Meu filho, minha alegria

Vi coisas que os terráqueos jamais acreditariam: buracos negros emitindo raios gama, devorando estrelas. “Naves de ataque ardendo no lago de Órion. Assisti raios ‘C’ cintilando na escuridão, junto ao portão de Tanhauser” (Blade Runner, lágrimas na chuva). Vi Tropas Estelares em voos rasantes, disparando seus mísseis, esmagando as revoltas do povo Vulcano no Mar da Tranquilidade.

Na crônica passada, O pescoço de Eva, lhes contei como me apaixonei. Duas semanas depois, era domingo, eu estava de serviço na Lua de Fobus, monitorando foguetes cargueiros que cruzavam a atmosfera marciana, quando Eva me mandou uma mensagem intergalática: “Quero casar com você”. Não pensei duas vezes; a vida não é só trabalho, e respondi de volta, “Aceito”.

Na segunda-feira, felizes como dois robozinhos R2-D2, ao som de Also Sprach Zarathustra, assinamos um contrato de divisão de tarefas e juntamos nossos cabos eletrônicos. Aproveitamos uma promoção de inverno e compramos um pacote de três dias. Passaríamos a lua de mel em uma Usina Siderúrgica abandonada no Vale do Aço.

Ao pousarmos na Terra, um odor de meia com chulé fervida em repolho encobria a cidade, antigamente conhecida como “Pouso de Água Limpa”. Olhei ao largo, vi uma placa enferrujada que piscava, dizendo que a qualidade do ar era “ótima”. Respirei fundo. Nada melhor do que o ar puro da Terra.

Mais tarde, fiquei sabendo, aquele perfume de Belzebu vinha de uma fábrica de celulose nas proximidades. Temperatura agradável (55ºC), à sombra das árvores petrificadas pela chuva ácida, coquetéis de lava, massagens com escória radioativa, incensos de benzeno, lagos sulfúricos. Estávamos inebriados. Eva adorou cavalgar em um avestruz gigante a cento e vinte por hora, de uma ponta a outra da cidade, zombando dos pardais eletrônicos.

De volta ao batente, fomos morar em uma tubocápsula, imóvel funcional monitorado vinte e quatro horas por dia pelo Grande Chefe. Depois de algum tempo, como éramos funcionários da mesma secretaria, concorremos a uma cápsula maior, de vinte metros quadrados. Nossos números foram sorteados, saímos até no Jornalzinho Eletrônico. Estávamos tão felizes que não nos importamos em financiar o imóvel em cinquenta e seis anos, comprometendo 70% de meu salário, sem juros.

Infelizmente, a vida de casado logo vira um tédio: televisão, pipoca com cerveja, visitas ao zoológico para ver os homens-macaco e sexo cinco vezes por ano. Mesmo diante da ameaça de o planeta Marte vir a ser arrasado por um meteoro gigante, nunca deixamos de fazer planos para o futuro. A vida sempre continua, ainda que seja sob a forma de barata. E como estivéssemos precisando de um novo eletrodoméstico, optamos por adquirir um filho. Negociamos uma garantia de cinco anos, mais a devolução de impostos. Eva forneceria a bacia de fecundação, e o leite pra amamentar nosso filho viria de mim, em doze sabores, incluindo soja.

Passados onze meses de gestação, o replicante XVC 451278963 veio ao mundo marciano, fruto da clonagem de uma célula extraída de minha narina direita com um fiapo do pescoço de Eva. Em casa, chamávamos o menino de Copinho 2210. O robozinho, além de ter emprego garantido, já vinha com todos os opcionais: computador de bordo, célula de comunicação espacial, impressora, microfreezer, entrada para vídeo-laser, aspirador de pó e lava-louças.

Mas, para mim, torcedor fanático do Raposa Espacial, a maior vantagem em ter um filho era a companhia que ele me fazia nos finais de semana. Aos domingos, quando eu tirava a tarde para assistir ao futebol pela tevê, principalmente se o Copinho estivesse dormindo, bastava eu desconectar os bracinhos e as perninhas dele e virar o menino de cabeça pra baixo que ele se transformava num excelente canecão de cinco litros — com a vantagem de conservar a cerveja estupidamente gelada.

O inferno era quando o diabinho acordava. Ele não parava de berrar, debatendo-se, esquentando e entornando o líquido precioso. E não adiantava eu colocar meu mamilo de Leite com Toddy na bocarra do pestinha. Nessas horas, só a mãe é quem dava jeito.

 

 

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