Metamorfose

Dá pra acreditar? Como alguém pode ter medo de um bicho tão pequeno e indefeso como a barata? A interrogação vem do fato de este inseto ser uma das forma de vida mais antigas do planeta, portanto, nem tão indefeso, isso, apesar de ser caçado tão ferozmente por nós humanos, mas acontece. Eu, por exemplo, tive durante muitos anos pavor desse animal, daquele tipo de ter chilique mesmo. Morria de vergonha e de raiva desse meu sentimento, que não conseguia esconder. Não me lembro de ter tido esse medo durante a infância;começou num dia específico, tipo trauma, mesmo. Vou contar.

Estava saindo de uma doença que quase acabou comigo, bastante enfraquecida. Naquela época, tinha um namoradinho, e ele tinha acabado de descobrir que eu tinha ido a um lugar onde que ele não queria que eu fosse, estávamos na cozinha da casa de minha mãe e eu sentadinha num banco prestes a levar um sermão, aquilo estava me matando. Ele, muito alto, me olhava de cima com ares de desaprovação, e eu caladinha esperando a bronca.

Estava em plena adolescência, época na qual tudo toma volumes enormes. O silêncio estava insuportável, e por causa da fraqueza eu suava frio; foi quando senti em minha perna uma cócega, instintivamente não liguei, pois pensava tratar-se do bigode do Squindô, cãozinho de minha irmã, mas com o rabo do olho vi o cachorrinho do outro lado da mesa, então o que poderia ser isso? Comecei a balançar a perna, desesperadamente, aos gritos, pois já temia aquilo de que se tratava, nada, a cócega só fazia subir ainda mais pela minha perna, não tive dúvidas, arranquei ali mesmo as calças sem nenhum pudor, enquanto berrava a plenos pulmões.

Corri à toda para o banheiro, onde acabei de me despir rapidamente e entrei no chuveiro antes mesmo de esperar a água esquentar, sem levar em consideração o fato de que outra coisa que detesto é água fria. Esfreguei com a bucha, sistemática e desesperadamente, a perna por onde havia passeado a bichinha, até estar com a pele totalmente ferida.

Minha mãe e minhas irmãs me tiraram a muito custo do chuveiro, enquanto tentavam acalmar meu piti. Soube mais tarde por elas que o namorado, depois de matar o inseto, mandou me pedir desculpas, coitado: ficou impressionado com a cena. Hoje ele é um ator e diretor muito famoso, e deve ter usado o episódio como laboratório para cenas de loucura.

Pois bem, durante anos tive pavor de barata. Adquiri até um sexto sentido para perceber sua presença e, por incrível que pareça e até se alegue conta de mentiroso, por sete vezes tive contato físico com a asquerosa. Hoje acredito piamente que a gente atrai o que tem em mente, para o bem ou para o mal. Foram uns dez anos de tortura, que só terminaram quando um sentimento infinitamente maior me obrigou a enfrentar o que eu mais temia. Eu amamentava minha primeira filha e estava sozinha em meu quarto, quando, por tanto pensar no que faria se ali entrasse o inseto, finalmente, sub-reptícia como só ela pode ser, uma barata entrou se esgueirando quarto adentro. Eu não podia estar com meu bebezinho no mesmo ambiente que aquela nojenta, já podia vê-la subindo na linda manda de crochê que eu tinha tecido com tanto carinho.

O Instinto materno falou mais alto. Levantei-me, e com uma pisada certeira eliminei o bicho, que me perdoem os ecochatos. Eliminei também de minha vida o medo e o trauma. Nunca mais senti aquelas perninhas pegajosas em meu corpo.

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Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

6 comentários em “Metamorfose

  • 29/07/2012 em 20:42
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    Nunca tive medo de barata, meu pavor são aranhas e cobras, chego até sonhar com essas peçonhentas, ecaaaaaaaa

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  • 28/07/2012 em 09:28
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    Já eu, sou que nem a Pri, chinelada e acabamos com isso. Mas adorei o comentário da Claudia Valle, pena que aqui não tem mãozinha de curtir…

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  • 28/07/2012 em 09:22
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    É incrível como todos temos medo, horror a baratas.
    E vamos realmente desenvolvendo o sexto sentido em relação a elas!
    Jamais perdi o medo e nem o horror, mas a duras penas consigo me aproximar e espirrar inseticida. Com a bicha meio tontinha, me aproximo e dou a chinelada.
    Como disse o Manuel Funes, são imunes a radiação. Não sobreviverão à terceira guerra mundial porque não haverá lixo nem esgoto para elas se alimentarem! kkkkkkkkk
    beijo grande

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  • 27/07/2012 em 22:32
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    Eu continuo com tanto horror a barata que, por causa da ilustração, quase não consegui ler a sua ótima crônica…

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  • 27/07/2012 em 19:53
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    Muito bom !
    Baratas, Cucarachas, cockroach…
    Numa terceira guerra mundial elas iam sobreviver, são imunes a radiação !
    Existe um episódio de “Arquivo X”… ” Guerra das Baratas”, você vai gostar… rs rs

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