Micromiloide

microscreen
O estado (a)normal da tela do meu notebook, que um amigo definiu como “um escritório caótico”

Alan voltou de viagem e trouxe consigo um novo computador, um moderníssimo, levíssimo e rapidíssimo ultrabook — muitos desses íssimos, como seria de se esperar, não passando de propaganda falsíssima. Até aí, tudo bem. Faltou o caríssimo, mas hum, bem, em se tratando de Estados Unidos nem foi tão caro assim, e tudo entregue pontualmente na casa do nosso filho pela Amazon. Até aí, tudo até que funcionou, tendo sido encomendado aqui do Brasil e pago em reais, pasmem (foi meu presente de aniversário para o marido saudoso e distante, saudosa eu, claro).

O problema começou quando foi necessário transferir todos os arquivos de um computador para outro, e aí, todo mundo sabe, é que começa o terrível dilema. Aqui em casa vale a regra americana da redundância máxima, para que nada se perca, e nada tampouco se transforme sem que a gente assim pretenda com muito empenho consciente: temos HD externo, um portal americano de backup automático e, exagero dos exageros, pelo menos um computador extra, mantido na casa só para que não haja risco de nada se perder na transição, vai entender. É tudo tão complicado que é melhor nem transferir nada, melhor talvez nem trocar de computador, mas aí começa a travação… É de amargar. A questão, evidentemente, é que a gente raramente procura alguma coisa no velho computador, que fica lá no outro andar, solitário e largado.

O problema começou, ops, peraí, essa já é a continuação do problema, não seu início, quando percebemos certa incompatibilidade do novo ultrabook com o ultralento roteador acoplado ao modem do lerdo velox, sabem como é, e sem que a gente soubesse exatamente o que estava causando isso, a conexão sem fio com o novo computador começou a cair, sem nenhum aviso. Tudo bem. Experimente passar por isso quando você está recuperando um computador inteiro de dados guardados no tal portal remoto, com prazo previsto para mais de 72 horas de serviço, isso mesmo, três dias de conexão ininterrupta, um deus nos acuda em se tratando de Oi e casa no mato. Desesperador.

Vai daí que dois dias e meio já haviam se passado quando Alan deu o alerta:

— Noga! O velox desconectou!

Bem, fiquei tão sem ação que me precipitei. Entrei no portal, que já havia transferido 89% do material, e sem querer querendo, isto é, querendo mas sem saber que não deveria querer, mudei o nome do computador no perfil da assinatura, ah, gente, pra quê. A coisa ficou tão completamente confusa que tive que desistir e apelar para o Plano B, isto é, transferir manualmente os arquivos de um computador para o outro através do HD externo, e foi aí que um novo e terrível problema se apresentou.

Pra fazer isso, eu tinha que reorganizar todo o sistema de arquivos e pastas em cada um, para não me perder em meio ao processo, correto? Então percebi que no computador antigo, e a essa altura já reproduzido no novo, havia um emaranhado de arquivos repetidos, pastas dentro de pastas dentro de outras pastas com os mesmos nomes e os mesmos arquivos dentro de cada uma, entenderam? Nem eu. E duvido que teria entendido o próprio dono do computador, que não tem a menor noção de como organizar um arquivo, menos ainda de como conviver com mais de 3800 fotografias, que dirá sequer atribuir um nome a uma das fotos guardadas e dizer à maquina onde arquivá-la. Argh.

Me lembrei da minha “primeira vez”, há bem mais de 20 anos (nossa, agora me espantei!), o evento tem a mesma idade de meu sobrinho Edgar, hoje homem feito, naquele dia ainda na barriga de sua mãe. Meu irmão tinha me “contratado” para fazer umas tabelas no computador dele (eu na época não tinha um) através de um software brasileiro chamado “Carta Certa”. Dava um trabalho louco, o programa nem tinha um comando do tipo “alinhar”, tinha tudo que ser feito na mão, no olhão, mesmo. Depois de horas e horas, voilà!, salvei o arquivo pronto, e depois quem disse que eu conseguia encontrar?

Fazer o quê. A coisa me deixou nervosa ao ponto da histeria, e explico por que, nem precisa, não é mesmo? Tente entrar com tudo na memória de outra pessoa, ainda mais de uma pessoa confusa, e não foi a primeira vez que fui obrigada a fazer isso, vocês se lembram. Quando mamãe começou com o alzheimer eu era obrigada a controlar o cotidiano com dois cérebros diferentes, o meu e o dela, e quando percebi naquele emaranhado prestes a sofrer a corrupção definitiva de dados a reprodução de um cérebro tomado pela temível betamiloide, que transforma humanos inteligentes em completos retardados — ops, desculpem os termos pouco corretos politicamente, o nome desta crônica, aliás rima com… deixa pra lá.

Agora me digam para quê um ser humano normal, que nem netos ainda tem, precisa ter em sua memória digital mais de 3700 fotos? Já pensaram revelar, ampliar, colocar tudo isso em álbuns daqueles de colar e guardá-los todos numa gaveta? Claro que não. Quem pensaria? E o dinheiro que isso custaria? Com o advento do digital nossa relação com as fotos mudou, e não foi a única, obviamente.

A coisa me pôs a pensar como é a vida normal de um cidadão habitual, desses para quem o computador é apenas um gadget a mais, não uma ferramenta crucial. E nem quero pensar como lida o leitor normal com a imensa novidade do livro digital, embora para mim isso seja uma automática rotina há mais de quatro anos. Não tiro os outros por mim, ou, pelo menos, entendo finalmente, não deveria. Afinal de contas, sou das poucas pessoas no planeta que até há poucos dias não tinha um smartphone, onde posso tirar milhares de fotos e enviá-las diretamente, sem pensar nem nada, para o meu mural no Facebook, embora não saiba como fazê-lo sem que a foto fique virada.

Resta me conformar, baixar o facho e me calar, encolher-me discreta, porque nem em 50 anos-luz no espaço-tempo Alan vai descobrir se na minha transição dos dados ficou faltando alguma coisa. Nem eu.

Então tá. Um bom domingo procês.

 

 

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