Jovem artista morre

Mais um jovem artista morre. Que droga! E dá-lhe a gente toda, comum, a especular, a mídia mundial a especular, os críticos a especular, os moralistas a especular, os religiosos a especular; e nisso, não os condeno: ao fazer assim, dizem de si, mostram-se completamente despidos. Sério: esperávamos outra atitude de sua parte? Sinceramente, não. Os mais esclarecidos… Bem, estes refletem, pensam diferente.

O artista a quem faço menção é Amy Winehouse, claro. Lamento sua morte prematura, mas compreendo o turbilhão nonagenário de sua existência pública, seu enorme sucesso, sua amolada vida pessoal — não é fácil encarar tantas coisas, ser mais um coisificado num planeta de pouco espaço para a originalidade. Ser singular é uma verdadeira, mas necessária loucura!

Nós também nos drogamos — nos empanturramos, nos embebedamos, nos esfumaçamos, nos entupimos de analgésicos e estimulantes e antidepressivos e hipnóticos e… pena, sorvemos de menos, desses ameaçadores, o melhor, o mais doce e instigador: sua propriedade de abrir-se num instante à vida!

A arte é o legado dos artistas: sua arte. Eles não são, embora possam chegar mesmo a tanto, exemplos de vida, modelos, ícones. Devem ser lembrados pelo talento apenas, e isso há de bastar. Quem deles exige mais acaba por atormentá-los, empurrando-os ao fim, à esclerose, à mumificação. Precisamos deles ativos; contudo, em toda a sua irreverência, a florear-se na arrogância, a rir-se do que é sisudo, a deixar a lágrima rolar, a ignorar mais um aceno. Eles nos escapam, meus amigos, mas não seu atuar, generosamente espargido sobre nossos sentidos.

Amy, sinto muito!

Curitiba, 25 de julho de 2011

Evandro L. M. de Abreu

Evandro Marques de Abreu é autor de O meio urbano ante a criminalidade violenta, já no prelo, próximo lançamento da KBR.

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

2 comentários em “Jovem artista morre

  • 26/07/2011 em 12:29
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    Evandro.
    É muito difícil entender a alma angustiada dos superdotados. Essa moça foi ema excelente intérprete, mas não era feliz dentro de sua gaiola. Tinha que sostar seus trinados alhures.

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