Medicina

Senhores profissionais de saúde, não me processem: o texto que se segue é uma obra de ficção.

Não é científico, não é exato, não é verdadeiro.

Mas é sincero.

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Primeiro foi a dor no joelho esquerdo. O clínico disse que era artrose. Eu já sentia isso há algum tempo nos dedos dos pés e das mãos e um amigo médico tinha avisado que não tem solução. Tem que ir administrando.

Para aliviar a dor do joelho, o clínico me aconselhou a fortalecer a musculatura da coxa. Entrei para uma academia, o instrutor decretou que o ideal era fazer exercícios com peso. Fiz. Acho que exagerei, porque logo comecei a sentir dor na coluna. Consultei um fisioterapeuta, que me proibiu de segurar qualquer peso: nem bolsa a tiracolo. E me disse que, para ajudar a coluna, deveria fortalecer a musculatura do abdômen. Seguindo essa orientação, a coluna melhorou, mas o joelho voltou a doer. Os pés também.  Descobri que não era só a artrose nos dedos, eram também os joanetes que estavam aumentando a olhos vistos. Para quem escapou das dores do crescimento na adolescência, é desmoralizante sofrer com o crescimento dos joanetes.

O ortopedista afirmou que, joanetes, só operando. Nem morta. Bem, morta, tanto faz. Recomendou umas palmilhas. As palmilhas não cabiam nos sapatos comuns, só dava para usar com tênis. De tanto manter os pés abafados, arranjei uma micose complicada. Achei melhor voltar às sandálias e deixar o joanete crescer.

Para combater a micose tomei um remédio forte, que provocou um efeito colateral desagradável. Sem entrar em detalhes, só digo que foi no aparelho digestivo. Consultei uma especialista no assunto. Apalpou a minha barriga e avisou que eu tomasse muito cuidado, porque estou propensa a desenvolver uma hérnia. Principalmente, deveria evitar  exercícios que forçassem o abdômen.  Mas como fica a minha coluna se eu não fortalecer exatamente o abdômen? Quem sabe se eu perder um pouco de peso, alivio a coluna? Procurei uma nutricionista. Ela quer que eu tome iogurte todo dia.  Eu odeio iogurte. Perdi quinze quilos, a coluna melhorou, mas estou uma pilha de nervos. Toda manhã olho para aquele iogurte e me desespero. A coisa ficou tão feia que o psiquiatra me receitou um antidepressivo. Estou tomando, escondido do homeopata.

E por falar em homeopatia, há também o problema da reposição hormonal. Meu ginecologista é um defensor ferrenho, meu homeopata é visceralmente contra. Botei um em contato com o outro, só não acabou em morte porque foi por telefone. Fiquei assustada. Agora tomo hormônio, dia sim, dia não. E homeopatia, dia não, dia sim. Eles não podem saber, é claro. Todos dois acham que eu melhorei muito. Só não estou bem certa do que foi que melhorei. De concreto mesmo, só a saudade que sinto do tempo em que eu tinha apenas uma dor no joelho.

 

 

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5 Resultados

  1. Passei a tomar hormonios dia sim dia não, como vc. Bjssssss

  2. olney figueiredo disse:

    Muito legal! O texto, não a situação…

  3. Vera Barbosa disse:

    Adorei o texto. Com muito humor, retrata fielmente a situação de nossa medicina fragmentada, que trata partes do corpo sem se preocupar com o ser integral. Parabéns.

  4. manuelfunes disse:

    Acredito firmemente que a origem de estes “incômodos” se encontra na “forma de vida” que levamos, inseridos neste contexto sufocante e estressante. Sugestão: Abra mão de suas expectativas e desejos, pegue suas economias e vai embora por um ano…. seu ano Sabático. Boa viagem!
    ps.
    Enquanto ainda pode!

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