Meu vício, desde o início

…um elo se rompe e vem tudo abaixo de repente. Aquele que não está preparado para isso, ou que tem uma personalidade mais ingênua, cai na armadilha. 
Priscila Ferraz, escritora

Pois é. Toda crise tem multifacetados lados, todos borrados, como um falso brilhante nublado em cujo bojo quebrado já não se reflete nenhuma luz, que bela oportunidade para um colapso tenebroso, hein?

Vai daí que percebi, um pouco tardiamente como sempre costuma acontecer, que tinha entrado num redemoinho ascendente daqueles que carregam a gente sem que haja defesa contra tantos possíveis destinos deprimentes, um país das maravilhas bem ao contrário de todos os sonhos de Alice, sabem como é. A gente se vê demente, sob o jugo de paradoxos doentes.

Reconheço. Nem todas as drogas em uso no mercado estão catalogadas como produto de cuidadosas reações químicas quantificadas, pois é: algumas delas se reproduzem vorazmente como descontroladas combinações, lucubrações detrimentais contra as quais mal se defende a consciência esperta, pobres de nós, banais.

É o sucesso aparente, com boa chance de pior destaque na comissão de frente: fui, venci, me iludi — não necessariamente nesta maldita ordem, para o inglório afã de nossa vã popularidade social, é isso aí. Existe vida por trás de tanta atividade indevida, embora tudo nos leve hoje em dia  a duvidar dos perigos da mais completa interconectividade vivida.

E a vida, meus amigos — custei um bocado a admitir, custo ainda, francamente —, tendo de viva apenas a roda diária entorpecente, pode atingir um tanto além, bastando para isso um raro e disputado bem: o tempo bem empregado.

Posso estar cansada, enjoada, obscenamente ocupada, tudo bem, mas algo em mim, uma vozinha tênue e chinfrim, insiste em que não deveria ser assim, muito pelo contrário. Das reações emocionais que me rasgam ao meio, o que se pode depreender é que a proporção das horas deve ser invertida afinal, sem atraso ou argumento, sob o risco grave de perda total, de juízo ou de bom-senso conjugal, ok. Mas como se volta atrás de um delírio desses? Como se seca do peito contrito tão extensa e desproporcionada expectativa?

Ah, longe de mim lamentar-me sem remédio, juntar-me sem o vasto custo do tédio às hordas suicidas de desconsolados bem-sucedidos: é muito incômodo ver-se assim contida, vítima de tantos e tão involuntários compromissos, posso lhes garantir, à mercê das ocas considerações do econômico meretrício.

Opto por mergulhar no seu oposto indeciso, na falha abstinência de um ofício, antes que este me dissolva por mera falta de um limite logístico. Ou mesmo que num pódio apriorista se aproprie de mim aquela inclemente arrivista, tudo, menos a sensível artista.

O mais triste de tudo foi ter perdido junto à aposta o temporário exercício da graça, da verve, da vulva, deixando a tentação da vã disputa sobrepor-se à minha jornada dissoluta: até a horta lá fora reclama a dor do abandono, da hiperatividade insana, hirsuta.

Dos fios desconexos, desencorpada a presença diária à tela plana, plena apenas de um pensamento que engana, distorce, convence a vida de que também é plana, como um filme que a lente mágica aprofunda, confunde, mas que não nos toca: resta do toque na tela o leve choque, um corpo inteiro reduzido ao dedo, à polpa, incorpóreo degredo.

Só a poesia salva. Só o repouso, mesmo forçado, regenera o cérebro e o resguarda do enredo, restaura, prova ao corpo que ao fim das contas é ser corpo sua intrínseca natureza. Meu reino é o da imagem oculta, de preferência bem digerida, expressa pela palavra culta; nado envolta neste aluvião de culpa, chata como a dimensão da disputa que se autossequestra em estado de luta, pior: nega a si própria o remoto resgate, alguma força bruta que traga alívio a seu inevitável desgaste, somos humanos, algo mais que um eletrônico traste. Parei.

Neste fim de semana, confesso, pretendo estar tão perdida em vida como a exausta mente enovelada, curtocircuitada, que a custo se liberta do emaranhado em que se viu fisgada, de um mau (pre)texto no qual mareada se entranhou, foi ficando lenta, travada, tergiversada; uma hesitação que se estende ao teclado que a contaminou e ao  touchpad que se arrasta, sinto que se prende, se agarra à limitada memória que embora esgotada nunca se rende.

O único remédio para mal tão dadivoso é desligar-se ao menos por um dia e uma noite, livrar-se do périplo de um circuito nervoso que à revelia da arte transmutou-se em assédio tedioso, eis aí.

Por ora me demito de meu próprio autogerado mito. E se de verdade a mim mesma não minto, o que ainda claramente contesto, estarei no pleno usufruto de um simples, porém necessário, curto e tenso intervalo de um domingo.

Um bom. E tchau procês.

 

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