Inveja

Podem passar na minha frente com um brilhante tipo Elizabeth Taylor ou com o último modelito Louis Vuitton de oito mil dólares. Não dou a mínima. Vou olhar, é claro, porque a curiosidade faz parte do ser humano e sou antenada com o universo feminino, mas nada disso trará desejos de me lançar sobre a criatura, destruir ou arrancar-lhe a coisa para uso próprio. Zero de inveja.

No entanto, há muitos anos, acho que naquela época os bichos ainda falavam, uma colega de faculdade comentou que estava fazendo um curso extracurricular no qual, por falta de planejamento, eu não tinha me inscrito.  A inveja foi fulminante.

Demorou muito para que me assaltasse de novo esse sentimento: desta vez, tratava-se de um curso de alemão. Coisa esquisita.  Até bem pouco tempo não me lembro de ter invejado mais nada, mas agora estou preocupada porque, recentemente, tenho sentido muita inveja.

Da Martha Medeiros, por exemplo.  Adoro o jeito descomplicado com que ela trata assuntos universais, nem sei dizer onde acaba a admiração e começa a inveja.

Também andei invejando a Isabel Allende, a capacidade que ela tem de contar histórias, verdadeiras ou inventadas.  Nem em mil anos de cativeiro eu conseguiria fazer algo parecido.

O imenso talento do Claudio Paiva, que escreve como eu gostaria de escrever.  A genialidade do Chico Caruso.  A irreverência do Eduardo Dusek.  Essa nova turma do stand up.  O texto da Lícia Manzo em “A história de nós dois”.  A coragem do Caetano em dizer tudo que lhe vem à cabeça.  A lista é grande!

Não se trata de sucesso nem dinheiro.  Muitos escritores, de quem encontro traduções em todas as línguas em que viajo e que devem estar ricos, nunca invejei.

Também não tem nada a ver com glamour ou aparência física: nem a Gisele Bündchen é capaz me provocar um pingo de inveja desse tipo, e olhem que eu adoraria ser alguns centímetros mais alta.

Desconfio que minha inveja não é destrutiva porque vibro a cada conquista dos meus invejados.  Não consegui até agora determinar o que provoca em mim esse sentimento. Identifiquei um único pré-requisito: a pessoa tem que estar viva. Quando morre, resta só a admiração e um enorme vazio por não poder mais renovar o deleite que os meus invejados me proporcionam.  Então, aproveitando a ocasião, faço um apelo: por favor, queridos, não morram!  Se não puderem evitar, não o façam antes de mim, pelo menos.

Normalmente os leitores escrevem aos cronistas para pedir conselhos e/ou dirimir dúvidas em um determinado assunto, mas eu, humildemente, estou invertendo a ordem das coisas.  Quero saber se este tipo de inveja é normal, se ainda tenho salvação.

Invejar curso de alemão?  Fala sério.

 

 

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