Lendo a foto: músicos “populares” tocam o curioso ritmo em cena curiosa

Spirito Santo

Centro do Rio de Janeiro, ano de 1922. O cidadão de preto no centro da foto é Raul Pederneiras, famoso caricaturista polivalente (foi músico, teatrólogo, pintor etc.). A julgar pela extrema atenção que todos os demais a ele devotam, é o “figurão”, o “cara da situação”, como se diz, a mais importante entre as pessoas presentes, o mais entendido, o mais douto no assunto que, ao que tudo indica, é a música que o grupo sentado à frente está tocando, pelo que se soube um gênero dançante, conhecido nessa época aí como “Assustado”, aparentado ao que depois se convencionou chamar de “Chorinho”.

Dentre os outros presentes — a maioria gente branca como se vê — há dois mulatos, ambos, seguramente, também pessoas doutas em alguma coisa. Um cidadão à extrema direita, com um estranho guarda-pó tipo pijama, está com o braço direito levantado, a mão esquerda apoiada na cintura, equilibrando com o corpo algo que parece ser um spotlight que ilumina a foto.

A posição dos dois homens que ladeiam o “mais douto” indica que um deles, o da esquerda, está fazendo soar um diapasão no ouvido do atento ouvinte; o outro de chapéu, à direita, controla se o diapasão está posicionado de forma ideal no ouvido do douto, que está com os olhos buscando no nada o sentido do que está ouvindo. O pequeno diapasão é olhado fixamente pelos demais, demonstrando assim que tanto o objeto quanto a ação são extremamente importantes para o momento, e que tudo está de algum modo relacionado à música que se toca ali.

E quem seriam esses doutos assim tão sérios e só um pouco alegres, felizes, enfim? A época — que marca a gestação do Samba urbano carioca tal como hoje o conhecemos — era a dos musicistas (e, cá entre nós: para mim o groove do “Assustado”, sendo assim tão… dançante, como se dizia, devia ter alguma coisa a ver com o Samba), mas também a dos literatos e poetas, dos caricaturistas e de todas as outras sumidades da cultura de uma cidade do Rio de Janeiro ainda pequeninha, provinciana no entorno de seu centro boêmio, dependente ainda do boulevard Avenida Central.

Os músicos — que, ao contrário dos doutos, são todos negros, com exceção de um meio acaboclado e mais bem arrumado no canto esquerdo da foto — se vestem de forma bem humilde, com paletós e sapatos surrados. Aparentemente, estão interessados apenas nas circunstancias da foto — que lhes causa um misto de timidez, êxtase e reverencia — e na música que tocam ou que, na base da pose, fingem tocar, sem nenhuma alegria ou emoção aparente, parecendo, na verdade, estarem até um pouco constrangidos com toda a situação.

Agora olhe mais para os sapatos dos pobres. Não parece que eles, além de rotos, estão um tanto passados de pó de barro seco? Pois só por isso aí já dá pra se imaginar o quanto devia ser distante o lugar de onde vinham. Batidos de tanto andar, eles, os sapatos, talvez até tenham visto alguma graxa, sim, algum viço e brilho no ensejo de não fazerem feio na apresentação, mas a caminhada os teria embaçado com a poeira da estrada sem dó nem perdão.

Bichos do mato. Teriam vindo de algum morro da Favela, desses que, começando a se multiplicar pela periferia da cidade a partir de 1904, 1906, estavam já lotados de gente nos anos 1920? Ou de mais longe ainda, do cafundó soturno de algum subúrbio, morada de infelizes? Haveria muitos músicos como eles por lá, por essas brenhas sobre as quais — com exceção dos escritos de um Lima Barreto ou outro — a gente pouco ou quase nada ouviu falar?

Agora, a música deles, não. Essa não era de modo algum rota ou esfarrapada. Dá para se ver, quase ouvir. De percussão — para quem é tolo de usar esse parâmetro como “nível de excelência” musical — apenas um curioso prato, desses de comer, arranhado como um reco-reco por uma faca de ranhuras.

Dois violões, bandolins, e pelo menos um cavaquinho — instrumentos para a muita harmonia e melodia que hoje em dia a gente já sabe que essa música tem. Pensando bem, talvez seja por isso mesmo que a música deles tanto atraiu a atenção dos “doutos”, que devem até ter pagado um bom dinheirinho pela apresentação.

As caras pretas, hipnotizadas por seus quinze minutos de fama, aparecem de relance num desvão da cidade elegante e excludente, de carona numa imagem que visava eternizar apenas a figura dos finos donos da cena, mas que, pela forçosa ironia da situação, acabou desvendando também as inéditas aparências de um bando de gente anônima e joões-ninguém.

Por conta disso tudo, o aspecto mais curioso da foto é esse mesmo: como se estivessem em ambientes totalmente diferentes, ou apartados por uma parede invisível, há um distanciamento enorme entre os “intelectuais” — de pé ou sentados no banco principal da cena, elegantemente vestidos — e os músicos — agachados ou sentados, desconfortavelmente, num tapete sobre o chão.
Ainda bem que a música — aquele chorinho talvez já meio sambeado —, não podendo ser omitida, superou tudo, só deixando deles essa luz brilhante de eternidade.

Spirito Santo (Antonio José do Espírito Santo) é escritor, intelectual, artesão, músico e pesquisador. Compositor e criador do Grupo Vissungo, é especializado em música afro-brasileira e artesanato musical. Seu livro Do Samba ao funk do Jorjão será lançado pela KBR em setembro.

 

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