Lasanha de repolho é 10

Acordei antes dela e pude testemunhar o suspiro que a conduziu para a manhã. A água logo titilaria em seus olhos de menininha. A malha da academia desenhou seu corpo meu.

Ela notou que eu estava acordado. Sibilou: “Vou deixar o ventilador ligado. Tá frio, mas o som dele vai tapar o barulho da construção. Descanse mais um pouquinho”. Ganhei beijo na testa. Afeto em conta-gotas faz mais a cabeça.

Era preciso fazer algo para celebrar o carinho via ventilador de inverno. A pé, fui para o mercado adorando o sol amanteigado de maio, uma luz que lubrificava meus interiores cravados de tantos dardos.

A alegria da Mulher estava lá, no semáforo dos pimentões lustrados, no amor bolinha dos tomates-cerejas, nos dois abacaxis por cinco reais, na harmonia entre as espécies de alface e o vermelho enxerido das melancias inteiras em suas metades.

Observei-a na cenoura-baroa, nas pinceladas verdes da abobrinha caipira, no veludo do kiwi. Vi que é possível amar uma moranga promiscuamente, pensando na volúpia de seu parceiro, o quiabo. O Último Tango em Paris no sacolão.

Quis que tudo fosse muito suco para ela. Laranjinha-capeta, limão, laranja pera-rio e a gostosura do sangue da acerola. Banana-prata depois da academia, com um pinguinho de mel: aquele dia doce admitiria.

Eu e minhas sacolas voltamos pensando no quanto odiamos quando ela viaja para congressos e reuniões, não porque iríamos perdê-la para um executivo numa Ferrari. Ela jamais trocaria um bluesman capenga metido a escritor por um diretor da Siemens, nunca substituiria minhas rabugices e arroubos antissociais constantes por um drink em Monte Carlo. É que a casa estica, esfria, escurece, desperfuma. E o tira-gosto que faço não é bom, o vinho não é massa, Dizzie Gillespie perde o suíngue…

É claro que a gente briga sim, quando minha babaquice passa dos níveis recomendados pela OMS. Mas nada que ultrapasse a fúria pelo fato de eu não entender o porquê de tanta demora pra ficar pronta depois do banho. São tantos creminhos!

Nosso casamento completou dez anos. Lembrei-me das nossas aventuras, lágrimas, da vez em que ela foi porteira de show, do seu apoio quando joguei pra cima um emprego que quase me matou.

Saciado, penso que o Amor é sentir saudade da pessoa mesmo que ela esteja logo ali, do seu lado, comendo lasanha de repolho.

Pra você, Sérbia.

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

3 comentários em “Lasanha de repolho é 10

  • 27/05/2012 em 21:26
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    Ai, como é bom ter conhecido o Paulo junto com a Sérbia e saber o quanto eles sao autenticos .
    10 anos de casados no dia 25 e no dia 26 aniversario do grande escritor, bjos

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  • 26/05/2012 em 21:17
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    Apaixonante!!! Literalmente, apaixonante…. como é lindo sentir que vcs dois estao cada dia mais unidos, comer uma lasanha de repolho ,com um poeta ao lado com certeza cai muito bem, bjos.

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