Meu reino por uma divulgação

Quem não se comunica se trumbica.

Abelardo Barbosa, o Chacrinha

 

 

Minha astróloga de plantão — calma aí, gente, eu já disse que não acredito em astrologia, mas Rosângela é autora da KBR e minha velha amiga, quase de infância, sabem como é — já disse que não adianta eu reclamar: o capricorniano leva quase a vida toda pra se posicionar, e embora seja um persistente doente demora muitos anos pra ver o sucesso chegar.

Pois é. Astrologia. Junto às demais vãs filosofias, foi algo que deixei de lado quando alguma coisa em mim decidiu que era hora de tomar tenência, partir para algum negócio que realmente me garantisse a sobrevivência.

Ah, mais do que isso: uma dedicação total (e prazerosa, ou nada disso seria possível) à atividade profissional, tão exclusiva que leva de roldão o que houver em volta que lhe escape ao contexto, tudo pela definitiva qualidade do texto: dias de folga, lazer, cinema e concertos e, não custa lembrar, aquele tempo de peruar que nos deixa por dentro de tudo que há pra se conversar. Às vezes, devo confessar, torna-se até complicado encontrar um assunto sobre o qual escrever, como hoje, por exemplo. Outro dia, outro exemplo, a Priscila, também autora da KBR, se declarou chocada por eu não saber que a crônica dela aqui no blog se referia ao Neymar. Quem?

Pois se o capricorniano é realmente esse sujeito insistente, então, embora eu sempre tenha sido meio demente, só me tornei realmente persistente depois que fiquei madura, eu acho, ou fui forçada pela exiguidade financeira (e o horizonte ameaçador de enormes despesas devidas ao amor — uma opressão que agora se acalmou, mas, felizmente, cheguei tão longe que já não posso desistir), ainda bem: ser capaz de pagar minhas próprias contas me deixa muito bem, e nem sempre foi assim.

Quase nunca, pra dizer a verdade. Ao longo da vida já fiz tanta coisa diferente que nunca me dediquei o suficiente (como aquela gente que se forma na faculdade e segue um caminho até o fim) pra que o retorno pudesse chegar, reconheço  — considerando, é claro, que o reconhecimento instantâneo, fácil e espontâneo, nunca deu chance pra mim, meu negócio é ralar, mas… deixa pra lá.

Eu ia falar de dinheiro agora, mas decidi apagar. Descobri que ele nada mais é do que moeda de troca, sem trocadilho nem favor, uma questão de ampla e completa devoção à função de escapar do vermelho, se é que vocês me entendem. E, claro, há algo mais que faz tudo dar certo e se encaixar com rigor, mas o que é não sei dizer. É como é, e acabou.

Hoje em dia, confesso, não consigo ver nisso nenhuma magia do destino. Deveria? Talvez no fundo no fundo eu ainda mantenha a pequena ilusão de que existe uma antena, sei lá, uma captação subliminar que concatena, leva a fome até onde há o que comer.

Só sei que tive a clara noção de como mudei radicalmente quando me coloquei incondicionalmente ao lado de Freud enquanto assistia a “Um método perigoso”. Entre Freud e Jung, cada um acalentava o seu próprio perigo e o temor que a ele correspondia: o primeiro, de escapar à seriedade científica de suas pesquisas, já por demais controversas para o tempo em que ele vivia, e entendo isso muito bem; o segundo, de escapar às tantas “possibilidades ocultas” que determinam o nosso destino, e por ocultas não queria dizer memórias inconscientes que nos ditam o que fazer — e às quais podemos eventualmente ter acesso e algum sucesso em transcender, como Freud gostaria de nos provar —, mas algo muito maior, mais amplo e complexo do que qualquer coisa que um humano comezinho poderia saber, baseado vagamente no sonho de um casarão e algumas relações extraordinárias que extrapolam o obscuro porão da imaginação. Ufa.

Freud não teve dó: “Tratamos de mentes doentes. Você não vai querer que nossos pacientes troquem uma ilusão por outra.” Gostei. Acatei.

Mas o mais engraçado em tudo isso é que em meus tempos de junguiana eu costumava enxergar a nascente internet — e mais do que ela, depois dela, o “nosso” Facebook —, como uma espécie de prova da existência do inconsciente coletivo, um arquétipo ancestral trazido à tona mental por nossas tecnológicas e crescentes conexões virais. Mas depois do malogrado IPO desta semana, o que veio à tona, aparentemente, foi o alto grau de ilusão (comercial) implícito no mesmo Facebook, e, por extensão, na internet.

Quanto a mim, que tanto tenho tentado fugir às ilusões, quaisquer ilusões, eis me aqui mergulhada até o pescoço na maior e mais envolvente delas: o mundo “virtual”, um conceito que qualquer dicionário, por princípio, definirá como “não real”. Ilusório. Bingo.

É isso aí: não tem remédio a perplexidade humana. E sem ela, vamos combinar, perde a graça qualquer invenção que arrebente os limites de nossas ações cotidianas. De uma coisa, pelo menos, para mim não resta hoje a menor dúvida: aqui se cria, e aqui se vive. Isso é tudo. Só acredito naquilo que, apesar de não ver, tem força que baste pra me convencer, o que já não é tão fácil como costumava ser.

Resta encontrar um jeito  barato e eficiente de se comunicar, ou nem o presidente dos Estados Unidos consegue se arrumar. Francamente. E embora muita gente custe a entender, não vejo nada de errado com isso: eis a importância crucial de um Facebook, não é mesmo? Até mesmo o amor verdadeiro já foi definido assim, Alan que o diga: ter alguém pra assistir (e apreciar, obviamente) o que você consegue atingir.

E um bom domingo compartilhado procês. Obrigada por estarem sempre aqui!

 

 

6 comentários em “Meu reino por uma divulgação

  • 27/05/2012 em 16:40
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    Obrigada, Rosane, a gente nunca sabe quando vai dar certo, rsrs. E Raul, não desista, afinal de contas os nativos de Touro têm facilidade especial para amealhar bens materiais! Bjs!

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  • 27/05/2012 em 16:08
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    Parabéns!
    Sou do signo de Touro, e também continuo aguardando o $uce$$o!
    Abraço,
    Raul Augusto

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  • 27/05/2012 em 12:50
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    Noga, não é pela menção ao meu nome que estou elogiando seu texto. Achei que deve ser lido por tantos quanto possam ler. Parabéns! Bem vinda por acatar o Freud. Coim ele não tem ilusão… Beijo!

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