K8JU972A

Quase todo mês tenho que ir ao banco desbloquear um cartão ou seu uso na Internet, porque erro as senhas e na terceira tentativa o sistema me bloqueia.  Em muitos casos até digitei a senha certa…  na conta errada.

Antigamente, cada conta bancária possuía uma única senha, agora são no mínimo duas.  Sem falar nas perguntas sobre a sua vida pessoal, como o nome de sua mãe ou o número do seu sapato.

Você começa usando as mesmas senhas para todos os bancos, mas quando se bloqueia é obrigado a fazer novas senhas que não podem coincidir com as três últimas que você já teve.  Tenho quatro contas bancárias (não confundir com dinheiro), o que resulta em oito senhas válidas e uma galeria de senhas inutilizadas.

As senhas não podem ser parecidas com nada razoável, como datas memoráveis da sua vida, seu número de telefone ou a placa do seu carro.  De preferência, devem conter letras e números, tudo junto e misturado.  A senha ideal é algo como k8ju972a.  Fácil assim.

Além das contas bancárias individuais, tenho também algumas contas conjuntas: duas com o marido, duas com a mãe, uma com a irmã.  Aqui entra uma particularidade extra: se a conta for conjunta, as senhas dos dois titulares não podem coincidir.  É preciso inventar quatro senhas diferentes para cada conta.

Marido, mãe e irmã, comodistas, ainda acham que tenho obrigação de lembrar as senhas deles — todas distintas entre si porque nenhum pode ter acesso às senhas do outro.  Preciso tomar cuidado para não contar a senha da mãe à irmã ou vice-versa, impossível dizer até quando conseguirei manter essa façanha.

Se você acha que não pode ficar pior, está enganado: um dos meus bancos (meu, neste caso, é apenas linguagem figurada) obriga o cliente a trocar as senhas a cada três meses.  As novas, é claro, não podem coincidir com nenhuma das três anteriores, que, aliás, você nem lembra mais quais eram.  Nesse banco possuo uma conta individual e duas conjuntas.  São dez novos códigos que entram no elenco a cada três meses.  Há grande chance de você insistir na senha antiga e se bloquear logo no primeiro acesso.

Só um gênio pode guardar de memória tantas “composições artísticas” como k8ju972a.  Anoto tudo.  De forma cifrada, é claro.  Por exemplo: k8ju972a vira 123iuo98.  Isso cria dificuldades na hora de recuperar as senhas e, muitas vezes, me deixa sem saber quem é quem.

Se o banco descobrir que faço anotações vai alegar, no caso de fraude, que a culpa é minha, o prejuízo idem.  Por isso, escondo também o papel secreto onde escrevo as senhas cifradas.  O primeiro obstáculo a superar é saber onde guardei o tal papel.

Nenhum desses problemas que me afligem vai atrapalhar o ladrão digital que resolver me roubar.  Os bancos também devem pensar assim: só isso explica porque se empenham tanto em transferir a responsabilidade para mim.

Quinze dias atrás, o diretor da empresa onde trabalho me chamou para uma conversa.  Fez elogios ao meu desempenho e me ofereceu uma promoção, um importante cargo de confiança.  No final, explicou que entre as minhas novas atribuições estaria o gerenciamento das contas bancárias da empresa. E avisou: por motivos de segurança, eu nunca poderia anotar nada.  São doze contas.  No mínimo mais vinte e quatro k8ju972a na minha vida.  Naquelas circunstâncias, era impossível recusar a oferta: fui obrigada a aceitar.  Cinco dias mais tarde, consternada e agradecendo efusivamente, aleguei problemas pessoais e me demiti.  A saúde mental vale mais que qualquer emprego.

 

 

4 comentários em “K8JU972A

  • 03/06/2012 em 10:59
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    não me fale de senhas, perdi todos meus e-books, 18
    o adobe me escreveu devolvendo a senha, mas não adiantou
    entrei no bate papo em ingles com eles, e eles me mandaram fazer uma coisa tão complicada que acabei desistindo
    e no final disseram que a culpa foi deles mesmo
    e ai? eu que me dane, né
    morro de saudades dos meus livros

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  • 03/06/2012 em 10:34
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    Claudia, sabe que eu nunca tinha sacado o verdadeiro motivo por trás da neura das senhas? É a indústria dos processos judiciais! Grande! E olhe que no Brasil ainda está incipiente… temos muito que aprender!

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    • 03/06/2012 em 20:08
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      Pois é, lamento ter destruído a sua ilusão de que os bancos estavam interessados na segurança de suas economias…

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