Minha vida de galinhas

Eu amo galinhas, as penosas! Talvez porque em criança, na nossa casa, sempre houvesse um galinheiro. Não conheço outra pessoa que tivesse tido galinhas de estimação, com direito a roupa e tudo.

A mais notável chamava-se Louro, e foi um choque quando desapareceu.  Vivia fora do galinheiro, amarrada pela perna a uma velha pá que a impedia de ir muito longe. Um dia, a pá amanheceu com o barbante rompido e sem a galinha. Oficialmente, foi um gambá ou um ladrão. Nunca pude confirmar, mas desconfio que virou almoço antes de ficar velha, porque não encontrei nem uma pena que denunciasse luta. Galinhas eram criadas para comer, e a Louro escapou durante muito tempo porque era cinzenta, cor rara, e eu tinha me afeiçoado a ela.

Eu conseguia hipnotizar as galinhas, e não me perguntem exatamente como isso funcionava.  Às vezes, bastava acalmá-las; noutras, com uma das mãos, fazia círculos no ar por cima da cabeça da ave e ela ficava deitada de lado, quietinha por um bom tempo. Deve haver alguma explicação científica, mas, para mim, era apenas uma coisa natural a fazer. Será que fui hipnotizadora em vidas passadas?  Na internet, pasmem!, é possível encontrar vários métodos para hipnotizar galinhas.

Quando uma galinha tinha pintinhos, ficava solta no quintal durante o dia, ciscando com a ninhada. Era divertimento certo acompanhar o choco e o nascimento dos pintos. Para brincar com eles, a gente precisava dar um jeito de apanhá-los. Eram ariscos, a técnica consistia em enganá-los ficando quase imóvel, e esperar que se aproximassem. Então, com um movimento brusco e um pouco de sorte, pegava-se o inocente. Também valia imitar o piado das galinhas ou o barulho de ciscar a terra.

Tínhamos recomendação de não brincar muito tempo com o mesmo, para não cansar o bichinho nem afastá-lo muito da mãe.  Quando o soltávamos, o pobre corria imediatamente para se juntar aos outros. Um dia, sem paciência, resolvi apanhar um pelo método da força bruta, correndo atrás de toda a ninhada. Pisei num pintinho!  Lembro como tentei, inutilmente, enganar a mim mesma dizendo que não tinha culpa. Minha mãe não deu a menor importância ao fato, nem às minhas explicações, nem ao bichinho esmagado.  Simplesmente o jogou no lixo e foi tratar de outra coisa. Mas eu continuo me lembrando do assunto, porque o primeiro trauma a gente nunca esquece.

Hoje em dia, morando em apartamento, não há a menor condição de criar uma galinha na varanda. Mas tenho várias espalhadas pela casa, de louça, pano, madeira e materiais diversos. Se não fosse o autocontrole, teria muitas mais. Porém, nada disso me impede de também gostar de galinha assada. Devo ser um ser humano cruel.

 

 

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