Katzu!

Não me perguntem nada. Eu vi que as coisas
quando buscam seu curso encontram seu vazio.
Há uma dor de ocos pelo ar sem ninguém
e nos meus olhos criaturas vestidas. Sem nudez!

Garcia Lorca 

 

Penso, logo existo. O tomate não pensa, logo meu extrato bancário não tem razão.

Intrigado, dirijo-me ao melhor Banco do Brasil. Na porta da agência, um grupo de pessoas lindas, sorriso fácil, desenhando com o dedo indicador uma rodinha no ar. Tenho uma boa sugestão para aquela mímica  idiota, mas me calo, em respeito ao CONAR. Peço explicações ao gerente:

— Por que o saldo do meu Cheque Especial aumentou?

— Fique tranquilo. Você não viu na tevê? O Governo reduziu os juros, então dobramos seu limite de crédito.

— Ah, que notícia boa! Sendo assim, conceda-me um novo empréstimo, quero aproveitar a redução do IPI para comprar um carro zero para meu filho de seis anos.

 

A loucura da razão. Não suporto mais assistir nos telejornais a cenas deprimentes do populacho se espremendo em ônibus e trens lotados, como prisioneiros de campos de concentração, todos os dias, na ida e volta ao trabalho. Acompanhem meu raciocínio: se todos os brasileiros, inclusive os bebês de colo, possuíssem um carro, não precisaríamos nos submeter aos abusos do transporte coletivo. Por sua vez, ao incrementar a produção de automóveis, seria necessário abrir milhares de quilômetros de novas estradas, aplainar morros, aterrar rios e asfaltar parques, o que geraria milhões de empregos, agregando milhões de novos consumidores ao Mercado. Então, como não haverá lugares disponíveis para fixar residências, já que todas as áreas verdes terão sido desapropriadas para dar lugar ao trânsito, moraremos dentro de nossos automóveis. Seremos todos paulistanos.

O melhor de Minas está no Mar. Os mineiros abrem crateras, mineram segredos de outras eras, enferrujam rios, inseminando Chinas pelos quatro cantos do mundo. Se tudo der certo, o Projeto Apolo vai extinguir a fauna e a flora da Serra do Gandarela, na região de Caeté. Não demora, Minas Gerais estará exportando minério de ferro até para a Lua.

Lamentável. Em pleno Século XXI, 60% do carvão que abastece as siderúrgicas vem da destruição de matas nativas. A Anglo American, com seu mineroduto de 500 km, vai captar 8 mil metros cúbicos de água por hora, o suficiente pra abastecer uma cidade de 600 mil habitantes, sem pagar um centavo pelo uso da água, sugando o minério da região de Conceição do Mato Dentro, embebido em lama como se fosse uma esponja, pra depois exportar a commodity através do Porto de Açu, no Rio de Janeiro.

Tudo que Minas possui de belo e precioso deságua no Rio. Foi assim com o ouro e os diamantes, e o mesmo aconteceu com nossos talentos, escritores, poetas, jornalistas e cantores que se exilaram no Rio de Janeiro. Carlos Drummond de Andrade, amargurado com a destruição do Pico do Cauê, em Itabira, mudou de mala e pena para o Rio. Tiradentes tanto sonhou com a liberdade que acabou perdendo a cabeça no Campo da Lampadosa, no Rio Antigo. Aécio Neves, eleito pelo Grande Curral dos Mineiros o melhor Presidente da República que o Brasil ainda não teve, bate o ponto na orla carioca desde moleque.

Já dizia Drummond: “o poeta declina de toda responsabilidade na marcha do mundo capitalista”. Sinceramente, não vejo nenhum motivo para que o bicho homem seja preservado. Os dinossauros foram extintos, o elixir de Capeba Composto, o legítimo, deixou de ser fabricado, e o ursa panda cor de rosa já não anda mais sobre a Terra. Incentivado pelo Código Florestal dos Ruralistas, comprei uma montanha em área de preservação permanente, construí um bunker vinte metros debaixo da terra, e enchi de cerveja gelada. No primeiro dia do fim do mundo, quero estar vivo para ver o William Bonner dar a notícia através de minha televisão de cristal líquido de 80 polegadas.

Pensem comigo: o universo está se expandindo, esticando a Terra para além da Rio +20. O gelo dos polos está derretendo, abrindo espaço para mais gente, geladeiras, chaminés, prédios de mil andares e porrilhões de automóveis cuspindo monóxido de carbono — tudo pra sustentar a infalibilidade da Lei do Mercado. Se abrirmos uma rua até o final do mundo, a rua não acaba nunca. O mundo não é uma bola? Então, por que não fomos chutados para fora dele até agora?

Ketchup: a essência do pensar humano sobre o tomate em sua vermelhidão pastosa. O homem pensa para todas as coisas. Pensa para toda a existência. O homem pensou pensou pensou e pensou e inventou a palavra “CREIO”. Pensou um pouco mais e criou a bomba atômica, Hiroshima e Nagazaki. Deixou de pensar e inventou a música do “CRÉU”.

Cogito, ergo sum? Quando o homem não está pensando, o não pensar pensa por ele. O pensamento pensa incessantemente, pensa tanto que chega a fazer barulho. Ouçam, em palestra de Miguel Nicolelis, o zumbido que faz o cérebro mesmo quando estamos dormindo.

Não há nenhuma razão para eu estar vivo. Que delícia! Mas aqui estou, o sangue correndo em minhas veias, o ar poluído de Ipatinga entrando por meus pulmões, saboreando um sorvete de chocolate, fruto do pensar humano sobre a essência do cacau em sua doce e fugaz existência. Hummm… como seria amargo um mundo sem sorvete…

É madrugada, que não foi pensada pelo homem. O sol com sua faca de fogo rompe as cortinas do crepúsculo, uma brisa fresca entra pela janela…

 

 

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4 Resultados

  1. Lincoln disse:

    Vejo… Vejo a ironia tomar conta do desejo de mudança, mas não é justamente o bom humor que mais traz frutos para a filosofia? Eu percebo que na religião, um lugar onde não tem tanto bom humor (Já não digo a ironia…) é de certa forma estagnada. Apesar de milhões de pessoas acordarem todos os dias e abrirem uma passagem qualquer, deste livro idoso, de avanço mesmo só vemos a conta bancaria dos pastores. O estupro diário que vai além do útero da terra, é infértil e de gravidez só tem a multiplicação dos desastres humanos e naturais decorrentes destas “in-apropriações”. Esta crônica me fez refletir sobre o pensar e o fazer, e a conclusão que chego é a de que nenhum nem o outro importa mais, se a pessoa não tem um carro, que é o meu caso.

    Parabéns, sua escrita preza pela qualidade e o tom sarcástico é o que me atrai mais!

  2. Flávio Santos disse:

    Show de bola!

  3. Gato, muito maneiro este idas e vindas do confuso e explorador ser humano retratado na sua cronica. Sera’ que um dia destruiremos tudo e todos?
    Abracos
    Criolo

  4. manuel funes disse:

    Hummmm…… Para ser temos primeiro que existir!
    A propósito… Essas ideias de “motivo da existência…É uma invenção dos capitalistas para nos fazer trabalhar”…rs rs

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