Livro, o nosso melhor amigo

Não sei vocês, mas eu fiquei um bocado irritada com a entrevista ao Globo desse Bob Stein que eu não sei quem é, mas que afirma no artigo, na contramão de toda a evidência, que o advento do digital é realmente o golpe de misericórdia no livro.

Para a literatura infantil, tudo bem, aplaudo e acho bem-vinda qualquer inovação no sentido de dinamizar o conteúdo, criar interesse, arraigar o hábito da leitura, cá entre nós, uma das coisas mais bacanas que o homem foi capaz de inventar, mas, para o vasto mundo adulto, querer torpedear a intimidade, a habilidade de imaginar, viajar, expandir o cérebro, se envolver e relaxar completamente sozinho em seu quarto com um livro? Peraí!

Sou contra — e não me calo — essa pretensão de transformar literatura em videogame, um inútil, superficial e deletável jeito moderno de matar o tempo que a gente nem tem — e, como dizia o poeta, quem morre é você —, embora sempre existam aqueles que, sem refletir longamente, dão as “boas-vindas a qualquer novidade que se apresente”.

A salvação da lavoura é que os fatos contradizem o agouro: umas das coisas maravilhosas do Kindle, e, acreditem, o que fez o leitor da Amazon transcender as barreiras do papel e dar partida na revolução digital da qual fazemos parte com devoção e orgulho, é que, nas palavras do próprio Jeff Bezos, meu guru de todos os tempos, o Kindle “desaparece” no ato da leitura, e é isso mesmo: você esquece que tem nas mãos mais um gadget obrigatório desses que nos entulham a vida — é, pasmem, sou contra o consumismo desvairado de tecnologia, é isso mesmo — e mergulha direto no prazer da leitura.

O resultado taí: depois de dezenas de anos beirando o ostracismo, sendo quase engolida pela cultura viciante de “mais-vendidos”, a literatura vem experimentando um renascimento vigoroso, justamente por estar associada à tecnologia palpável que todos querem adquirir. Ler agora é cool. E vai continuar sendo, torço e tenho certeza disso, e é por isso que nós, na KBR, não somente “publicamos em formatos digitais”, mas fazemos questão de editar cuidadosamente todo o nosso conteúdo, leve o tempo que levar, custe o que custar. Nosso leitor merece.

Quanto a esse Congresso Internacional do Livro Digital da Câmara Brasileira do Livro, que já vai hoje e amanhã em sua segunda edição e com a mesma postura, a de ignorar solenemente osplayers verdadeiros que entendem o nosso mercado e a realidade brasileira… ah. Deixa pra lá. Quem quiser que apareça por lá.

(esse post está publicado também no Kindle Blog Brasil, que discute as novidades do mercado brasileiro de ebooks)

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

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