La dolce vita

O semáforo estava fechado. De dentro do carro, com o ar condicionado ligado, escutando uma música, eu tentava me fortalecer para enfrentar o dia-a-dia. Enquanto, distraído, aguardava o sinal de largada, eis que atravessa à minha frente um senhor empurrando um pequeno carrinho de sorvete.

Para aqueles que não desfrutaram desse prazer, deixe-me explicar o que isso significa. Num passado não tão remoto, diante das escolas, vendiam-se sorvetes, churrasquinhos e balas. No meu colégio, o espaço era dividido por três senhores: Batista tinha todos os tipos de gulodices e confeitos, e ainda os vendia anotando as compras numa caderneta que atiçava nossos desejos; Seu Bené era o rei do churrasquinho “de gato” (que, apesar da alcunha, era delicioso); e ainda o seu Chico, motivo de tantas lembranças, que vendia o sorvete na casquinha, o meu preferido.

Existiam dois tipos básicos, um branco e um rosa, que dividiam o mesmo espaço no recipiente que os acondicionava dentro do carrinho. O branco deveria ter um sabor diferente, mas a lembrança do limão do qual derivava seu nome passava bem longe. Basicamente, se diferenciava do rosa pela quantidade de açúcar; o colorido era mais doce e carregava um nome que impunha respeito: “Creme Holandês”.

Não localizávamos bem o país nem a origem da guloseima, mas como quem a fazia era dona Maria, esposa do sorveteiro, isso não fazia muita diferença. O produto era artesanal de origem, e delicioso de se tomar.
Seu Chico também era mestre em colocá-lo na casca, usando uma pazinha de madeira:

— Vai querer qual?

À pergunta de nosso amigo vendedor, a resposta era sempre uma só:

— Os dois! — Não havia como separá-los; a delícia gelada ficava mais atraente e saborosa em duas cores. Eu ia para casa desfrutando a iguaria sem pensar em nada. Só sentia que, naquele instante, o mundo era doce e meu.

— Fun! Fun, fun! — Ops! O sinal já abriu e a impaciência alheia me avisa da urgência.

Arranco devagar, como se não quisesse abandonar um sonho. Enquanto dirijo em direção ao trabalho, vejo ainda, um pouco mais além, que o carrinho está parado no passeio e, perto dele, uma criança junto à mãe recebe a esperada promessa. Não consegui ver muito mais, mas tenho certeza de que a criança estava feliz!

 

 

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