Mania

"Orgulho e preconceito", de Joe Wright, baseado no romance homônimo de Jane Austen.
“Orgulho e preconceito”, de Joe Wright, baseado no romance homônimo de Jane Austen

Tenho uma mania, que, pessoalmente, considero muito estranha. É um ato que repito praticamente todos os dias, quero dizer, todas as noites, há alguns anos.

Já disse antes, mas repito, sou cinéfila de paixão. No tempo do VHS alugava fitas regularmente nas locadoras perto de onde morava, era aquela boa cliente que gasta uma grana na sua loja. Os sintomas da mania começaram quando eu morava no Jardim Botânico, numa rua no alto, de onde só se saía ou chegava de carro. Já descia do meu apartamento direto na garagem, era carro-dependente. Não conseguia imaginar uma vida sem carro.

Daí descia para ir à única locadora que havia por perto, um trabalho enorme para a minha preguiça, e pegava logo pelos menos uns três ou quatro filmes — nesse caso tinha desconto e podia ficar mais um dia com os filmes. É claro que muitas vezes esquecia; a tal preguiça batia e eu passava o prazo de devolução.

Até que um amigo resolveu abrir uma locadora na sua própria casa: cada cliente recebia um catálogo tipo fichário, para, mais ou menos a cada mês, receber novas folhas com novos filmes, e o catálogo ficava atualizado. Agora, o principal: eles entregavam e resgatavam os filmes na sua casa! Tudo pelo telefone. Que maravilha!

No começo, pedi filmes variados que via no catálogo. Com o passar do tempo, comecei a pedir o mesmo filme sempre. Ficava com ele vários dias, devolvia, e quando fazia um novo pedido, esse mesmo filme estava sempre incluído. Não há por que esconder: era “O Silêncio dos Inocentes”, do Jonathan Demme. Algo no filme me chamou muita atenção, na época. Era um prazer enorme assisti-lo. Depois escolhia as melhores partes, apenas, mas sempre revia e revia.

Deu-se que me mudei temporariamente para Minas Gerais. Lá tudo era novidade, mudei radicalmente meu modo de vida: ginástica todo dia, estudo, trabalho, saídas constantes com novos amigos, de tal forma que só eventualmente pegava algum filme nas pequenas locadoras de lá.

Quando voltei para o Rio, um dia encontrei o tal amigo dono da tal locadora residencial. Ele me disse que a tinha fechado, coincidentemente, logo depois que eu viajei; se desfez das fitas e escolheu algumas para dar para os amigos mais assíduos. Disse que me procurou, procurou, até ficar sabendo que eu não estava no Rio e deu para outra pessoa “O Silêncio dos Inocentes”. Lamentamos juntos. Então ele me perguntou se eu tinha ideia de quantas vezes tinha alugado o filme, quer dizer, quantas diárias tinha pago por ele. O que não quer dizer que assisti todas as vezes que estava com ele em casa… não fazia a menor ideia. “Cinquenta vezes”, disse ele, e por isso tinha pensado em doá-lo para mim como brinde.

Puxa, fiquei meio chocada, mas não falei nada.

Passou-se o tempo, vim morar em Copacabana, vendi o carro, tudo à pé, uma sensação de liberdade como quem sai pelo mundo sem destino e apenas com uma mochila nas costas.

Tem uma locadora bem perto da minha casa. E também começaram a aparecer, agora, DVDs para comprar! UAU! Possuir os filmes de que gosto sem ter que pagar aluguel!

O primeiro foi “O paciente inglês” do Anthony Minghella, pelo qual me apaixonei quando alugado e depois que comprei via o tempo e as cenas que quisesse… porque era MEU. Passei uns bons dois anos vendo o filme quase todos os dias. Depois recebi uma dica da minha irmã que mora em Brasília, sobre o “Orgulho e Preconceito”, dirigido por Joe Wright baseado num livro da Jane Austen. Pronto. Deflagrou-se a fase de filmes e minisséries da BBC, baseados nos livros da grande escritora inglesa. Não apreciei todos os filmes, mas acho que só tem uma história de que não gosto.

Bem, pesquisei os filmes, os atores, a Jane Austen, a vida na Inglaterra naquela época, a moda — tanto no vestir quanto no se comportar, quanto nos princípios que regiam aqueles personagens —, enfim, já estou assistindo sem disciplina, quer dizer, escolhendo o filme a ser visto como num jogo de dados ou escravos de Jó rápido e mental, quase todos os dias, pelo um pouco antes de dormir. Bem, ainda estou no começo da minha pesquisa sobre os assuntos citados, nem mencionei vários outros itens para não cansar quem me lê. Ainda falta muita coisa, graças a Deus, para eu fazer uma pausa nestes, e/ou aparecer uma outra viagem interessante através de outros certos filmes.

Este tem sido o meu meio mais usual de viajar. Não que eu não aprecie os outros, mas, a cada um seu jeito.

Bom fim de semana!

 

 

7 comentários em “Mania

  • 20/01/2013 em 19:54
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    Manuel, é claro que Casablanca faz parte dos FAVORITOS! Aliás, depois de muito assistir o Paciente Ingles e nutra ocasião o Casablanca, percebi grandes similaridades entre ambos. Acho que o Minguella se inspirou muito em Casablanca, em várias cenas, justamente as mais comoventes e no final do filme em que o casal que se ama se separa por motivos aparentemente muito diferentes, mas a gente fica com uma sensação de happy end porque em ambos o amor dele foi eternamente preservado, o que é uma raridade e muito difícil de se mostrar no cinema. Reparou? E muito obrigada pelo comentário. Abraços!

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  • 19/01/2013 em 13:58
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    OI Gustavo, Obrigada pelo comentário. Adorei saber que você também vê filmes várias vezes e que tenha gostado da crônica! E viva A Noviça Rebelde, né? Abraços!

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  • 19/01/2013 em 11:37
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    Rosangela
    Minha epopéia cinéfila começou com minha mãe,a qual me levou umas 3 vezes para ver “A noviça rebelde “!Eu gostava do filme e principalmente das bagunças que as crianças faziam com as novas governantas.De lá pra cá fora o fato de que eu tive uma locadora(faliu lógico)Adoro ainda assistir alguns filmes várias vezes .Minha lista inclui ” Apollo 13 ” com Tom Hanks(sempre acho que eles não vão conseguir), “O último Samurai “com Tom Cruise(gosto da cara dele, quando suja o chão imaculado da casa onde esta com as botas sujas)Aprendi a tomar cuidado com meus sapatos. “Orgulho e Preconceito ” adoro!O amor que vai e vem parece comigo. “O dia depois de amanhã” ,porque acho que vai acontecer aquilo,e um pai que arrisca a vida atrás de um filho é tudo de bom.”A primeira noite de um homem”,pois entrei no cinema eu não tinha 14 anos e adorei ver a Ana Bancroff de sutiã e o Dustin Rofman dando um beijo na boca dela sem deixar ela soltar a fumaça.Todos do “Poderoso Chefão” em especial o primeiro quando Michael assume o lugar do pai,o destino nos coloca em determinadas situações, que vão além do nosso alcance.E lógico o ” Silêncio dos Inocentes ” que não vi 50 vezes mas várias e me impressiona o encontro entre a loucura e a inocência. tony Hopinks e Jodie Foster ,Show de atores de tensão de loucura.Resumindo adorei sua crônica e quase acabei escrevendo uma ,plagiando a sua rsrsrsrsrssr!Sorry.

    P.s Os nomes dos atores espero ter escrito corretamente,pois não quis perder a veia poética que suscitou em mim a sua escrita.

    P.s 2 O Samurai Japonês ,que esqueci o nome do ator, é fantástico!

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