Memórias de Pasárgada

para Haya Purisch

 

Eu tinha tanta coisa melhor pra contar, como, por exemplo, a descoberta de um canal inflamado pela nova dentista de Itaipava, mas, esperançosa, perguntei para o Alan:

— Então, você acha que tenho mesmo que escrever sobre a parte boa de Belo Horizonte, digo, de minha ida a Belo Horizonte?

— Bem, você prometeu aos seus leitores.

E promessa é dívida, como se dizia na Minas da minha infância, Deus é pai, não prega prego sem estopa e nem nos dá um fardo que a gente não possa carregar. Tá certo: uma infância que, como eu já disse em várias ocasiões, teve bastante amor pra me dar e nada de errado pra me cobrar, a não ser, é claro, o cerco fechado da Tradicional Família Judaico-Mineira, mas isso eu já deixei pra lá faz tempo, na Curva do Xuá (ou Xodó, sei lá, não lembro direito; o maldito local virou uma concessionária da Hyundai, de qualquer jeito).

Recentemente, por exemplo, me descobri mais querida ainda, pasmem, pela minha professora do Jardim da Infância na Escola Israelita. Não a culpo. O campo acadêmico sempre foi meu lugar de máximo culto, e hoje em dia, como todos sabem, tenho vivido disso, do ritual da cultura, digo.

Não sei se já contei, mas imaginem que eu era tão incensada, tão invejada no Jardim da Infância por meu brilhantismo que acabei sendo a oradora da turma, pois é, já na época ninguém ligava para a minha beleza estonteante. A não ser, é claro, a minha dedicada professora, a quem, em doce retribuição, dedico esta crônica, francamente: quem, na minha idade, tem a sorte de reencontrar a primeira professora que teve na vida, e ainda por cima no Facebook? E ouvir de viva voz, já com a devida carência de uma mulher adulta, que era sua favorita na turma? Tarde demais para eu me amar. Fazer o quê.

Bem que eu quis me reconhecer em outras memórias saborosas, mais pessoas que possam ter me apreciado um dia, por exemplo, no livro de uma amiga que tem esse personagem, psicótico, é verdade, mas inteligente, tão inteligente, que escrevia as redações dos colegas no Colégio sem nunca ter sido desmascarado. Mas Alan me conta que muito mais gente fazia isso, um crime normal, sabem como é, no ensino médio e bem depois dele. Ou vocês acreditam que os mais inspirados candidatos à presidência escrevem seus próprios discursos?

Por falar nisso, descobri recentemente um dos motivos mais profundamente ocultos de eu ter me casado com o Alan, e vir mantendo com zelo por tantos anos este casamento (meu terceiro, ufa): ele acha que sou burra, e eu, francamente, não aguentava mais ser apreciada apenas por ser tão inteligente, e minha beleza, onde fica? Me livrei. Me apaixonei.

Mas voltando a Minas e meu sonho infantil de ser paulista, que, cá entre nós, eu nunca mencionei, e nem poderia, tendo aos vinte me autoexilado no Rio de Janeiro como qualquer cronista: Belo Horizonte, pasmem, depois que cresceu ficou superparecida com São Paulo, basta uma leve distraída e qualquer transeunte (ui!) mais deslumbrado, passeando pela Savassi, acreditaria estar na Oscar Freire, restaurantes e bares incluídos — nada mais daqueles “barzinhos” tradicionais mineiros, mas elegantíssimos, charmosos e criativos locais, quase Paris, opa, assim também já é exagero. Enquanto isso, de volta em casa, estou cada vez mais bicho do mato, Deus me livre e guarde de sair por aí curtindo uma folga da lida.

A ida a Belo Horizonte, como todo mundo sabe, foi a trabalho; mas, emocionalmente, me deu muito mais trabalho: dentre meus milhares de amigos mineiros, primos e tios, com raras, raríssimas exceções (que posso contar nos dedos de uma mão, obrigada, minha gente), poucos me deram a esperada e merecida guarida, afinal de contas, dei-lhes as costas há mais de 40 anos, por que me apreciariam, não é mesmo? O que eles não sabem, porque até há pouco eu não contava pra ninguém, é que se não continuo em Minas, Minas certamente continua em mim, e não há como escapar disso.  Tudo bem. Me conformei. Embora agora, claro, com a relevância da internet e um marido americano, tenha me tornado de vez uma cidadã do mundo, bem, pra isso nem precisava ter saído de casa, ah, se eu soubesse, e se papai quisesse… Teria saído do mesmo jeito.

O caso é que de um jeito ou de outro, volta e meia, faço a travessia e queimo a ponte por onde passei, fazer o quê, tenho essa mania, deve ser carma, juro. E tendo deixado para trás toda crença e qualquer crendice, vivo a vida que escolhi, e isso é muito bom, pois agora já não dependo do meio em que nasci, muito pelo contrário. E fui acolhida com muito carinho também pela família que elegi: os queridos autores da KBR, que (com raras, raríssimas exceções, que posso contar num só dedo acusador, e nem deveria, meu advogado já reclamou) me amam incondicionalmente, isto é, desde que eu publique seus livros como prometi, pontual e contratualmente. O que, vamos combinar, tenho conseguido razoavelmente, e agora chega de meias palavras, sou um sucesso e tenho que aceitar isso: foi retumbante a Farra do POD em Belo Horizonte, podem perguntar!

Até de um programa de TV fui convidada a participar, finalmente um gostinho dessa celebridade digital que eu queria tanto, e que no Brasil custa tanto a chegar. Principalmente pra quem vive de escrever e publicar, e por que não dizer, de reclamar da vida.

Afinal de contas, é muito mais fácil criticar, e nosso mundo contemporâneo, vamos combinar, vive da falta, de desejar, ou ainda estaríamos na idade da pedra, digo, do papel. E isso, cá entre nós, ninguém haveria de querer, salve a vida digital, Deus no céu e Jeff Bezos em breve cá na nossa terra, amém.

E um bom domingo procês, na medida certa desta vez!

 

 

11 comentários em “Memórias de Pasárgada

  • Pingback: Memórias de Pasárgada « Noga Sklar

  • 09/09/2012 em 18:49
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    Salve a vida digital (!!!), já disse e repito, domingos sem Noga, já não são tão legais… Viajo nas suas memórias, que são tão reais e sem frescuras de alguém que viveu o que viveu. Deixa está, terminando a faculdade (Letras) lanço um livro pela KBR… “Nosso mundo contemporâneo, vamos combinar, vive de desejar”.. Abraço!

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  • 09/09/2012 em 17:04
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    É, o Alan parece ser um cara exigente, casou com uma mulher que se finge de burra só para satisfazer seu ego, dele…

    Salve,

    Noga.

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  • 09/09/2012 em 15:50
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    Aiai, Noga, acabei de enviar a minha crônica. Ralei até. E a sua, como sempre, dá a impressão que saiu sozinha, prontinha,ótima,desembaraçada, graciosa. Bjos!

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    • 09/09/2012 em 17:56
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      Ledo engano, Rosângela, esta, particularmente, deu um trabalhão danado… foi a manhã inteira e custei a encontrar o tom! Obrigada!

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  • 09/09/2012 em 12:09
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    Muito bom, principalmente, por verificar que sua autoestima está em alta, e isso, certamente, provoca um texto caprichado como esse.

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