Meu amigo Maigret

maigret1No dia 12 de fevereiro de 1903 nascia em Liège, na Bélgica, o mais profícuo escritor de todos os tempos, considerado, por diversos de seus pares, como o maior romancista que conheceram.

Sobre ele escrevi com maiores detalhes na minha crônica “A arte de cortar palavras”, publicada na KBR, em 12 de janeiro, quando deixei mais do que patente minha enorme admiração por Georges Simenon.

Em 1884, nascia em Saint-Fiacre, uma pequena cidade imaginária do departamento francês de l’Allier, Jules Maigret. Surgiu no mundo literário em 1931, apesar de ter sido criado em 1929, com a idade de 45 anos, já inspetor de polícia, passando depois a comissário, postos que ocupou de 1929 até 1972. Durante esse espaço de tempo, envelheceu 8 anos, desvendou mais de 102 crimes e se tornou um dos mais conhecidos personagens já criados por um romancista.

Seu pai, administrador do castelo de Saint-Fiacre, tem toda a personalidade, a bondade, a honestidade e a falta de ambição do pai do romancista, Désiré Simenon. Quando Simenon nasceu, seu pai tinha 25 anos. Quando Maigret nasceu, seu pai Évariste tinha 24 anos, e ambos, o pai de Simenon e o de Maigret, morreram com 44 anos. Foram 75 romances e 28 contos com o humano, real e querido comissário.

 “É um dos raros personagens, talvez o único que criei, que tem pontos em comum comigo. Todos os outros são completamente independentes de mim.”

Simenon, na sua mocidade, leu muito a obra de Conan Doyle. Sobre o famoso detetive criado pelo escritor britânico, Simenon declarou que “Sherlock Holmes é teórico, ao passo que Maigret vive, ele existe”. Esta afirmação de que Maigret existe foi algo que Simenon sempre cultivou, apoiado no sucesso imediato e estrondoso de seus romances policiais, da enorme divulgação que o cinema e, mais tarde, a televisão, fizeram de seu mais famoso personagem.

Em 1932, um ano depois de terem sido lançados, dois livros já eram adaptados para o cinema. E não pararam mais. O maior ator do cinema francês de todos os tempos, Jean Gabin, por três vezes se transformou em Maigret, sendo talvez o melhor de todos. Vieram os ingleses como o grande Charles Laughton e Rupert Davies, os irlandeses Richard Harris e Michael Gambon, holandeses, belgas, americanos, canadenses, italianos, como Gino Cervi, alemães, e, por incrível que pareça, em plena época da Cortina de Ferro surgiu um Maigret soviético, Boris Tenin, e até um japonês, Kinya Aikawa. Enfim, tem Maigret de quase todas as nacionalidades.

Mas foi na telinha que Maigret alcançou um público muito maior se tornou ainda mais popular, querido e humano. Foram, até agora, adaptados 279 Maigret, sem contar episódios que geraram somente um especial. É um número que excede tudo o que se conhece.

As séries mais importantes foram as francesas, com Jean Richard, num total de 88 episódios, todos os romances e mais 13 contos; a com o fantástico ator de teatro, Bruno Cremer, surgida depois do falecimento do escritor, num total de 54 episódios, todos eles apresentados no Brasil pelo canal Multishow, sempre aos domingos, e que deveriam ser reprisados. A italiana, de novo com Gino Cervi, num total de 17 episódios; a da BBC, com Rupert Davies, 53 romances adaptados; a holandesa, com Jan Teulings, 16 romances, e a japonesa, com Kinya Aikawa, quando foram adaptados 25 romances.

Para humanizar mais o personagem, Simenon criou Mme Maigret. Somente se referia a ela como Mme Maigret, e seu nome, Louise, aparece somente em três romances. Nascida na Alsácia, se casaram em 1912, e Simenon, em uma das milhares de entrevistas que concedeu, disse: “Não acredito que Mme Maigret possa amar seu marido com tanta gentileza, fidelidade, paixão tão calma e ao mesmo tempo tão tocante, se não tivesse sentido que ele era um homem muito humano, muito bom e generoso. Quando me perguntaram se meu ideal amoroso seria Mme Maigret, eu, carinhosamente, respondi que sim.”

A vida calma, a falta de um filho, idas aos cinemas, ela sempre esperando e abrindo a porta do seu apartamento no Boulevard Richard-Lenoir mal escutava seus pesados passos subindo a escada, os almoços a dois, os jantares com seu amigo, o velho médico de bairro, doutor Pardon, a pequena casa de campo comprada no Loire para quando o comissário se aposentasse, a relação de amizade, fraternidade e amor que existia entre eles, foi fazendo com que milhões de leitores em todo o mundo começassem a pensar que Maigret e sua mulher realmente existiam. Quase cem livros publicados por críticos, psiquiatras, criminologistas e sociólogos, analisando o fenômeno Maigret ajudaram a difundir essa ideia.

Jacques Leonard, um dos mais importantes comissários que passou pela Policia Judiciária, escreveu que Mme Maigret era como se fosse a esposa de diversos policias com que trabalhara, e terminou dizendo que “sem Mme Maigret, o comissário do cachimbo não teria sido quem ele é. E muitos de nós, também não”.

Em 1971, quando o escritor e crítico gastronômico Robert Courtine publicou seu livro 100 merveilles de la cuisine française, incluiu as receitas da bouillabaisse e do coq au vin preparados por Madame Maigret. Mais um fator que ajudou a aumentar junto ao grande público o mito de que o casal Maigret realmente existia.

O próprio Simenon continuava a fazer a sua parte: “Escrevi meus primeiros oito livros sobre Maigret, que sendo inspetor de polícia poderia se dirigir a qualquer parte, ter acesso a qualquer ambiente para formular perguntas, de modo que foi com ele que aprendi como se constrói um romance.”

No dia 18 de abril de 1952, na sede da Policia Judiciária, no famoso número 36 do Quai des Orfèvres, Simenon foi homenageado com uma recepção oficial, seguida de um lauto almoço. Estavam presentes o Chefe de Polícia de Paris, todos os comissários-chefes de brigadas, ex-diretores, os mais importantes inspetores, quando lhe foi entregue a placa de prata de número 0000 com o nome de seu titular, o comissário Jules Maigret. Foi a distinção que mais tocou Simenon em toda a sua vida. E como sempre, usando seu fantástico tino para se autopromover, todos os jornais de Paris estavam presente cobrindo o evento.

Simenon, sempre sarcástico, se divertia com o que era publicado a respeito do seu velho amigo Maigret: “Terminei de ler um longo estudo de um criminologista belga sobre os métodos do meu comissário. Nunca tive ideia de que Maigret tenha dito tais coisas.”

Os estudiosos de sua obra não sabem de onde surgiu o nome Maigret. Muitos acham ter sido uma ironia típica de Simenon, criado a partir do adjetivo maigret, que se traduz por “magricela”, quando seu personagem mais popular surge no seu primeiro romance com 1,80 metros e 110 quilos.

Em um de seus livros de memórias, Des traces de pas, de 1975, publicado três anos depois do seu derradeiro Maigret, Simenon declarou: “Sinto um profundo remorso por ter abandonado Maigret depois do meu último romance Maigret et Monsieur Charles. Foi como se deixasse um amigo sem apertar suas mãos. Criaram-se, entre um autor e seu personagem, laços afetivos, principalmente pela forte razão de que colaboramos juntos durante quase cinquenta anos. Eu o deixei às margens do Loire, onde ele deve estar vivendo sua aposentadoria. Ele molha seu jardim, joga cartas com as pessoas da vila, pesca com linha. Eu continuo a praticar o único esporte que me é permitido: caminhar. Desejo-lhe uma aposentadoria feliz, como é a minha. Nós trabalhamos tanto juntos que eu lhe deixo um adeus muito emocionado.”

E todos nós, milhões de leitores espalhados por todos os recantos do mundo, lamentamos que, também nós, não tivemos a oportunidade de nos despedir do nosso taciturno, bonachão, bom copo, profundamente humano, conhecedor como poucos dos mistérios interiores do homem, quase um pai para seus colaboradores, apaixonado, sem nunca tê-lo dito, por sua mulher, nosso velho e querido amigo, JULES MAIGRET.

 

 

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2 Resultados

  1. Ótimo texto, Paulo.
    Concordo com Sayonara Salvioli e acrescento que sou encantada por Maigret. Suas investigações nos faem ter vontade de encontrá-lo e ter uma conversa de amigos.
    Valeu!

  2. Muito, muito bom, Paulo! Seu texto – além de rico e recheado de informações bem colocadas sobre construtor e ícone da literatura – ressalta três conceitos enfaticamente verdadeiros:
    – o poder que um personagem tem de se tornar real, tamanha a receptividade de sua comunidade de leitores;
    – a aprendizagem real que a criação do romance, em seus meandros, propicia ao autor; e
    – os inegáveis laços surgidos entre criador e criatura, ao longo da estreita relação cotidiana estabelecida.
    Afinal, que escritor nunca acreditou que poderia encontrar seu personagem favorito, num instante qualquer, no corredor de sua casa?

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