Meu vestido de bolinha vermelhinha

Bem, eu prometi. E embora meu coração — do qual às vezes até duvido que esteja ali, não a bomba de sangue, claro, que embora mal, ainda segue funcionando na correta pressão, mas aquele clássico desenhozinho vermelho que mais parece uma bundinha pra cima onde até hoje tem gente que acha que moram os mais humanos sentimentos; afinal de contas, venho desejando ardentemente, e ainda mais nestes últimos dias, que minha mãe se despeça deste mundo definitivamente — grite pra que eu escreva uma crônica, ou um livro inteiro — isso, se eu conseguir forças para tanto, claro — intitulado “Tudo o que você não quer saber sobre o Alzheimer mas as pessoas insistem em te contar” —, vou escrever sobre Farra, Paris e vestidos. Afinal de contas, a alegria urge: tô lançando meu oitavo livro nesta terça, todo mundo sabe, ainda por cima comemorativo (ou deplorativo, sei lá) dos meus 60 anos, e pela lógica simples de que quanto mais se pratica alguma atividade melhor nela se fica, deve ser o melhor de todos, portanto, preciso estar bonita (como se isso fosse passível), simpática e sorridente para a longa fila de leitores que quiserem me conhecer ao vivo. Estarei lá, bombando, com meu Sem essa, aranha, mesmo que mamãe esteja morrendo no hospital.

Quando eu me preparava para ir a Paris, escolhendo a dedo aquelas roupinhas menos chinfrinzinhas e as enfiando naquela mala de rodinhas já mais pra lá do que pra cá pelos anos de uso (pra vocês terem uma ideia, foi herdada de mamãe, que antes de perder por completo o uso de todas as suas ideias era agente de turismo e viajava bastante com ela, com a mesma malinha, digo), escutei (ops, ouvi, mas não “dei ouvidos”, digamos) os sábios conselhos daquela minha prima consumista quando eu disse a ela que Alan e eu viajávamos “light”: “Você sai com a mala vazia, mas certamente voltará com ela estourando”, é, pois é, ela não concebe uma ida a Paris sem a contrapartida dos milhões em compras, essa minha prima chique. Deixa ela.

Embarcamos. Chegamos a Paris.

As compras, claro, não estavam no nosso programa, mas uma vez em Roma é mister se ver o Papa, é ou não é? Ou, pelo menos, se espremer como minhoca entre os bilhões de turistas engalfinhados na Praça de São Pedro, ah, bem, não preciso exagerar que a Rue de Rivoli não é tão concorrida assim, vamos combinar.

Em Paris, a intenção de Alan não era comprar todo dia, longe disso, mas, mal sabia eu para quê na verdade ele pretendia destinar a bela cama branca da Rue Galande — e por isso fizera tanta questão dela —, coisa que embora seja difícil de imaginar num casal que passou dos sessenta anos de idade e sete de casamento, vocês podem muito bem desconfiar se fizerem uma forcinha, ainda mais que o sufixo do verbo de uma atividade rima direitinho com o sufixo do verbo da outra. E ele assim o fez.

Entre o amor, o Louvre, o Beaubourg, as caminhadas ao longo do Sena para os destinos culturais mais diversos, os dois concertos que ainda vou contar em outra crônica num outro dia e um ou outro cineminha, mais as necessárias paradinhas para comer alguma coisa, não nos sobrou muito tempo para as clássicas comprinhas, mas nas últimas horas do penúltimo dia, voilà: fomos ao comércio em St Michel.

Como vocês sabem, embora a genética (só a da pele, claro, porque a do cérebro…) não me desfavoreça completamente, Alan sempre tenta me convencer que eu me daria bem com alguns bons creminhos de qualidade, mas, queridos, eu juro. Eu tentei. Entrei em algumas perfumarias, cheguei a separar um potinho aqui e outro ali, mas minha simples presença velhusca já provocava um questionário e uma lista de produtos tão extensa para o meu “tipo de pele” que desisti no ato. Voltei pro Brasil e pro meu Creme Nívea, bem, obrigada, fala sério. Pelo preço que eu teria que investir naquilo que para mim é um simples paliativo contra os incômodos do ressecamento pós-ducha… ah, melhor deixar pra lá.

Tentei comprar um perfume também. Eu já usei perfume, não digo que não, nos meus tempos de, bem, menos básica do que sou hoje, meu favorito era o Calèche do Hermès que eu usava depois do banho todo santo dia, também o favorito de mamãe. Mas daí, um dia, minha pele desenvolveu uma alergia, e tive que parar com aquela borrifada de vaidade, e até hoje… Pois, gente, achei o preço dos perfumes hoje em dia tão absurdos, mas tão absurdos, que não me dispus a aceitar nem uma amostrinha. Fui.

Preciso confessar. Comprei uma malinha. A nossa, como eu já disse, estava em pior estado que minha pobre mãezinha na cama do Copa D’Or, embora isso não me deixasse tão triste, claro, tô pouco ligando pra minha malinha, bem, mais ou menos. Entramos numa bela loja de departamentos na esquina do Centro Pompidou e adquirimos uma Samsonite, a primeira Samsonite a gente nunca esquece, né? Pretinha, de rodinhas, pequenininha e, bem, tão baratinha quanto pode ser uma samsacionite, ops, desculpem.

Agora, sim, tem uma coisa. Eu tinha avisado ao Alan que em Paris eu queria comprar um vestido para usar na Farra, e isso eu queria mesmo. E vocês acham que é fácil comprar um vestido em Paris? Pra começar, faz um frio desgraçado, você está vestida com camada sobre camada de roupas que camada por camada você deve desvestir, e experimentar uma roupa atrás da outra que não lhe cai bem, e você se arrepiando de calcinha, repito, não é nada fácil.

Mas eu dei sorte. Entrei numa loja em que eu já estava de olho na esquina da Rue Galande e dei de cara com um vestido delicado e simples de bolinhas brancas e vermelhinhas que estarei vestindo na Farra, nesta terça, onde estarei sorrindo e feliz esperando por vocês. Até o Alan aprovou, juro, o vestido é uma gracinha.

Apareçam. E um bom domingo procês.

 

 

 

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