Morro acima

A moda começou na França: a prefeitura de Paris criou um sistema de empréstimo de bicicletas. O cidadão, mediante pagamento, aluga uma bicicleta por um período de um a sete dias. Ele a retira de um local e a devolve em outro. Você pode pegar qualquer uma das “magrelas” com a luzinha verde no painel onde ela está estacionada e deixá-la mais à frente, depois de percorrer seu trajeto. E assim vai, num troca-troca inteligente e salutar.

Mas não é sobre aluguéis de bicicletas que eu quero falar, tanto mais porque não entendo bem do assunto, mas sim dessa modernidade que é a ciclovia.
Para os que ainda não a conhecem (é fato: muita gente não sabe que esse bicho existe), é um local onde as pessoas podem andar de bicicleta sem serem importunados por outros veículos, a saber, carros, caminhões, motocicletas (apesar de primas, estas não se entendem com as bicicletas; coisa de briga de família) etc.

Toda cidade que se preza tem ou terá uma via exclusiva para as bikes. Em teoria, é a solução para nosso trânsito caótico de todo dia, mas existem alguns percalços no caminho. O primeiro seria a dificuldade de as pessoas entenderem que aquela faixa pintada no chão não é uma variação gratuita da famigerada faixa azul rotativa. Você não pode estacionar seu carro, sua moto nem tampouco seu cachorro ali. Essa via de locomoção só se destina ao uso de nossas amigas metálicas.

Segundo, há a necessidade de os motoristas de forma geral não agirem nos cruzamentos da mesma forma como fazem com a faixa de pedestres. Sim, meu incauto amigo, aquela área toda riscadinha de branco no chão é sua! Lógico que no Brasil muitas pessoas usam aquela sinalização para fazer mira em pedestres. Repare: basta pôr um pé numa e começar a atravessar uma avenida e pronto! O motorista pode estar a 40 km/h e a 300 metros de distância que, ao perceber sua intenção, ele ataca. Parece uma leoa correndo atrás de uma zebra. Na selva de asfalto, quem vacila corre risco. O danado vem que vem acelerando o carro em cima da gente, e usa aquelas faixinhas intermitentes para acertar a mira, um horror!

O terceiro problema me parece mais específico: minha cidade, para não ficar atrás de nenhuma metrópole brasileira ou estrangeira, também criou uma dessas vias. Só que, além dos percalços já descritos, temos aqui um agravante. Situada numa região montanhosa, a capital mineira não favorece que nós, futuros ciclistas, possamos usufruir suas benesses. Pois embora esta pista se situe num terreno relativamente plano, a pergunta que o povo não quer calar se impõe. Como eu chego lá? Deveras, se for empurrando a magrela, demoro dois dias. Se arrisco descer montado na bichinha, os leões do asfalto fatalmente me alcançarão. Mas, sendo totalmente otimista e acreditando que consiga escapar de tudo e de todos, como voltar para casa? Moro num lugar alto, como quase todo mundo que aqui fez seu lar, ou seja, em cima do morro; como pedalar até lá?

Já vi alguns jovens corajosos tentarem vencer essas barreiras geográficas. Subindo devagar um desses aclives (nenhum carro nacional tem força para subir as tais ladeiras rapidamente; e não vale importado nem motocicleta sem garupeiro), observei um desses valorosos atletas na tentativa. O bicho bufava, trocava todas as 17 marchas, mas não adiantava: a danada ia devagarzinho, devagarzinho. Assim, se as pessoas não quiserem morrer morro acima (ou no meio da subida, tanto faz), tem que haver solução melhor! De resto, aqueles que conseguem vencer tal façanha sem uma síncope são facilmente reconhecidos pelo tamanho da batata da perna. Um desses tinha uma tão grande que dava para ver nitidamente todo o mapa do Brasil tatuado na bendita. É verdade! Eles adoram tatuagens…

Tentando resolver o problema, pensei numa solução. Vamos todos comprar uma camionete, dessas pequenas, e colocar as bicicletas na caçamba. Vamos até a ciclovia e desfrutamos o passeio. Voltamos em quatro rodas sem carregar peso. Mas e a camionete, onde parar?, pode me perguntar meu fiel leitor. Mole! Deixe-a estacionada na própria ciclovia. Afinal, ninguém é de ferro!

 

3 comentários em “Morro acima

  • 08/10/2011 em 12:21
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    Adorei! Já tinha lido antes mas aí ví que não tinha comentário meu, pensa, uma oportunidade de também escrever, pois você sabe os meninos de Afonsina, cantam, pintam, escreve,oram….
    Uns um pouco mais” trabalhados” que outros, bom, de bicicleta tó fora, e que é muito perigoso nessa cidade com esse trânsito e morros, nem se fala, sim concordo com você, só estacionando na pista!!!!!!

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    • 09/10/2011 em 13:57
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      Então
      Os meninos da Afonsina é um bom nome para uma banda!
      O que vc acha?
      Beijo

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  • 28/08/2011 em 20:46
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    Gu, ótimo texto e bem realista. Vamos crer que a iniciativa da ciclovia é apenas o início de um projeto que ainda demorará muitos anos para se concretizar. Mas quem sabe é um ponto de partida para os sedentários iniciarem a prática de atividades físicas, mesmo indo de caminhonete e nos finais de semana…bj

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