Lisbon revisited: carta à capital portuguesa

Alfama, Lisboa

Alfama, Lisboa

Querida Lisboa,

Começo esta carta com o título de um dos poemas do teu mais ilustre filho, que nasceu no Largo de São Carlos às 3 da tarde do dia 11 de junho de 1888. Batizado Fernando Antonio Nogueira Pessoa, tão grande era sua alma que nele só não cabia e foi por isso se espalhando por outros eus.

Foste meu primeiro amor de viagem, mas nós, pobres humanos, somos muitas vezes infiéis e nos afastamos da mulher amada. Te conheci em 1975, e muitas vezes voltei a teu leito para nele viver toda a magia do teu amor desvairado. Depois, a vida é sempre feita de um depois, o tempo passou e a última vez que te revi foi em 1999.

Porém não que te esqueci, querida cidade, apenas fui ficando cada vez mais parisiense, deixando de retornar aos teus recantos e postergando o nosso esperado encontro, algumas vezes por falta de tempo, outras por pura preguiça.

Agora é a hora. Estou partindo para te rever. Teu encanto continua o mesmo, tuas ruelas seguem seus momentos mágicos, tuas tascas, tal como o fado famoso, têm todas o cheirinho a alecrim, tua Alfama onde tantas vezes passeei, vagabundeando, sem muita pressa de chegar, onde amei e fui amado, onde virei noites ouvindo fados, onde conheci Deolinda, fadista maior, com seus olhos azuis faiscando no belo rosto moreno, que terminavam sempre no Largo do Chafariz de Dentro. Quanto vinho bebi com amigos queridos, que não só me deixaram, mas partindo desta vida, deixaram a ti também.

Como Antonio Soares, pintor e boêmio maior, conhecido como Tunecas, que em seu belo sobrado manuelino na antiga Travessa do Guarda-Mor recebia com enorme fidalguia e um humor incontável. Quantas festas, quantos jantares, quantas noites percorrendo tuas noites… Morreu de tanto amar. Também em tua cidade se morre de muito amar.

Tavares, o próprio, herdeiro e dono do afamado e luxuoso restaurante, em uma tarde de maio, no seu escritório, contou-me com os olhos cheios de lágrimas, com aquela emoção que só teus filhos têm, como foi o funeral daquele que era considerado uma das figuras mais populares e conhecidas, não só no Bairro Baixo, na Alfama, nos bares do Rossio, mas também em toda Lisboa. Disse-me mais ou menos assim:

— Amigo Paulo, foi o maior enterro que Lisboa viu nos últimos anos. Irmanados e sozinhos, seguiam seu corpo boêmios e políticos, jornalistas, pintores, escritores e as mais belas damas da nossa sociedade, donos de restaurantes, bares e todas as nossas fadistas, o senhor Primeiro Ministro e as putas da cidade.

Quero dizer que o “Amigo Paulo” é uma forma toda carinhosa que usam teus filhos quando falam com as pessoas de que gostam, porque com ele estivera apenas duas vezes, sempre em companhia do Tunecas; e na tarde em que entrei no Tavares para fazer uma reserva e começamos a conversar.

Meu saudoso César Augusto Madruga, poeta, escritor, pensador, filósofo que foi banido dos teus braços pelos seguidores do seu grande inimigo, o ditador Oliveira Salazar. César, em suas cartas repletas de humor, escrevia sempre no endereço do remetente “Avenida Que Não Existe”. Dizia ele:

— Como chamar tua principal avenida por seu nome real, quando Liberdade não existia em Portugal?

Foi se refugiar no Alentejo, em Montemor-o-Novo, distrito de Évora, onde adquiriu uma fantástica quinta; virou um grande produtor de cortiça e transformou o moinho que havia na herdade em um famoso restaurante, o Chaparral. Quantas noites de conversa, franca e vadia, como só os verdadeiros amigos sabem conversar e vadiar, quantos almoços em Évora, quanto vinho derramado em baixo das seculares oliveiras que emolduravam sua casa, ao som da água que corria pelo riacho que lhe era vizinho.

E há Manoel Rodrigues de Oliveira, jornalista, diretor de redação do teu reputado Diário de Lisboa, escritor, grande contador de histórias e autor do encantador Esquinas do Mundo, um dos melhores livros de viagens que li em toda minha vida. Manoel tinha mesa cativa em todos os restaurantes e tascas da tua cidade baixa e da tua cidade alta: foi a única pessoa onipresente que conheci em toda minha vida. E quanta ginjinha derrubamos juntos!

Lembro Maria Eulália, beleza maior de todas as tuas filhas, modelo famosa, capa de todas as revistas da tua terra e de outras terras da Europa: uma paixão doentia e louca que transformou os cinco dias que eu passaria contigo, querida Lisboa, em quinze dias de loucura, fuga, amor e sexo — tórridas tardes a que se seguiam tórridas noites. Não soube mais dela, ficando sua memória guardada nas lágrimas que escorriam quando nos despedimos em Portela de Sacaven, indo eu para Paris, ela ficando em teus braços.

Mas saiba, querida Lisboa, fomos dois os que se perderam, fomos dois nos separando, fomos dois que nunca soubemos um do outro.

Depois, querida amiga, te troquei pelo Porto e pelas terras da região da Serra do Marão, onde estive durante alguns anos, sempre em setembro, no mês de vindima, na quinta de primos, em Celorico de Basto. Bons relacionamentos os que fiz no Porto, muitos momentos mágicos vivi em Celorico: muita comida e a festa da vindima, onde pisei uvas nos lagares fazendo vinho que bebi no ano seguinte. Rodei por toda essa região, e nunca mais tive tempo de te rever, cidade amiga.

Pois no dia 20 de março, se não houver imprevistos, irei te rever, querida cidade, e posso te garantir que antes mesmo de chegar já trago dentro do peito a saudade de te deixar.

 

 

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1 Resultado

  1. manuelfunes disse:

    Paulo, brilhante como sempre! Colocou no papel meus sentimentos e percepções, nas minhas visitas a Espanha. Existem lugares que formam parte da arquitetura de nossa vida, que nos alimentam e que visitamos quando temos fome desta energia!

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