Mal de Detran

Mamãe, não sei se já contei, adorava dirigir. Tinha orgulho. Na geração dela isso não era muito comum, dava um ar de independência, de modernidade. Num de seus caros aniversários — presente de aniversário pra mamãe não era qualquer coisa, não: teve o ano do brilhante, do conjunto de broche e brincos de brilhantes, do colar de pérolas, do vison e por aí vai, meu pai que se virasse para pagar —, o presente foi um carro, um Fusquinha zero só pra ela — o marido era um romântico, deu a chave numa caixinha forrada de cetim —, porque meu pai tinha outras ambições, um Chevrolet Impala rabo de peixe, por exemplo, ou um jipe de exército para ir ao sítio. Mamãe reclamava. No final, sei lá por que, ficamos só com o fusca, aquele que… ah. Melhor deixar pra lá.

Quando foi ficando mais velha, claro, ela gostava mesmo é que eu dirigisse pra ela, “choferasse”, como ela dizia. Eu detestava, porque levar mamãe a qualquer lugar sempre significava parar em outros dez lugares pelo caminho e resolver outros tantos probleminhas, mas com isso enfiei na cabeça uma organização mental da qual não consigo me livrar, perguntem ao Alan, podem perguntar. Até hoje, sair de carro significa um roteiro perfeito de coisas pra resolver, sem uma curva fora do lugar, obrigada, mamãe.

Mas o caso é que mamãe, que desde menina já tinha uma visão difícil, com o tempo foi enxergando menos, e a cada renovação da carteira de motorista, que pra ela era mais importante do que a aliança de casamento, o problema se tornava maior: tinha pânico de ser reprovada no exame de vista. Meu irmão ajudou enquanto pôde, mas ela acabou desistindo de vez de dirigir. Quando o alzheimer (este corretor de texto teima em corrigir “alzheimer” para maiúscula, mas eu não admito) se instalou, vendemos o carro. Foi a primeira das muitas providências tristes a que nos obrigamos, mas hoje não estou a fim de falar sobre isso, está um dia ensolarado etc. e tal e o Alan está pra chegar. Preciso me animar.

Pois o que eu queria contar é que esse pânico de mamãe, entre outras tantas questões que sempre tive com a burocracia dos documentos como já mencionei outras vezes, entre elas a loucura da opção de nacionalidade aos cinquenta e poucos anos, um processo a que eu tinha direito mas que foi interrompido com a morte de papai — ops, eu bem que faria um bem, a mim e a vocês, se aplicasse aos meus textos a mesma organização mental que aplico aos meus roteiros rodoviários —, me contaminou, e lá fui eu para o Detran renovar a carteira de motorista enfrentando como pude o meu medo de rejeição.

Cheguei já nervosa ao posto de serviços com tudo de que tinha obrigação, mas, ah, tinha que faltar alguma coisa, não é mesmo? Não entendo como todas aquelas centenas de pessoas simples esperando na fila conseguem se organizar para essas providências legais, juro. O comprovante de residência tinha que ser cópia, o original não servia, e não houve santo que pudesse convencer a funcionária a usar para isso uma das 20 ou 30 copiadoras do local, não teve choro nem vela, tive que sair lá fora e procurar por ela. Na volta, não sei se a mulher implicou comigo ou o quê, apesar do “estatuto dos idosos” fui contemplada com o número cinquenta na fila da fotografia e identificação digital.

Pra isso eu viera preparada, batom, sobrancelhas maquiladas, pois, afinal de contas, teria que conviver com aquela foto pelos próximos cinco anos, e na minha idade, vocês sabem, trata-se de um fato de crucial importância. Mas tô lá sentada esperando e vendo as pessoas passarem à minha frente, eu quieta observando. Quando vi um rapaz que chegara há menos de 10 minutos para dar entrada nos documentos, me dei conta:

— Escuta, desculpe, pode me dizer seu número?

— Quarenta e nove.

Ah. Pra quê. Vexame. Rodei a baiana pra todo mundo ver. Resultado: saí na foto com aquela cara de touro bravo, mais um trauma para carregar, cinco anos me lembrando da funcionária que ousou me desacatar.

O próximo passo era o exame médico, aquele, o terror de mamãe. E mesmo que minha visão pra longe seja (ainda) perfeita, a leitura tendo sido arrasada por anos de rotina à frente de uma tela de computador — e agora tablets, celulares etc., agravadíssima pelas horas de edição —, lá estava eu, com minha eterna “Síndrome de Eva”, morrendo de medo do que poderia acontecer.

Liguei para a clínica em Itaipava, razoavelmente benigna e perto de casa. Só tinha horário às 9 da manhã.

— Não pode ser um pouco mais tarde? — pedi, já pensando na minha organização perfeita a cada vez que tiro o carro de casa.

— Não, senhora.

No dia marcado levantei bem cedo, pedi à Ivete que chegasse mais cedo, juntei todos os pacotes e envelopes para o correio, tudo assinado, conferido e lacrado, cartões de banco, token, mais uma listinha para o supermercado, afinal de contas, vocês sabem, sou uma filha do Aalzheimer e preciso me acostumar a anotar tudinho, Alan exige.

Às nove em ponto estava na clinica. Tinha 12 pessoas na minha frente. Fui direto ao balcão.

— Estou marcada para as nove. Tem toda essa gente na minha frente?

— Sim. Mas é rapidinho — disse a funcionária, sorridente (todo mundo em Itaipava é bem-humorado e sorridente, é o Paraíso, gente), me estendendo uma prancheta com um formulário para preencher.

Hesitei um pouco. Quando foi a última vez que foi ao médico? Hum. Nem lembro. Já esteve hospitalizada? Nunca, dessa eu tenho certeza. Tem alguma doença contagiosa? Só ansiedade, mas é melhor não confessar. Tem algum problema psiquiátrico? Bem… hum. Bebe álcool ou faz uso de drogas? Pô, peraí, quem é que tem uma resposta honesta pra isso?

Devolvo a prancheta e na falta do que fazer começo a observar as pessoas em volta, todas bem-vestidas, bons sapatos e casacos, claro, não há mendigos no Paraíso e, mesmo que houvesse, aqui não é a “América”, como diz o Alan, “where the poor drive cars”.

Dali a um tanto, por volta de nove e meia, chega um carro, hesita e estaciona no proibido, no espaço reservado à igreja evangélica, mas, tudo bem, Deus ainda não chegou para dar expediente, então não há problema. Sai um sujeito obeso, a barriga transbordando das calças e uma camiseta desbotada por baixo de um casaco cinzento, parece o mais pobre dali, e vocês já entenderão por que, não pode dar riqueza na vista, né? Penso que poderia ser o “doutor”, mas os óculos e o olho direito bastante vesgo apontando pra cima me deixam meio em dúvida. Pimba. É o doutor.

Dá bom-dia, pega com a recepcionista os doze formulários preenchidos e chama a primeira “paciente” do dia. Cá da espera, escutamos a surpresa:

— Mas é só isso?

Dois minutos e a moça estava liberada. Ah. Me esqueci de dizer que o exame clínico obrigatório custa R$53,00, “em dinheiro vivo”, alerta a recepcionista, a não ser que você passe atestado oficial de pobreza.

A cena vai se repetindo a cada uma das doze vítimas, com uma breve exceção antes de chegar a mim, a última da manhã:

— O senhor tem um princípio de catarata, tem que ver isso. — Carimbo. Ui. Aprovado para dirigir.

Nessa altura, não me contive. Olhei em volta e comecei a rir: “isso vai dar crônica.” Saquei da caneta e do meu falso molesquine (sou filha do… já disse) e fiz algumas anotações antes de esconder na bolsa os óculos de leitura, vocês sabem, não convém dar mole para o destino. Voltei ao balcão.

— Só por curiosidade, querida, você marca todo mundo para as nove horas?

— É.

— E o resto do dia?

— Bem, tem outra sessão à tarde, depois do almoço.

— Igual a essa?

— É.

— E no resto do dia?

— Fechamos pro almoço. Fico aqui sozinha e atendo o telefone.

Ah, bom. Enquanto espero fico calculando, tentando calcular quanto fatura por hora aquela “clínica” autorizada, uma das poucas no país — descontadas suas congêneres, claro, centenas de felizardos escolhidos a dedo, canetada — onde a gente vai sem estar doente. Fico tão perturbada com o resultado que, quando entro, me perco no corredor. A sala nem cadeira tem, apenas o visor onde a gente encaixa o rosto em pé, mesmo. Leio as letrinhas sem a menor dificuldade, r o c, e me viro para ir embora.

— Peraí, senhora, é rápido, mas não tanto!

É a Síndrome de Eva que me deixa nervosa, desculpem. Mais quatro telinhas e estou liberada para os próximos cinco anos, ufa, ainda bem. Já me excedi em mais de 2 mil caracteres nesta crônica, fosse paga e eu estava lascada, espaço publicado é muito caro, não é mesmo? Opa, mais de 8 mil, teria que cortar 3 mil e pouco na própria carne, afinal de contas, é pra isso que existe o editor, e ganha bem menos que os… sessenta divido por dois vezes cinquenta e três… hum mil, quinhentos e noventa reais, a hora do doutor, podem acreditar!

É isso aí. E um bom domingo procês.

 

 

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