Meu prazer é minha prisão

9788581800974Embora ao longo desta vida eu tenha passado pelas drogas inerentes à minha geração com a sutileza e a distância de uma alma apenada, um espírito amedrontado, sei lá, apegada à minha própria sobriedade com a maníaca racionalidade que aqui em casa ainda faço questão de praticar, não me é estranha a sensação de um grande prazer detonado pelo excesso, pelo hábito, por seu abuso e a consequente perda de sentido ou entendimento. Algo a que raramente escapa, por exemplo, o grande amor depois de certa idade ou tempo percorrido — embora até agora eu tenha me mantido ao largo daquela burocracia no relacionamento, tão dolorosa e brilhantemente descrita em Sacudindo o pó da estradaromance de Antonio Ernesto Martins, no livro apenas uma decepção a mais por que passa o protagonista. Mas que me impressionou, deixou em mim seu carimbo de atualidade.

Há outros males no texto que me afetam igualmente, porque deles sofri e ainda sofro, a violência no Rio, por exemplo, que de um jeito ou de outro me expulsou da minha cidade de eleição. Como foi que chegamos a esse ponto?

A pergunta faz todo o sentido, já que a figura do carioca enturmado, por dentro de tudo, descolado e relaxado, acabou de certa maneira tornando-se vítima do próprio poder de atração que lhe proporcionava o charme, a aura de sedução, e por que não dizer, o alto lucro da contravenção.

Quem dentre nós já não fez quase tudo nesta vida para usufruir do máximo de emoção? Esta e outras ilusões, marcadamente as que parecem garantir uma permanência em estado de gozo que escapa às mais avançadas faculdades mentais — de nada se goza eterna e impunemente, embora isso nada tenha a ver com a moral das religiões, pelo menos para mim —, terminam por nos cercear a vitalidade, nos encerrando no cárcere da veleidade que acaba sugando a prévia sensação de liberdade, sendo o máximo exemplo disso o consumo escalonado de drogas.

Já lemos muito a respeito. Vivemos cotidianamente com as consequências dessa falta de respeito aos limites humanos, da lei moral humana, digo, pois caso existisse em nós a capacidade de transcender a limitação sem incorrer em criminosa transgressão dos direitos alheios — ainda que apenas o direito do outro à nossa agradável companhia —, tudo valeria, desde pequenas ousadias a um prazer que não se transformasse em vazio à nossa revelia, crescente carência e estado pleno de submissão.

Mas poucas vezes na vida vi uma entrega como a que testemunhei lendo esse livro, uma falta de pudor absoluta, um destemor para enfrentar (e compartilhar) as próprias falhas, um amor de si e uma capacidade de resistência que justificam a radical ausência de piedade e perdão para consigo mesmo, pelo menos enquanto se trava a luta, se é que vocês me entendem.

São duas ou três guerras paralelas contra a (in)dependência, cada uma pano de fundo para as demais sem que se encontrem antes do infinito como feito e efeito, decadências paralelas motivadas pelo mesmo mau uso da liberdade cotidiana: a ditadura militar brasileira, a incipiente violência carioca e o vício de Toninho, duas delas pelo menos hoje em dia felizmente vencidas. Fica restando a terceira, uma armadilha urbana que Antonio Ernesto pode nos ajudar a compreender, talvez desenredar. E este, para mim, é um dos aspectos mais ricos e instigantes do livro.

Sacudindo o pó da estrada é um relato contundente, mas que não escapa aos momentos surpreendentes, situações inusitadas embora completamente convincentes, assim como as inacreditáveis redes invisíveis que nos envolvem no dia-a-dia da vida na cidade, das quais involuntária e inevitavelmente acabamos fazendo parte — todas descritas com um sabor e um realismo únicos.

Dá um alento saber que Toninho, no final da história, realizou seu intento. Muitas vezes, enquanto editava o livro, discuti com seu autor, que insistia em expressões que descreviam seu personagem como tendo feito isso e aquilo “até o fim de sua vida”, como assim, Antonio Ernesto? Antonio e Toninho, contrariando os prognósticos mais sombrios, sobreviveram ao vício e estão aí para contar como foi isso: é o que faz de Sacudindo o pó da estrada um romance que merece ser vivenciado, mais do que lido, mesmo que o leitor incorra por si no risco de um outro vício, o da literatura — um prazer que nunca aprisiona, ao contrário, liberta a mente mais empedernida, ufa, resvalei no final, mas entre idas e vindas e vários parágrafos apagados (de um tema importante e complicado), saio da crônica de alma lavada, como sempre. Ainda bem.

Pra terminar, não custa lembrar que hoje é domingo de Páscoa — uma tradição anual que começa com a morte e termina com a ressurreição, nada melhor para uma exata comparação. Não por acaso, Antonio Ernesto Martins tem na fé espiritual sua máxima garantia de salvação, literal e literariamente. Leiam o livro e vocês com certeza entenderão. Sai nesta terça.

Tenham um bom domingo!

 

Para ir além:

Sacudindo o pó da estrada em pré-venda na Amazon, e na Travessa (edição impressa).

 

 

 

 

3 comentários em “Meu prazer é minha prisão

  • Pingback: Noga Sklar | Meu prazer é minha prisão

  • 31/03/2013 em 13:42
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    Ao final de nosso trabalho de edição, depois de divergências e afinidades, todas apaixonadamente empenhadas no bom resultado da obra e sua plena comunicação com o leitor, disse a Noga que, por enquanto, somente ela me conhecia tão bem quanto eu. Hoje, após ler sua resenha, vejo que estava enganado. Noga foi além e decifrou a mim e ao nosso Sacudindo o pó da estrada muito mais do que eu mesmo poderia. E isso é maravilhoso e faz a obra ter sentido. Ajuda a enfrentar o desconhecido e as consequências imprevisíveis de um “se abrir” e “se revelar” intensamente praticado em meu livro. Paz, saúde e felicidades a Noga para que ela continue dessa forma especial e brilhante cuidando de nossos livros e da KBR.
    Feliz Páscoa a toda família KBR

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