Meu livro de minutas

Estamos subindo a serra de volta do Rio. Já é noite, a estrada coalhada de caminhões gigantescos. Um deles leva na carroceria dois outros caminhões gigantescos, dando à longa sequência de luzes uma atmosfera pesada, opressiva. De pesadelo. Estou tensa, devo confessar. Passando em revista os últimos e intensos dois dias fora do nosso paraíso habitual, do banco do carona Alan sugere que eu comece ali mesmo a escrever o meu “livro de minutos”, mas como? Que livro? E ainda por cima dirigindo, sem computador, papel ou caneta?

Um livro de “minutos”, ele me explica, é um relatório detalhado de todas as pessoas que a gente encontrou, o que foi discutido, aprendido e combinado, com o claro objetivo de aprender com cada contato realizado, uma técnica de negócios ou algo assim, coisa de americano, sabem como é.

Confiro no dicionário, ah: em português, o conceito mais aproximado seria “livro de minutas”. E, francamente, tenho encontrado tanta gente nessa aventura empolgante do livro digital, que um livro desses é mesmo necessário, para a história da empresa, ou de algo de valor que a gente possa estar criando, sei lá. Enquanto o papel não se apresenta, vou escrevendo serra acima mentalmente.

Quando chego em casa, ligo a tevê pra relaxar um pouco antes de voltar ao trabalho e vejo Patti Smith no programa de Charlie Rose, falando sobre seu livro Just Kids, que li faz algum tempo no meu kindle, um relato emocionante das pessoas que ela encontrou em sua vida, coincidência, não é mesmo? O “livro de minutas” dela, digamos. Muito aberta e franca, Patti diz a Rose, curioso sobre a menção a tantas celebridades, como era conviver com toda aquela gente: “Eram pessoas normais, sabe, pessoas que a gente conhecia e que estavam ali nos mesmos lugares, alguns um pouco famosos, outros menos, mas não existia naquela época o conceito de ‘celebridade’. Éramos amigos. Pronto.”

Em outra noite, eu tinha acompanhado outra interessante entrevista com Jeffrey Pfeffer, professor da Stanford School of Business, sobre poder pessoal, a razão pela qual algumas pessoas o têm mais do que outras, o que as diferencia umas das outras. Basicamente, construir poder pessoal é não desistir nunca, diz Pfeffer, fazer um plano e prosseguir nele, não desistir perante qualquer dificuldade, o que é bastante raro, acrescenta ele. E descobri que eu tenho isso de verdade, um “poder” de materializar a (minha) realidade. Penso que vou fazer algo. Vou lá. Faço.

Pois é. Estive no Rio para dois eventos: a inauguração da Livraria Cultura no Fashion Mall e a Bienal do Livro. Sobre a Cultura já escrevi outras vezes, talvez nunca antes sobre como uma editora pequena como eu, como a nossa (a pessoa e a companhia), se aproxima do núcleo vital de uma grande empresa, líder nacional do mercado livreiro, como se fôssemos, assim, digamos, amigos de infância, de longa data pelo menos; muita chutzpah de minha parte, mas não ligo, vou fazendo assim mesmo. E tenho chegado a algum lugar.

Isso começou na verdade há alguns anos, quando decidi que minha carreira de escritora iniciante dependia de forma cruciante de que eu me aproximasse de determinado editor muito importante, a única pessoa, eu pensava, “capaz de ler e entender” o livro que eu escrevia naquele momento. Eu nunca o tinha visto. Se o visse na rua, jamais o reconheceria. Não tinha nenhum amigo em comum que nos apresentasse.

Escrevi no meu painel de recados que ia conhecê-lo, mas não fazia ideia de como faria isso. Pois num determinado dia, li no jornal que ele estaria numa palestra em Ipanema. Fui lá. Ouvi. Me apresentei.

Esse famoso editor, acredito, nunca chegou a ler aquele meu livro, embora talvez tenha lido os outros. Mas uma “sorte” estava lançada, e a “mágica” dos encontros concretizada. De lá pra cá, vim fazendo planos, semeando encontros cada vez mais ousados, sem me incomodar com nada que se interpusesse em contrário. E meu “poder” vem se acumulando, já quase se impondo, mas cadê o tal “livro de minutos”?

Bem. Vamos combinar. Escrevi tudinho aí em baixo, mas resolvi apagar. Na verdade não estou tão certa se escrever sobre isso não é apenas me vangloriar, ou quem sabe, entregar “ouro a bandido”. Ou talvez, quem sabe, um livro desses é bom para aquele projeto de vida que embora a gente se empenhe em concretizar, deixa instruções expressas pra que o relato detalhado só seja publicado depois que a gente desencarnar, ih, estou soando esotérica hoje, deve ser algum ato falho, ou então foi só pra rimar, mesmo. Ou não terá sido à toa que minha editora no blog ao ler o texto original o tenha mudado de categoria, de “educação” para “fé”, prestem atenção: eu não disse “educação pela fé”, longe de mim afirmar isso, né?

Só vou relatar meu encontro com Spirito Santo, autor do nosso próximo lançamento que até então eu só conhecia pela internet, uma figura marcante no cenário da comunidade negra brasileira que acompanhou de perto o processo de gestação do samba, da apoteose ao terreiro, e escreveu sobre isso um belo livro que vem por aí. Pela KBR, é claro.

Como eu repito sempre que dá, a vida me levou a não acreditar, a nunca pensar em termos de que há um Deus pra nos apoiar. Pois é. Mas, cá entre nós, embora eu não acredite nele, parece que ele anda crendo um pouquinho em mim ultimamente, é ou não é?

Taí. A verdade dos fatos, sem fé nenhuma para atenuar, é que eu mesma de uns tempos pra cá me descobri finalmente acreditando em mim, e é por isso que as coisas começaram a rolar, vamos combinar. Estar de bem com a vida é isso aí, o resto é melhor deixar pra lá.

E um bom domingo procês, porque pra ser bom, tem que se entregar. Será?

 

Você pode gostar...

2 Resultados

  1. Ethel disse:

    Noga, amei esse texto. A Escritora, então! Adoro quando você questiona a sua “ex-fé” . É hilário! rs

    Fé é poder… E a ordem desses fatores não altera o produto…
    Beijos, querida! Te vejo na próxima!

  2. Caetano disse:

    bonito de ver noga. segue em frente. 🙂

Deixe você também o seu comentário