Lapa Mundi

1.

Não gosto da Lapa. Mas amo a história da Lapa. A Lapa de hoje não me seduz, com seus bares metidos a chiques, que poderiam estar em qualquer outro bairro carioca, menos na Lapa; seus shows de samba “universitário” (som certinho, acadêmico), com cantoras muito afinadas e comportadas (os músicos e cantores também), sem o charme de uma Aracy de Almeida, por exemplo — saudade da velha Araca! — ou até, pra não dizerem que sou saudosista, de algumas cantoras sapatas de hoje que, pelo menos, soltam a voz, apaixonadas por suas gatas…

*** Escute “Lapa Mundi”, de Paulo Girão:  ***

Estou morando na Lapa pela segunda vez na vida. Da primeira, fiquei quase vinte anos; peguei uma fase anterior à badalação de agora. Não havia badalação nenhuma: comprei alguns livros sobre o bairro num sebo da Rua Joaquim Silva — e, o mais incrível, a Xerox encadernada de um livro com memórias de Madame Satã, à venda na calçada da esquina da Igreja da Lapa! —; comprei fitas cassete com músicas da “era de ouro” da música brasileira (entre os anos de 1930 e 50), nas vozes de Orlando Silva, Carlos Galhardo e outros grandes cantores “do rádio”; e, muito bem alimentado por este maravilhoso material, saí várias vezes sozinho pelos botequins da Lapa como se fosse um boêmio do tempo de Noel, Satã, Deus e o Diabo na terra da malandragem. Badalação melhor, impossível!

Na realidade, foi no início da década de 1970 que comecei a conhecer a Lapa. Quem me levou (e me trouxe) foi uma garota esperta de Copacabana. Nessa época, conheci apenas a rua que vai da Sala Cecília Meirelles até a velha adega portuguesa — a primeira do Rio — e, virando à esquerda, o Hotel Americano, na Rua Joaquim Silva: foi este o trajeto que fiz com a tal garota, numa noite de sábado. Noite profética! Eu não fazia a menor ideia de que um dia ia morar na Lapa e, sobretudo, que ia ter o bairro como um dos meus principais temas musicais e literários.

No meu livro Glória ao rei dos confins do além, que sairá em breve pela KBR, conto a historinha romântica da minha iniciação à Lapa, com prólogo em Copacabana. E já estou escrevendo outro livro, com o sintomático nome de Lapa Mundi e o mistério nos Arcos. Na verdade, estou no meio de uma trilogia, que “vai de Copacabana à Lapa, passando pela Avenida Paulista”. Mas o livro que estou escrevendo agora não é o segundo, é o terceiro, e minha ideia é recheá-lo de ilustrações fantásticas das entranhas dos Arcos da Lapa! O segundo será um romance policial, com o título provisório Quem matou o autor da canção? (neste, certamente vou precisar dos conselhos de Ricardo Hofstetter, um dos grandes autores da KBR).

2.

A existência desta crônica se deve ao fato de que “a Noga não gosta da Lapa” (posso estar errado). Tive esta impressão conversando com ela, nossa mestra e líder da KBR, na Farra de Sampa. Mas acho que ela não gosta é da Lapa de hoje. Se a Noga pegar o “bonde espacial” de que eu falo na minha música “Lapa Mundi”, e viajar no tempo até o passado habitado por Madame Satã, Noel Rosa, Geraldo Pereira e outros grandes malandros-compositores, vai amar a Lapa; eu diria até que vai se “lapaixonar”! Mas, talvez, saia voando rapidinho, de volta pro futuro… Eu compreendo. Uma pessoa que mora num lugar chamado Vale do Sossego e, sentada no chão fresco da varanda de sua casa, vê esquilos correndo, não vai querer jamais cair no tumulto lapiano. Nunca! Nem nos dias de hoje nem na década de trinta.

Mas a Noga, sem querer, me deu o tema e o estímulo para esta crônica. Tanto que no sábado, 6 de agosto, um lindo dia de sol, depois de comprar a Folha numa banca da Paulista, e antes de pegar o táxi pra Congonhas, resolvi me sentar num bar meu velho conhecido pra tomar uma cerveja e, ao começar a leitura da “Ilustrada”, senti o santo baixar, saquei do bolso a caneta e comecei a escrever isto que vocês estão lendo. Comecei exatamente assim: “Não gosto da Lapa. Adoro escrever em folhas de jornal, nos espaços em branco, entre as matérias, ou em qualquer espaço em que eu consiga ler depois a minha própria letra, claro”. Já no aeroporto, esperando meu voo, escrevi mais no mesmo jornal. É ótimo!

Na Farra, Noga sugeriu que eu escrevesse alguma coisa atual. A minha “Crônica da KBR” anterior, de 28 de julho, intitulada “Há males que vem para o bem”, era sobre algo que se passou comigo no início dos anos 1980, quando morei em São Paulo. Nela, conto como conheci o poeta Fernando Pessoa, um acontecimento memorável. Mas, e agora, José? Segui a recomendação da Noga, e aqui estou novamente. Mas ainda não consegui ser totalmente atual, misturei tudo. Acho que continuo puxando a brasa mais pro passado… Será que eu não tenho presente? Terei algum futuro? Pode ser que eu esteja me tornando um personagem “retrô” dos anos 1960-70, viajando num “bonde espacial” ao som de “Lapa Mundi”, ou de Amy Winehouse, que é (foi) muito mais “retrô” do que eu. E esteve em Santa Teresa, mas não voou sobre a Lapa.

***

Atualidades

Pouco antes de esta crônica ser escrita, aconteceu mais um trágico acidente no Rio de Janeiro, mais um com o bonde de Santa Teresa. O “bonde espacial” de que falei é o querido bonde de Santa Teresa, que está sendo proibido de voar sobre os Arcos da Lapa. Mas acho que, desta vez, as “autoridades” vão encontrar e punir os culpados: o motorneiro… e o próprio bonde).

Conheça o autor Paulo Girão

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

3 comentários em “Lapa Mundi

  • 08/09/2011 em 19:41
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    Opa, desculpe a ignorância de minha parte… pretensão editorial é o diabo! Já consertei. Bjs!

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  • 08/09/2011 em 19:33
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    Noga, não sei se você é ligada nessas coisas de coincidências, sincronicidades, etc… Eu me acho, atualmente, totalmente sincronizado: você me disse que trabalhou na Fundição, hoje, exatamente no dia que estou escrevendo no meu novo livro sobre… uma festa na Fundição (uma festa imaginária)! Isto é incrível!
    Você deve ter ido naquele restaurante natural da Joaquim Silva, não? Outra coisa: eu moro pertinho da Cecilia Meirelles! Quer dizer: o estímulo que você me deu (ou a provocação) para escrever uma nova crônica foi tudo de bom. O link para a música está ótimo (espero que a ouçam). Só tem uma coisinha: a Aracy de Almeida era chamada de Araca mesmo (pelo menos, sempre ouví o Herminio Bello de Carvalho falar assim), com c e não ç. Obrigado por tudo. Estou só aguardando seu chamado para a edição de “Glória ao rei dos confins do além” (aquele primeiro arquivo foi pra entrar na fila, mas agora tá melhor). Bjs,

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  • 08/09/2011 em 13:35
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    Paulo, já andei muito por Lapa e Santa Teresa… trabalhei na Fundição Progresso! E almocei na Joaquim Silva e outros lugares inúmeras vezes… Fora que eu frequentava a Cecília Meireles direto… saudades disso especialmente… Mas agora tô no Paraíso! Tudo tem seu preço! E adorei a crônica com música. Bjs

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