Lembranças

Ele estava sentado em frente à casa. Descalço, pois era domingo e não era dia de ir pra roça.Na igreja, não ia! A mulher e os meninos já estavam lá para assistir às preces. Ele não, tava brigado com Deus! Por causa do Juca, irmão mais novo.
Criara o bichinho desde pequeno, o pai tinha morrido depois uma queda de cavalo numa vaquejada. Que Deus é esse?Que leva as pessoas assim sem explicação!

Tava ele e o irmão, lado a lado, junto com os companheiros cortando cana. Tava quente, mas tava quente pra todo mundo! Juca falou assim:

— Zeca, tá quente! Vou encostar um tanto, debaixo daquela árvore!

E foi! Achou estranho, mas o trabalho não dava folga: facão na mão e o sentido no serviço. Lá pelas tantas, olhou para o lado, procurando o irmão mais novo, mas ele não tinha voltado. Estranhou. Juca não era de “enrolar”, ou fugir de obrigação assumida. Parou um instante e foi olhar. Chegou perto do pequizeiro, única arvore que não abandona o pobre no cerrado. Viu o corpo no chão, achou que tava dormindo. Se achegou e viu que era mais sério. O médico explicou o inexplicável.

— Rebentou uma veia na cabeça! Igual represa rebenta na cheia — tentou esclarecer o que não tinha explicação.

Falou assim, pensando que tava falando de passarinho, ou coisa sem importância. Assim desse jeito mais sem jeito. Sem conseguir aplacar a dor, que desceu no vale do seu coração rebentando o que tinha pela frente, pensou só em desgraça.
Olhou para o “doutor” e saiu. Daquele dia em diante, não foi mais à igreja.

Agora tava ali sozinho, picando o fumo para o “pito”. Tinha parado de pitar, mas voltou depois do acontecido. Sentado no degrau de madeira, na frente da porta da entrada, ficava ali, só pensando, sem querer pensar. O sol tava forte, devia ser metade de um dia. A porta meio aberta atrás dele não convidava ninguém para entrar. Era desleixo, falta de vontade mesmo.

A mulher já tinha dito pra ele procurar o médico que trata da cabeça, “das tristezas”, que ele não tava bão, não! Isso ele sabia, não precisava de doutor pra saber disso. A faca cortando o fumo brilhava, com o reflexo do sol. Segurava o rolo com a esquerda e picava com a direita. Ficava ali, só no pensar.

O povo passava em frente e nem mexia com ele, sabia que picar fumo é coisa séria, merece atenção e sentido no fazer. Ele não fazia questão do silêncio ou de falta de companhia, tava sem assunto, depois do acontecido. Ia trabalhar, na precisão, por causa dos meninos e da mulher que não tinham culpa do fato. Era necessidade, por feijão no prato dos meninos; era obrigação. Mas a vontade tava longe, debaixo de um pé de pequizeiro. Enterrada igual toco no mato. O cigarro de palha ficou pronto!

Olhou o serviço feito, enfiou a mão no bolso e tirou a binga. Era do pai, ficou pra ele. As lembranças voltaram, acendeu e tragou com força. Sentiu a tontura e exalou a fumaça pela boca e o nariz. Olhou para frente sem pressa, esperando devagar o dia se ir, e quem sabe com ele, um dia, levar a tristeza que tava presa no seu coração.

 

 

4 comentários em “Lembranças

  • 18/01/2012 em 22:44
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    Que linda crônica !
    Tenho um compromisso com vc as quartas feiras.
    Grande abraço

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    • 19/01/2012 em 10:42
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      Obrigado Maria Olivia!
      Vai ser ótimo sua companhia!
      Um abraço forte.

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  • 18/01/2012 em 09:40
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    Suas histórias mineiras sempre me comovem.

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    • 18/01/2012 em 12:01
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      Oi ,Priscila.
      Lembranças às vezes são tristes ou alegres,mas são nossas.

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