Inquietos

Inquieto. Foi como me senti ao assistir o último filme de Gus Van Sant. Antes de qualquer comentário, todavia, preciso dizer que, em primeiro lugar, fiquei feliz pela tradução correta do nome da obra; não é prática, no Brasil, traduzir ipsis litteris o título das películas. Alguns exemplos: “Jarhead” recebeu a tradução de “Soldado anônimo” (no original, significa “Cabeça de Cuia”); “No country for old man”, cuja versão seria algo como “Sem terra para homens velhos” virou “Onde os fracos não têm vez” e por aí vai. Mas, voltando ao assunto e desconsiderando a licença poética de nossos tradutores, a bem dizer, em “Inquietos” (“Restless”), a história tratada pelo diretor norte-americano nos coloca diante de três medos que nos inquietam: amor, juventude e morte.

Quando surge na juventude, o amor parece eterno; vem com tanta força e frescor que nos transporta acima dos picos mais altos do planeta. Esta sensação de vida e felicidade parece inesgotável; no filme, entretanto, nos deparamos o tempo todo com o espectro da morte, o sentimento da perda, o luto que invade a vida daqueles que só pretendem amar: sentimentos tão contrários se encontram e convivem sem ordem nem nexo.

É possível ser feliz sabendo que a morte está sempre junto a nós? O que parece contraditório define a vida, pois a morte, apesar de indesejada, se encontra ao nosso lado. Fingir que sua presença não existe não afasta seu espectro.

Na película, o casal encontra o amor, mas também tem próximos a morte e os sentimentos que ela traz: a perplexidade, a falta de sentido ou explicação. Jovens, os protagonistas sofrem diante dessa realidade indecifrável: se o amor surge sem pedir licença, fora do tempo e do lugar certo, ele não afasta aquilo que nos oprime, o que não está resolvido. Por outro lado, se a vida não se deixa extinguir antes do tempo e o tempo se dissolve no sentimento, o amor sobrevive aos dois.

Sabendo de seu destino, um dos que ama não se deixa tomar pela melancolia ou pelo desespero: absorve intensamente o prazer de estar vivo e feliz. Existe outra maneira de viver?

Viver intensamente o presente, amar sem censura, aceitar a vida como ela é, e não como desejaríamos que fosse — estas questões surgem na tela e nos envolvem em pensamentos. Um desconforto, um desejo de manter ao nosso lado aquele a quem amamos, mas que não nos pertence, acompanha a história. Quando chega a hora de partir, não estamos preparados para a viagem. Na verdade, não queríamos que ela ocorresse, e nos mobilizamos, como se tivéssemos forças para impedir o inevitável.

Sós diante dos trilhos, vemos o que nos restou daquele que partiu perplexo; tentamos ver além da fumaça que ficou na velha estação. De volta à história, nossos personagens seguem seu destino; na tela, um sorriso nos revela o imensurável. Estar ao lado de quem amamos não nos prepara para sua partida, mas nos revela, através das lembranças do que vivemos, que o amor não perece e mantém vivos em nossos corações aqueles que amamos.

 

 

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