Meu testamento

Atestar já é meio complicado, porque, direta ou indiretamente, se pensa no ato de partir, deixar esta vida que, apesar de alguns tropeços e das rasteiras que nos dá, é uma maravilhosa dádiva, principalmente se você, durante esta curta viagem que já tem um porto de chegada lhe esperando, plantou amigos, colheu risos, cultivou encantos, viajou por lugares, leu, escreveu, chorou porque o ente amado chegou antes ao seu derradeiro porto, navegou mares, criou um mundo, mesmo pequeno, mas que foi seu e das pessoas que lhe são queridas.

Os testamentos estão rigorosamente definidos no artigo 1.862 do nosso Código Civil e podem ser públicos, cerrados ou particulares. Este meu, particular, dedicado à minha mulher Janice, não tem validade jurídica nem respeitou o que preconiza o tal do código; foi escrito em uma tarde de maio, sob aquele céu sem a agressividade do azul do verão, clima ameno, ao lado de minhas plantas, algumas floridas, e tem como testemunhas — são três as exigidas por lei — dois sanhaços e um fugitivo beija-flor que me olhou com certo desdém, amou as flores e partiu sem colocar sua indispensável assinatura. Mas como está no meu livro Calçadas do Leblon, isso o torna quase público, sem os competentes efeitos legais, certamente, mas espero que inspire outras pessoas a lavrarem os seus de igual forma, teor e conteúdo.

 

Meu testamento

                        Para Janice

 

Se eu morrer sem tempo de colocar em folha,

Em folha de tabelião,

Todas as minhas últimas vontades,

Todos os meus últimos trocados,

Todos os meus últimos bens,

Todos os meus últimos empréstimos,

Eu lhe deixo estas últimas lembranças:

— Uma garrafa de um velho Borgonha, safra 1989, tinto, bem conservado, para você beber pensando em mim.

— Uma passagem para Amsterdã, ainda em uso, com validade perfeita, para você passear pelos canais, rever Van Gogh, beber cerveja, fumar haxixe pensando em mim.

— Um disco do Chet Baker, já velhinho, triste, magro, drogado, cansado, para você ouvir pensando em mim.

— Uma enorme saudade, gasta pelo tempo, para você se lembrar pensando em mim.

— Um poema do Pessoa, no qual ele fala que “se o poema for belo o não for publicado, não tem razão de ser”, para você ler pensando em mim.

— Uma tristeza vaga pelas besteiras que não fizemos, para você fazer pensando em mim.

— Uma noite de tempestade, como muitos raios e muita chuva, para você se molhar pensando em mim.

— Uma faca de prata comprada em Portobelo, para você se cortar pensando em mim.

—Um prato de ostras, ostras de Bordeaux, daquele restaurante de que você tanto gostou, para você comer pensando em mim.

— Um castelo em Edimburgo, cheio de fantasmas, com muito gaiteiro na porta, para nele você dormir pensando em mim.

— Uma ilha no Egeu, com aquele mar azul sendo beijado por casas brancas, para você nadar pensando em mim.

— Um filme com muitas lágrimas, com muito amor, com muita dor, para você rever pensando em mim.

— Uma cama enorme, com colchão duro, virada para o poente, com muito sol entrando e dizendo vida, para você sonhar pensando em mim.

— Uma falta de riso de criança, de um filho que nunca veio, para você sofrer pensando em mim.

— Um vento Mistral, daqueles brabos, que quase lhe derrubou, para você se segurar pensando em mim.

— Uma enorme onda, quase cobrindo o barco, quase virando tudo, para você se afogar pensando em mim.

— Um quadro de Monet, com muitas flores, com muita cor, para você nele morrer pensando em mim.

— E se ainda não for suficiente, lhe deixo um lenço vermelho, com minhas últimas lágrimas para que você, para que eu, para que nós, choremos juntos pensando em mim.

 

5 comentários em “Meu testamento

  • 03/11/2012 em 23:51
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    Bela escrita, belo testamento…testando uma vida boa com a Janice, pessoas de sorte vcs!!!

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  • 28/10/2012 em 09:31
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    EU DEIXO TUDO O QUE NAO COUBER NO SARCOFAGO JA PREPARADO EM GRANITO, ONDE MINHAS CINZAS IRAO FICAR LACRADAS COM A TAMPA QUE SÓ SE FECHA UMA VEZ E QUE SERA COLOCADO EM CIMA DE UM CHAFARIZ NA CASA DA FAMILIA, NUM BELO JARDIM. MAS ATÉ CHEGAR ESTE MOMENTO, VOU USUFRUINDO DE TUDO QUE CONQUISTEI, E DE TUDO QUE OUTROS, ANTES, DEIXARAM EM MUITOS TESTAMENTOS POR AÍ, AMIGOS, PARENTES, CONHECIDOS, ANIMAIS DE ESTIMAÇAO ETC, POIS É SABIDO QUE VIVER ULTRAPASSA QUALQUER MOMENTO, QUALQUER TESTAMENTO. (MARCOS DI NÁPOLLI CARELLI)

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  • 27/10/2012 em 14:29
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    Tirando o lenço vermelho, que pode fazer alusão a um certo partido nefasto, as drogas que ha muito não são bem vindas. . . O Chet Baker, esse eu deixo uma excelente coleção para minha amada, quanto aos outras lembranças digo, são interessantes.

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  • 27/10/2012 em 11:54
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    Eu sabia que deveria aproveitar mais minha vida! Agora já era…
    La vie est comme maintenant que Rage. Personne ne m’a dit que je devrais en profiter!

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  • 27/10/2012 em 11:47
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    Paulo Pinho!
    Você me deixou uma ideia.
    Certamente o meu terá coisas bem diferentes.
    As vidas são diferentes, a começar pela Janice, que é Adélia.
    Mas a genialidade da ideia tocou-me fundo.
    Obrigado!

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