Medo de voar

Vocês sabem, ou se não sabem fiquem sabendo: fiz uma listinha arretada de todas as coisas, bacanas ou nem tanto, que aconteceram em nossa antológica viagem a Paris, e a primeira delas teria que ser, sem escapatória nenhuma, o medo de avião.

É isso aí. Tenho medo de avião, preciso confessar. Mas reconheço que é um medo assim, atávico, sei lá, daqueles que basta o evento passar para a sensação se dispersar, como o medo da dor do parto, por exemplo, que, obviamente, nunca tive que enfrentar. Falo somente por ouvir falar. A visão do recém-nascido, assim como, mais ou menos, ouso comparar, a majestade da Notre-Dame em nossa janela parisiense, faz com que o medo desapareça sem deixar vestígios que o possam recordar. Nem é preciso “beber para esquecer”, ou, como lembra o Alan, eu nem preciso beber muito, sabem como é. Já esqueço por natureza, idade, DNA.

O caso é que enquanto nos preparávamos para embarcar, o Comandante Nelson — meu autor e amigo, ex-piloto da TAM que, como vocês verão ali na frente, no cockpit deste livro (ops, lá se vai outra crônica que nasceu pra virar livro), esteve presente outras vezes (em espírito, não custa enfatizar) em nossos preciosos momentos de Paris — me disse para eu não me aporrinhar com besteiras, que a opção por voar é a mais segura entre todos os transportes que a humanidade, em suas criações de porte, inventou para seu uso rotineiro. Não à toa, o Comandante Nelson usou como epígrafe de seu livro Magdalena de Espanha, atribuída a Saint-Exupéry — um misto notório de escritor e avoador, digo, aviador —, a seguinte frase: “Voo porque voar liberta a minha mente da tirania das pequenas coisas.” Então tá, Comandante.Tenho medo de voar e teus testemunhos estimulantes sobre a prova excruciante de que  algo mais há, além de aviões de carreira no ar, não me conforta nem um pouco. Tenho dito, isto é, escrito.

Pois ocorreu que depois de uma viagem conturbada (de carro, por enquanto) e, por ansiedade, bastante antecipada, com nosso jardineiro ao volante, até o aeroporto internacional — também, quem mandou contratar um jardineiro e vigilante como motorista? —, ao cabo de algumas muitas horas de espera agoniante embarcamos numa aeronave tão grande, tão envolvente e misteriosa que cheguei à prematura conclusão, após vários anos sem nenhuma viagem transcontinental — é, a última que fiz foi para a eleição de Obama no Havaí, faz tanto tempo que nem me lembro dos incômodos do trajeto —, de que a própria experiência de voo tinha passado por um update sensacional, o que de modo algum me espantou, afinal de contas, neste mundo tecnológico em que transito, trata-se de ocorrência corriqueira e habitual: tudo muda todo dia, e radicalmente.

Atormentada por uma terrível dor de cabeça, de culpa ou cansaço, sei lá, me limitei a desabar com tudo no lugar marcado, e lugar ruim — afinal de contas, tratava-se de uma tarifa TAM a baixo preço —, no corredor e bem próximo ao rabo da aeronave; num instante, quase instantaneamente, me vi anestesiada pela quantidade de atrativos a bordo, isso, claro, uma vez elucidada a origem da fumaça gelada apavorante, segundo a comissária dedicada nada mais do que o ar-condicionado recém ligado, então tá, vou fingir que acredito. O entorta-pescoço necessário para se assistir ao filme a bordo depois do jantar tinha sido eliminado — havia agora uma confortável telinha individual à frente de cada poltrona, o único empecilho constituindo-se no fato de estar localizada longe demais para a falta de óculos e perto demais para as lentes de leitura de alcance controlado, males da idade, fazer o quê: corrigi o problema passando a noite inteira, de vigília, claro, ou não seria eu uma neurótica respeitável, sem reclinar a poltrona —, assim como o risco do filme já visto, dada a variedade da programação oferecida, um barato. E não posso esquecer de mencionar, sendo uma globe-trotter diminuta, da novidade do descanso para os pés, outro conforto bem-vindo e inesperado, e mais a bolsinha reciclada com máscara, escova de dentes e um pente totalmente insuficiente para a exuberância da minha juba, bem, não se pode ter tudo.

Era meu aniversário. Portanto, a todos os baratos já ofertados adicionei duas doses de uísque importado, que, não custa lembrar, era gratuito também. Foi o melhor começo de aniversário de toda a minha vida. Muito estressada e cansada, bebi, comi, assisti a um filme ou dois e nem senti quando ao fim de uma mal percebida jornada, tranquila e estabilizada, aterrissamos em Paris.

E antes que eu derive para outros medos, de outros voos — afinal de contas, a vida não se resume ao turismo —, devo confessar que a viagem de volta ao Rio, infelizmente, após dez dias paradisíacos em Paris, com todos os riscos de um verdadeiro paraíso — tais como: o risco do desconhecido, dos novos conhecimentos adquiridos, da mordida apaixonante do réptil atraente e peçonhento, e, por que não dizer, da eterna vigilância de um senhor qualquer nas agruras sobre nossos passos deliciosos, para que, de modo algum, não nos identificássemos com qualquer agradabilíssimo evento, tendendo a acreditar que a vida poderia ser para sempre assim, prazer puro, totalmente a contento —, foi dos melhores materiais para pesadelo que poderíamos encomendar, isso, pra nem mencionar que, de acordo com Alan, qualquer turbulência próxima ao rabo da aeronave, nosso lugar por desconto cativo, tende terrivelmente a se agravar.

Embarquei acreditando, como vocês leram aí em cima, que o medo de avião tinha sido eliminado da face da terra para sempre, ai, alívio, por artes da alta tecnologia que evolui sempre, mas, ah, pra quê: o diabo da nave balançou tanto, mas tanto, que pouco refresco havia naquele aterrorizante e eterno balancê, nem comer, nem beber, nem ver filme, nada. Alan gosta de lembrar ­— embora, claro, também de esquecer que estava transido de medo o tempo todo, como eu, agarrando a minha mão de tanto desespero —, só pra me chatear, que fiz por onde renegar meu tão incensado agnosticismo costumeiro: era “Deus! Meu Deus! Eu não quero morrer! Não quero morrer de desastre de avião! Deus! Pelo amor de Deus” o voo inteiro, daí pra pior, um pavor de amortecer qualquer seriedade filosófico-moral. Quando, finalmente, aterrissamos a salvo — a salvo, mas arrasados, claro —  na pista misericordiosa de Guarulhos, SP, estávamos num bagaço de fazer gosto, que ainda levaria dias para esmaecer. Crendeuspadre.

Bem. Já está de bom tamanho pra crônica, cinco mil e duzentos caracteres cravados. Mas ainda tenho outros medos para esclarecer.

Um deles é o de que algum desafeto se decida a qualquer custo me vencer, como aquele autor que de tudo me acusa, menos de fazer o máximo ao meu alcance para que ele possa se estabelecer — no mercado, como escritor — fazer o quê. Mal durmo com uma ameaça dessas, até por um Olcadil me deixei envolver — me, of all people. Não conseguia mais reagir por mim mesma a tanto estresse ao qual devo sobreviver, e o cardiologista houve por bem me convencer: era isso ou AVC na certa. Optei pela droga, é verdade. Sinto, mas é preciso esclarecer.

Isso, fora as ameaças cotidianas com as quais o absurdo ululante — obrigada, Nelson, e esse Nelson é outro, como vocês não terão dificuldade de entender — nos obriga a conviver, essa história divulgada na imprensa, por exemplo, de dois bicudos jornalistas (cujo nome não revelo nem sob tortura, vai que os dois decidem me envolver em seu oximoro na justiça) fazendo bico pra todo mundo ver, digo, se bicando até morrer, com a esfarrapada desculpa de um corretismo político que não melhora a vida de ninguém, muito pelo contrário, argh, só acrescenta mais alguns perrengues que a gente é obrigado a arrastar por aí, pô. Peraí.

Pois se alguém souber de verdade — com argumento e prova forense, que fique bem claro — de que cor é a alma de qualquer humano levado a julgamento… por favor, me envie um email urgente, e com confirmação de recebimento. Enquanto este dilema seminal não for elucidado, me recuso a aceitar como ofensa a cor da alma de alguém, preta, branca, de qualquer parte ofendida, francamente.

Se alma alguma houvesse de fato nesta nossa humanidade perdida, ridícula e iludida, vamos combinar, ela seria certamente de cor nenhuma: transparente.

E um bom domingo procês.

 

 

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2 Resultados

  1. Excelente cronica. A ideia da “Alma Transparente” é linda e poetica.

  1. 26/02/2012

    […] resto, aqui. Compartilhe isso:FacebookCompartilharEmailImprimirDiggRedditStumbleUpon Categorias: Diário de […]

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