Mulher de hoje contra Alberto Maia

Diante das olheiras e dos quarenta anos, Alberto Maia queria se casar. Noite passada, Raquel suplicara um encontro na Benedito Calixto. Chegou soluçando, disse que não aguentava mais, que estava acabado, e se foi com as sandálias que o abandonado havia lhe comprado na feira da praça: Alberto Maia, uma vontade danada de se casar.

Sua cabeça era a bigorna da primeira manhã da era pós-Raquel. Carro sem rádio. Uma dor pontuda no peito. Sobrancelhas pesadas. Um suor, mesmo com ar condicionado. A cidade insinuava que não estava ali. O jeito é tocar a vida pra frente, frase imbecil com que tampamos a vontade de sumir.

Boa pinta, Alberto sempre tivera algum no bolso. Cresceu ajudando o pai na oficina de caminhões. Fez faculdade de administração, metamorfoseou o negócio da família numa gigantesca oficina de veículos pesados. Comprou apartamento nos Jardins em São Paulo e passou a se vestir com ternos de responsa.

As mulheres vinham aos golfos, mas não ficavam. Ele era apenas uma das paradas do city tour, Alberto Maia e sua baita vontade de casar. Sempre fazia de tudo por elas, sem saber que elas não queriam tanto.

Para aquelas que permitiam uma recarga, Alberto Maia abria o cofre de sua alma. Essas, pouquíssimas, o tinham na versão plus. Nessas ocasiões, ele fechava o lacre: “É com essa que eu caso”. No tapete, Alberto ficava descalço, acendia um charuto, escancarava que odiava raves, que detestava os bares indies da Augusta, que tinha asco da Festa do Peão, que tinha alergia a Caetano Veloso, o empresário emergente e seu Johnny Walker Black. Alberto Maria adorava Altemar Dutra: o som que o pai ouvia na oficina se cristalizara nele como o verdadeiro batismo.

Para falar de casamento, Maia encantoava a namorada no apartamento. No home theater, “O Poderoso Chefão”. Depois, servia carpaccio e lascava o vozeirão do grande Altemar. O gelo cantava no uísque.

Essa era a única atmosfera em que Maia falhava como empreendedor. Quero um relacionamento mais substancial. Se a esposa quisesse trabalhar fora, tudo bem, mas só meio período, e na empresa dele. A mulher teria que dedicar um tempo ao marido, fazer comidinha em casa com uma frequência bacana, coordenar a empregada.

“E quando o filho vier?” Ele fazia questão do singular para segurar a futura esposa. “Acho importante uma educação tradicional. Quero você corrigindo as tarefas da escola, regrando o computador, uma mãe mais presente, sabe?”

Alberto Maia queria se casar e não admitia a sistêmica resistência ao seu projeto. Passou meses nas trevas depois do capítulo Raquel. Tomava e tomava dinheiro, mas nem sentia a picada da agulha. Sem esposa, seus investimentos poderiam ficar pro titio. O maior solteirão da pauliceia dirigia pela Pamplona. Sinal fechado, a escultura de uma perfeição o encarou da entrada da loja. A calça jeans muito apertada desprendeu-lhe as mandíbulas. Era ali que ela trabalhava. Enquanto ele não precisava de mais nada na vida, o sinal abriu.

Alberto voltou a dar sorrisos escorregadios naquela mesma tarde. Entrou no apartamento olhando pro chão, nem viu que jogou o paletó no resto vermelho de espaguete. Altemar Dutra. Johnny Black.

No dia seguinte, no mesmo horário da descoberta, lá estava ele, como um príncipe, em sua caminhonete asiática. O monumento de calça jeans estava erigido no mesmo chão.

Homem experiente, gato escaldado, Alberto Maia colocou conta-gotas em sua paixão para não ir logo se deslumbrando: um empresário de quarenta anos precisa se equilibrar, mas estava difícil de segurar. Ela esperou por ele durante uma semana, na mesma hora, no mesmo suspiro.

Para Alberto Maia, as mulheres andam muito carreiristas, e o sexo está fácil. Ele quer uma que se contente em ganhar a metade e que demore para esquentar, ou que seja só a metade da mulher de hoje.

Alberto Maia se apaixonou por um manequim de calça, daqueles que só existem da cintura para baixo. Ele era sentimental. Demais.

 

 

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1 Resultado

  1. manuelfunes disse:

    De novo estamos frente a visão “inreal” do universo, fonte de todo nosso sofrimento!
    Snif Snif

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