Lilith – a noite dos tempos

Lady Lilith, Dante Gabriel Rossetti (1828-1882)
Óleo sobre tela, Delaware Art Museum, Wilmington, Delaware

Sempre fui apaixonada pelo Universo — as fotos dos grandes espaços, das galáxias, nebulosas planetas estrelas, tudo rodando e parecendo solto no espaço à minha volta, um espaço que parece infinito… Ah! A sensação de liberdade é avassaladora. Um infinito espaço negro, só visto à noite.

Nós humanos, aqui, vivendo esses mistérios da noite — não bastassem os mistérios do dia, estes bem mais perto, aqui, na nossa terra, no nosso chão, onde pisávamos. Acessíveis, sem que tivéssemos que inventar instrumentos e apetrechos mais sofisticados, ou demorasse muito.

“À noite, porém, todos os gatos são pardos…”, diziam.

E a nossa alma, em crescimento desde que nascemos mesmo depois que nos tornamos adultos, essa nossa alma, Psique tomada dos gregos, está e sempre esteve exposta ao impacto de todos esses mistérios. Sim, pois enquanto não entendemos, não nomeamos algo, é como se ele não existisse: mamãe, papai, vovó etc. E sobre o que a gente não entendia, para que não ficasse um buraco amedrontador de não entendimento — como o escuro, onde não se divisa o que nele há —, o impulso de sobrevivência, sem o qual teríamos desaparecido, nos contava histórias. Inventava mitos.

Logo cedo nos contavam. E me parece que todas as culturas criaram mitologias para explicar as chuvas, enchentes, trovões, secas, fome. Os deuses, como invisíveis e impalpáveis habitantes do desconhecido, foram criados na nossa alma e muitas vezes materializados, para receber pedidos e oferendas.

Lembro novamente que estamos no meio de um espaço imensurável, soltos. E de onde teria tudo isso vindo? Várias filosofias e religiões têm suas explicações, mas me agrada mais aquela dos gregos, que diz assim:

Por Junito Brandão, CAOS: “No princípio era o Caos, em grego Kháos, que significa “abismo insondável”. Consoante outros, Caos é ‘a personificação do vazio primordial, anterior à criação, quando a ordem ainda não havia sido imposta aos elementos do mundo’.”

No Gênesis hebreu 1,2, diz o texto sagrado:

A terra, porém, estava informe e vazia, e as trevas cobriam face do abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre as águas”. Trata-se do Caos primordial, antes da criação do mundo, realizada por Javé a partir do nada.

Na cosmogonia egípcia, o Caos é uma energia poderosa do mundo informe e não ordenado Existia antes da criação e coexiste com o mundo formal, envolvendo-o numa imensa e inexaurível reserva de energias, nas quais se dissolverão as formas nos fins dos tempos.

Voltemos para a nossa alma. Esta toda poderosa matriz de energia caótica, anterior à criação, associou-se sempre ao elemento feminino — porque é de onde tudo nasce — e à noite,às deusas lunares, aos mistérios e feitiços, sortilégios. E a tudo o que não está inserido no mundo ordenado, ou até onde a nossa mente conseguiu ordenar.

Nossa alma criou as superstições, como uma graxa grossa de defesa, para que pudéssemos suportar as arestas da vida, suavizá-las, torná-las passíveis de convivência sem nos matar ou enlouquecer no caos psíquico. São as primeiras iniciativas de ordenar nosso psiquismo, nossas emoções.

As superstições foram se aprimorando. Com o desenvolvimento humano, demos adeus a várias delas. Na astrologia, usamos um ponto que representa essa noite dos tempos: a Lilith, nome que veio da Lulu ou Lilu da Babilônia, e Laila, que significa noite em hebraico. Representa um ponto vazio no nosso sistema solar relacionado com a Lua: é lá que estão nossos terrores, mas também a sabedoria intuitiva de quem já viu universos nascerem e morrerem.

Para terminar, o início de uma ode à noite, por Fernando Pessoa:

Vem, noite antiquíssima e idêntica,

Rainha nascida destronada,

Noite igual por dentro ao silêncio, Noite

Com as estrelas lantejoulas rápidas

No teu vestido franjado de Infinito.

E isso é só o começo! Bom fim de semana pra nós!

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8 comentários em “Lilith – a noite dos tempos

  • 23/09/2012 em 17:41
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    “Lilith (ou Lilit) (em hebraico: ?????) é um demônio feminino da mitologia Babilônica que habitava lugares desertos. Esta é referida em diversos textos antigos sendo o mais notável o Antigo Testamento.”
    Demonios são execelentes personagens para novelas… Eles sao muito criativos!

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    • 23/09/2012 em 18:02
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      Obrigada. Manuel! pelo que eu me lembro laila é que é noite em hebraico. Mas foram fundidas com as deusas Lilu ou Lulu e outros nomes parecidos da Babilônia.Escrevo palavras de linguas mortas, inclusive o hebraico que ressuscitou, de forma aportuguesada como norma pessoal. E não se pode afirmar nada como definitivo com relação a estas mitologias, inclusive os nomes de reis, demônios e entidade protetoras Concordo que são excelentes personagens para romances – são mesmo super criativos! Abraço!

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  • 22/09/2012 em 13:58
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    Chovendo no molhado: – Muito Bom!
    Suas crônicas, das quais sou fã, também são CULTURA!
    Parabéns!
    Já estou esperando a próxima…
    Abraço,
    Raul

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