Memórias de um publicano

Paulo Coelho, generoso como sempre, foi o primeiro escritor brasileiro a liberar 17 de seus livros para download gratuito no idioma farsi, falado por 80 milhões de persas, espalhando vestígios de sua vida e obra mundo afora:

“Cortei unhas em Roma, cabelos na Holanda e na Alemanha. Vi meu sangue molhar o asfalto de New York e muitas vezes meu esperma caiu em solo francês, num campo de parreiras perto de Tours. Já descarreguei minhas fezes em rios de três continentes, reguei algumas árvores da Espanha com a minha urina e cuspi no Canal da Mancha e no Fjorde de Oslo. (…) Semeei em vários lugares da terra, porque não sei onde vou renascer um dia.” (O Mago, biografia de Paulo Coelho, por Fernando Morais).

Pena que eu não saiba ler na língua dos iranianos. Sendo um integrante da mais antiga das profissões, também não sei onde e nem quando vou desencarnar um dia. Não tenho amigos, ando sempre sozinho. Irmão das pedras, fui graveto no bico do anum, prego enferrujado caído de uma cruz na via Ápia, grão de areia assoprada da pirâmide de Saqqara, fio de cabelo de um soldado de Calígula, estrume de vaca secando em uma estrada poeirenta de Minas. Parido a ferro e fogo, existo desde os primórdios da História; quadrigêmeo, fecundado dentro do mesmo óvulo inseminado por quatro pais diferentes, vim ao mundo minutos depois de meus irmãos, Guerra, Carrasco e Prostituta.

Por termos nascido, eu e meus três irmãos, Guerra, Carrasco e Prostituta, somos todos culpados. Deus nada tem a ver com isso. Já andei pelos quatro cantos do mundo, auxiliei na condenação do Cristo, persegui o vilão Robin Hood e apertei o laço no pescoço do Tiradentes: eu sou um cobrador de tributos. Há dez mil anos carrego meu fardo, tirando dos pequenos para favorecer os ricos, lambendo a sola das sandálias dos poderosos.

A DENÚNCIA era sucinta. “Dizem que o homem faz milagres, multidões o seguem pelas estradas, maridos abandonam suas esposas, filhos deixam a terra por arar e os campos sem colher, instaurando perturbação nas famílias.”

NABHA – Núcleo de Análise e Buscas Herodes Antipas. Como agente da NABHA, subordinado ao Sinédrio, minha missão era investigar se as atividades do filho do carpinteiro José, originário de Nazaré, conflitavam com os interesses de nossos parceiros em Roma. Recebi salvo-conduto do Senatus Populusque Romanus (SPR), com amplos poderes para requisitar o auxílio das forças legionárias para tomar as providências que fossem necessárias à solução do caso. Sem saber por onde começar, procurei o colega Mateus, chefe da Coletoria de Cafarnaum, pois chegara a meus ouvidos que ele, Mateus, possuía informações sobre as andanças do homem chamado Jesus. Porém, ao chegar a Cafarnaum, descobri que Mateus abandonara o serviço há uma semana para seguir o Messias, deixando a repartição com os relatórios atrasados, sem azeite nos candeeiros, funcionários sem pagamento e os animais passando fome, uma verdadeira balbúrdia administrativa.

Mandei um pombo-correio urgente para Jerusalém informando da situação e requisitei dois soldados para guardar o escritório. Em seguida, peguei minha montaria e dois escravos e fui me aconselhar com Zaqueu, na cidade de Jericó. Grande foi minha surpresa ao adentrar os portões da cidade. Zaqueu, o menor dos publicanos, estava trepado em um sicômoro, pescoço esticado, gritando e abanando os braços, tudo para chamar a atenção do tal Mestre, o Messias, a quem chamavam de “Filho do Homem”, que por coincidência também chegava à cidade.

Bloqueado pela multidão, pude ver de longe o momento em que Zaqueu, um avarento e asqueroso cobrador de impostos como eu, odiado até pelos leprosos, era abraçado por Jesus como se este abraçasse um amigo que regressava de uma terra distante. Estranhei o fato, anotado em minha caderneta, e mais confuso fiquei ao ouvir da boca de Zaqueu algo sobre estar perdido, logo Zaqueu que calculava tão bem, no que Jesus respondeu alguma coisa sobre um “caminho da salvação”, lugar que desconheço nas redondezas. Naquele dia não consegui entabular conversa com Zaqueu, que se portava como um aparlemado, cantando e distribuindo esmolas. Mais tarde, fiquei sabendo por relatos de um informante que Zaqueu, tendo convidado Jesus para cear e pernoitar em sua casa, ficara tão feliz com a visita do Mestre que resolvera doar metade de seus bens (dele, de Zaqueu) aos pobres, restituindo aos injustiçados as multas aplicadas em excesso, sem submeter suas decisões ao Sinédrio. Um desplante!

Em matéria tributária, um fato acontecido na cidade de Canãa merecia tratamento à altura dos regulamentos de taxas e mercancia: a transformação de água em vinho. Ainda que o fato gerador já houvesse acontecido, três dias antes de minha presença, corri atrás, investiguei, falei com testemunhas que estiveram na festa de casamento, confabulei com o fornecedor das bebidas e analisei os relatórios de compra apresentados pelos anfitriões. Concluí que ao transformar seis cântaros cheios de água em vinho, o tal Jesus praticou concorrência desleal, industrializou água sem os devidos alvarás, fora das especificações químicas e biológicas, dando saída de vinho sem documentos e deixando de recolher as taxas e emolumentos fiscais.

Pra complicar, um dia, questionado se era justo pagar impostos aos romanos, Jesus, tomando de uma moeda, respondeu com a célebre pergunta: “De quem é esta efígie?”

“É de César”, disse o fariseu, no que Jesus concluiu com o célebre dito: “Dai a César o que é de César.”

Diversamente do que ficou registrado nos anais da história, essa frase foi o início da condenação criminal do Nazareno. Todos sabem que “O filho d’O homem” não fazia uso do dinheiro. Como dar a César a moeda que Jesus desprezava? Ele tampouco plantava, tecia ou fiava. Contudo, seus milagres, como a multiplicação dos pães e a transformação da água em vinho, eram passíveis de serem tributados pelo imposto de consumo.

De posse das evidências colhidas, fechei minha Ordem de Serviço, preenchi o relatório de consumo de capim dos jumentos, imprescindível para a Alta Gerência do Templo, e submeti o papilorium aos Doutores da Lei, nos seguintes termos: “O homem Jesus de Nazaré, cognominado Rei dos Judeus, não se importa com o dinheiro, mas do nada é capaz de produzir mercadorias passíveis de tributação. Ele vive da caridade alheia. Bebe o vinho e o pão que lhe ofertam, dorme na casa de amigos e conta umas histórias sem sentido. Sua doutrina não favorece o crescimento das rendas do Governo da Galileia, na medida em que o investigado não vende os produtos de seus milagres, pregando e praticando a pobreza na Terra como forma de alcançar a graça de Deus no Paraíso Celeste.”

Concluindo: se a pobreza era o lema d’O homem, as rendas de impostos e contribuições despencariam, e os romanos, inconformados com a queda da arrecadação nos territórios ocupados, quadruplicariam o número de legionários, e todo o poder dos Doutores da Lei cairia por terra. Por fim, os fariseus seriam os responsáveis pela desgraça que porventura descesse sobre o reino da Galileia. Eis a questão: Jesus deveria ser eliminado. E assim foi feito.

E quanto a Tiradentes? Bom, Tiradentes era um mau dentista que falava pelos cotovelos, um mito criado para salvar a pele dos ricos. É bem verdade que a região das Minas, naquele finzinho do século XVIII, já andava decadente. O ouro, outrora abundante, escasseara a olhos vistos. Potentados, que antes exibiam o fausto das minas em suas vestes bordadas a fios de ouro e botões de madrepérola, corpos amolecidos por dúzias de amantes e um séquito de escravos, agora esmolavam os favores de El Rey.

Eram filas e mais filas para requerer, junto ao Governador das Minas Gerais, o perdão das dívidas de impostos atrasados, quem sabe um Regime de Tributação Diferenciado e outros favores inexplicáveis.  Mas a Administração Colonial em Lisboa não acreditava que a fonte havia secado e queria mais ouro, mais ouro e mais ouro.  Alguém tinha que bancar o luxo dos nababos portugueses, que buscavam na Inglaterra os prazeres a que estavam acostumados.  O anúncio da derrama foi o prenúncio da desgraça. Era visível o terror nos rostos daqueles homens, antes tão senhores de si.

Era de madrugada. Chovia, ventava, fazia um frio do capeta em Vila Rica. Estávamos de plantão na Casa dos Contos, eu, dois coletores e o Sr. Intendente. Três batidas compassadas na porta — era a senha. O homem entrou, constrangido, medindo os passos, chamava-se Silvério dos Reis, dono de mineração falido. Seus olhos não ousavam encarar os do Sr. Intendente:

“Pois então, Sr. Silvério, o que o Sr. tem a nos contar?”

“É sobre a conspiração”, sussurrou o visitante.

“Ouvi alguma coisa. Pra quando?”

“Na próxima semana, está tudo preparado para a Revolta, no dia da derrama.”

“Quantos são os traidores, incluindo vossa mercê; como se chamam, onde habitam? Queremos tudo! Tudo!”

O Intendente deu um murro na mesa, e ao cabo de duas horas o Sr. Silvério dos Reis, tremendo mais que vara verde, havia dado todo o serviço. Em troca, o Inconfidente pediu clemência por sua vida e também o perdão de dívidas perante o Fisco.

“Sua colaboração será levada em conta.”

Tudo se passou muito rápido. Cada um pagou de acordo com suas posses. Tiradentes, pobre homem, não tendo nada a oferecer, pagou com o pescoço.

Minha participação nesses acontecimentos foi estritamente profissional. Meu negócio é cobrar tributos, seu ódio não paga minhas contas. Se os tributos são justos ou injustos, deixo a questão para os Tribunais. E quanto a você, que me apedreja, lembre-se da parábola do publicano e do fariseu (Lucas, 18, 13).

Não há homem sem pecado sobre essa terra.

 

 

3 comentários em “Memórias de um publicano

  • 18/07/2012 em 17:45
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    Meu Querido Mestre,

    A questão é singela. Transformar água em vinho não pode ser tributado. Pois vejamos: água natural sem beneficiamento, sem embalagem especial – “Tigela de barro”, simplesmente pura como “H2O”. Não foi agregado nenhum material intermediário, contato com o produto, pois há apenas uso e consumo, que como sabemos não dá direito ao crédito.

    Ademais, para haver transformação deve existir indústria, exceto o aeroporto industrial de Confins que apenas o sobe e desce do “bichano” avião industrializa os componentes, é necessário um parque industrial, assim eu acho.

    “Concluí que ao transformar seis cântaros cheios de água em vinho, o tal Jesus praticou concorrência desleal, industrializou água sem os devidos alvarás, fora das especificações químicas e biológicas, dando saída de vinho sem documentos e deixando de recolher as taxas e emolumentos fiscais.”

    Um forte abraço para Você e suas Meninas

    Gilberto Gonçalves dos Reis

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  • 29/06/2012 em 19:46
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    Pessoalmente Não gosto de Paulo Coelho, por motivos literários, não pela sua pessoa ou outro motivo.
    Porém defendo até a morte a luta contra a Censura de seus livros!
    As pessoas devem ter DIREITO DE ESCOLHA ! isto é fundamental.

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  • 29/06/2012 em 15:11
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    Fantástico…vê-se que nada muda nesta vida.

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