Luz e sombra

choraoQuando um artista morre, o impacto de sua morte nos afeta de modo especial. É o que ocorre diante da morte de “Chorão”, band-leader do grupo Charlie Brown Jr.

Pode parecer estranho para alguns sua “partida” ter me tocado tanto, afinal tenho mais de 20 anos, não ando de skate e não tenho tatuagens. Mas eu gosto de rock! Gosto do que não é totalmente compreendido, que causa estranheza, gosto de música e de poesia.

Esse músico e poeta era assim. Um garoto de origem humilde que levou sua rebeldia, raiva, e visão do mundo para a música.
Começou cantando por acaso, havia um show e ele, sem grandes pretensões, cantou algumas canções. Dali se reuniu com alguns amigos e em 1997 lançou seu primeiro disco.

Nessa época, me lembro bem, eu trabalhava num banco, vestia um terno bem cortado, mas me sentia infeliz e oprimido. Diante de uma função que me sufocava, mais que o colarinho apertado por uma bela gravata, eu me via sem saída ou com poucas opções.

No carro, saindo do trabalho, ouvi no rádio suas primeiras músicas, sem saber ao certo quem era o autor daquele som, meio tosco, mas pulsante, com uma batida inconfundível de uma banda de rock’n’roll! Aumentei o som e me deixei levar pela força da voz e dos instrumentos musicais distorcidos. Sua fala trazia uma rebeldia, uma energia que eu conhecera na juventude.

Acompanhei a carreira do grupo. Não gostava de todas as músicas, mas percebia que além de um som e palavras por vezes gritadas e explosivas, havia em algumas baladas versos simples, mas belos, num contraste entre a luz e a sombra:

“Minha mente nem sempre tão lúcida é fértil e me deu a voz/ Minha mente nem sempre tão lúcida fez ela se afastar/ Mas ela vai voltar/ Mas ela vai voltar. “

O tempo passou… Acordo e vou trabalhar, ligo o computador, leio as manchetes do dia e me deparo: “Chorão” morreu!

Foi encontrado sozinho, caído em seu apartamento. Havia um pó branco sobre uma mesa, havia bebida, mas havia principalmente algo que se perdeu. A polícia investiga a hipótese de o pó ser cocaína, e talvez sua mistura com álcool ou outra substância possa tê-lo levado à morte.

Não é incomum no palco da vida, não necessariamente sendo um ídolo de rock, a droga acontecer. Seu uso solitário, seu “brilho” fugaz e frágil pode afastar alguém por instantes de uma tristeza ou angústia. Sua luz, porém, não afasta permanentemente nossa sombra, essa que nos é própria e de todo ser humano, que por vezes pode nos parecer tão intensa.

Não julgo quem busca essa saída. Não conheço a dor ou a ferida que alguém possa ter para não conseguir dela se afastar.
Sei que há outros caminhos, e que a vida é feita de sombras e de luz. Difícil, às vezes, é vislumbrar uma outra estrada onde se possa andar, já que não podemos olhar diretamente para o sol.

Fico triste porque um homem — o eterno garoto era casado há mais de 20 anos — não poderá mais usar sua voz fértil numa canção de amor. A falta de lucidez esteve à sua frente e o fez se calar.

Sei que muitas explicações e condenações estarão presentes. Sei que muitos podem julgar, mas não estarei entre estes.
Apenas continuarei a ouvir suas canções, se possível bem alto!

 

 

6 comentários em “Luz e sombra

  • 15/03/2013 em 10:55
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    Talvez por sermos os que escrevem ou tentam faze-lo.Viver e ter sentido na vida, é o que faz a diferença.A perda de um amor ,nos entristece e nos desorienta.

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  • 14/03/2013 em 19:57
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    Não todos são o suficientemente cínicos, como nós, ao ponto de “entender” o que esta acontecendo e permanecer vivos!

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  • 13/03/2013 em 16:53
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    Bonito…gostei de seu modo de se expressar sobre um artista que tambem eu, nao conheci….

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  • 13/03/2013 em 14:50
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    Bonita cronica, vou passar a ouvir Chorão tambem, para te ser sincera, nunca tinha ouvido falar nele, haja alienação! só escuto radio MEC, CBN, Roquette Pinto e meus CDs favoritos, que estão no porta luvas do automóvel: Amy, Adele, Diana Krall, Janis Joplin e Rolling Stones. Quando caiu o avião com os paulistas, esqueci o nome do grupo…foi que vim a conhece-los e até a comprar o CD deles. Lembrei: Mamonas Asassinas.
    Vou agora no Youtube conhecer Charlie Brown Jr e seu lider, o falecido Chorão.
    PS: você ainda trabalha de terno e gravata?

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    • 15/03/2013 em 10:37
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      Não Rosane1Não trabalho mais de terno e gravata!Apesar que de vez em uso um blazer e tenis.
      Bjo

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