Invisível

Sou morena, não muito alta, não muito baixa, não muito bonita, não muito feia, não muito elegante, não muito descuidada: uma figura tão mediana que ninguém presta atenção especial em mim; sou apenas mais um rosto na multidão.

Para ter ideia da dimensão do meu anonimato, basta contar um caso: fiz uma cirurgia na pálpebra e permaneci três dias com o curativo.  Ninguém notou.  Esperançosa, fui visitar a minha mãe.  Afinal, mãe é mãe.  Não sei se ela não viu o esparadrapo no meu olho ou se não deu a mínima, o fato é que se limitou a me pedir algum dinheiro emprestado até o começo do mês seguinte.

Outro dia resolvi testar os limites da minha transparência.  Peguei um ônibus para uma cidade serrana próxima, decidida a ficar por lá até que sentissem a minha falta.  Nos dois primeiros dias, ninguém me procurou.  No terceiro, o chefe da seção onde trabalho telefonou para o meu celular perguntando onde arquivei um relatório importante; nem se deu conta de que eu não estava na empresa, achou que eu tinha saído para almoçar.

Fiquei com medo de perder o emprego.  Voltei para o Rio.  Inventei uma história cabeluda para justificar a minha ausência, mas nem precisei contá-la porque ninguém comentou nada.  Nem as faltas descontaram do meu salário.  Dessa parte eu gostei, concluí que a invisibilidade também tem as suas vantagens.

Depois desse episódio, resolvi mudar de profissão.  Vou ser espiã.  Nasci para isso, é o meu verdadeiro talento. Posso ser muito útil, inestimável mesmo.  Só não sei como chegar lá, porque obviamente não existe anúncio de emprego no jornal pedindo espiões.  Preciso que reparem em mim e isso, obviamente, é um pouco complicado.  Alguém aí tem contatos nos serviços de inteligência?

 

 

Um comentário em “Invisível

  • 05/02/2012 em 14:25
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    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK como eu me identifiquei, esse seria o serviço perfeito para nos
    adorei essa cronica

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