Meus flamboyants

A adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas.

Horácio

 

Quando planejamos os jardins de nossa casa, resolvemos colocar na calçada oito flamboyants, pois são minhas árvores favoritas. Costumam não ser muito altas, e seus longos galhos se estendem por metros, muitas vezes se debruçam e alcançam o chão. O tronco forte, de um marrom acinzentado, contrasta muito com suas folhinhas verde-claro e as flores, que em sua maioria são vermelhas e quando florescem agradam muito os olhos de quem as vê. Existem exemplares de flores amarelas, mas são raros. Certa feita, uma senhora do interior do país — que adorava plantas e já está em outro plano, quiçá olhando as copas de cima — me pediu uma mudinha daquela de tonalidade diferente. Não sei se chegou a plantá-la, mas se o fez, a árvore com certeza a estas alturas já está florindo o cerrado brasileiro.

Muito bem. Moro em São Paulo, uma cidade que adoro. Quando todos estão reclamando dos transtornos que essa metrópole gigante traz, me lembro dos ipês com seus buquês amarelos, rosas e brancos, das azaléias de todas as cores,das acácias amarelas, das lindas magnólias com suas flores brancas imensas.

Logo que começaram a crescer os meus flamboyants, percebemos que talvez tivéssemos cometido um grande erro, e esse não seria o melhor espécime para ser plantado próximo à rua, pois os carros e ônibus passando rente à calçada quebravam os galhos ainda pequenos que queriam se espalhar, tomando o espaço do fluxo de automóveis. Todas as árvores sofreram muito por longos anos, e até tivemos que replantar uma que não resistiu. Mas nos ensinaram uma lição de sobrevivência: quanto mais seus galhos eram quebrados, mais elas cresciam, e hoje estão extraordinariamente altas. Hoje, podem passar os maiores caminhões e os  ônibus mais altos que não as atingem mais.

Não tenho muita queda para esse negócio de autoajuda — no caso ALTA ajuda — mas me peguei pensando que esta é uma lição para nós, humanozinhos pretensiosos. Aprendamos com a Natureza, que é sábia: nada de fazer como aquela arvorezinha que pereceu, pois foi substituída e já tem outra em seu lugar. Miremo-nos no exemplo das sobreviventes, as altaneiras, que pairam muito além das vicissitudes e espalham beleza e alegria pelos caminhos dos transeuntes. Até as flores que caem servem para colorir o asfalto triste.

Todos os dias, chegando em casa ou esperando pacientemente que o tráfego de automóveis arrefeça um pouco, ou que algum motorista mais tolerante me dê a passagem para que eu possa finalmente entrar no recesso de meu aconchegante lar, paro alguns instantes para admirar a beleza de minhas árvores, tolinha, gosto de assim pensar, pois não são minhas, nem de ninguém,eu apenas as plantei e, provavelmente, permanecerão por longos anos bem após minha partida; também eu poderei  admirá-las lá de cima, se continuar sendo boazinha.

  publicado também aqui

 

Você pode gostar...

3 Resultados

  1. Amelia Watanabe disse:

    Uma linguagem precisa, mas incrivelmente bem escrita, expressando uma contida emoção que toca o coração da gente. Gostei!!!!

  2. MANUEL FUNES disse:

    Pode ser que a especie que esta no lugar que não é dela sejamos nós.

  1. 09/11/2012

    […]  publicado também aqui […]

Deixe você também o seu comentário