo ter “chegado lá”, tudo é permitido em nome de ganhar dinheiro, de ficar mais rico, de ter poder. E a população aplaude. Não existe mais oposição. Entre o mundo a cada dia mais nogento da política, o mundo do PCC que está deitando e rolando aqui em Sampa, o mundo do tráfico no Rio, ainda existem os grupos que você descreve com carinho.
    Valeu, amiga.
    beijo grande

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  • Pingback: Mulheres de aço, coração de açúcar

  • 29/06/2012 em 19:53
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    Então é um tema que vale uma cronica !
    EXISTE UNA PALAVRINHA : FACTOIDE !
    Se refere a coisas que grupos nos tentam e quase SEMPRE conseguem fazer engolir…no seco..com FARINHA!
    Uma destas FRASES CRIADAS e a famosa, que de tanto usar para TUDO! perdeu se sentido:
    “POLITICAMENTE CORRETO”

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