Inocência

Alice-in-the-wonderland-john-tenniel Há pouco tempo encontrei no Facebook com uma joia de valor incalculável para mim: uma rara entrevista com Freud, concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck em 1926. Sigmund tinha 70 anos e usava uma prótese no maxilar superior, que necessitou ser operado por causa um tumor maligno. Entrevistando um homem nessas condições, ou seja, já vislumbrando a barca de Caronte, George perguntou se Freud acreditava na persistência da personalidade após a morte, de alguma forma que fosse. Ao que este respondeu: “Não penso nisso.Tudo o que vive perece. Por que deveria o homem constituir uma exceção?” Seguindo com a entrevista: “No começo, a psicanálise supôs que o Amor tinha toda a importância. Agora sabemos que a Morte é igualmente importante. Biologicamente, todo ser vivo, não importa quão intensamente a vida queime dentro dele, anseia pelo Nirvana, pela cessação da “febre chamada viver”, anseia pelo seio de Abraão. O desejo pode ser encoberto por digressões.” Brinca: “seria mais possível que pudéssemos vencer a Morte se não fosse por este desejo, aliado da Magra,dentro de nós.” Estou pegando pesado, eu sei, mas já vou aliviar. Minha intenção não é falar sobre Morte, mas sobre os efeitos malignos da ignorância. É que por outra mídia encontrei e encarei a leitura do lançamento de um livro de um psicólogo americano chamado Michael Shermer, Cérebro & crença, da Editora JSN, um debate sobre razão e religião. É claro que o cientista, defensor radical do pensamento científico, estuda há três décadas os mecanismos neurológicos que fazem as pessoas acreditarem em coisas tão diferentes quanto Deus, milagres, fenômenos paranormais, ETs, astrologia, demônios ou anjos. A explicação é única: as crenças são adquiridas desde muito cedo, e o cérebro aprende a usar suas capacidades racionais para justificar tudo em que se crê. Ora, qualquer neurótico que se preze faz isso o tempo todo. Quer levantar cedo, mas… Ah! hoje posso chegar mais tarde no trabalho. Quer emagrecer sem parar de comer, ganhar dinheiro sem trabalhar, é só essa vez, juro etc., tudo isso apoiado por justificativas e explicações aparentemente superplausíveis; só o automentiroso sabe o quanto custa elaborá-las! E por que o coitado + ou – delinquente faz isso? Porque não é mais inocente. Tendo tomado a consciência — a contragosto, porque vem junto com responsabilidade — de um bocado de comportamentos seus que obviamente o levaram para o brejo — porém, ele queria muito ir lá —, mentiu para si mesmo o famoso “desta vez vai ser diferente!” Na aurora do século 20, Sigmund Freud já tinha estudado tudo isso: o inconsciente e suas mil e uma manhas para convencer o sujeito e não mais indivíduo: ele está sujeito à Lei, mas é divisível e completamente automanipulável até cansar de quebrar a cara e resolver ir aceitando, aos trancos e barrancos, que não pode fazer tudo o que seu desejo, seja de vida ou de morte, manda. Quando o entrevistador pergunta a Shermer se uma das conclusões de Cérebro & crença” é que o cérebro mente para as pessoas… ele diz que sim! “Nosso cérebro age como um advogado num julgamento, montando evidências a favor de seu cliente, que nesse caso são nossas crenças, e ignorando ou recusando todas as provas que não se encaixam ou derrubam essas crenças.” (grifo nosso) Justamente! Isso acontece desde o homem primitivo: ele mesmo nos conta como já fazia suas manipulações e se enganava a rodo. Só resta colocar o cientista numa máquina do tempo, feita nos moldes da mais moderna tecnologia, e apresentá-lo ao mesmo velhinho doente que concedeu a entrevista citada lá ano começo! Bom fim de semana pra vocês!

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4 Resultados

  1. Raul Augusto disse:

    Muito Bom!
    Pelo que entendi, haja aceitação da consciência, se não… Babau! É um sofrimento só!
    Um eterno arrastar de correntes pela vida a fora atrás da Inocência perdida…
    Isso aconteceu comigo, até que, consegui MUDAR!
    Não de uma só vez, mas, aos poucos, um dia depois do outro e enquanto VIDA houver!
    Parabéns ao Freud e em particular a você que o segue…
    Gostei e compartilhei…
    Abraço,
    Raul Augusto

  2. Adorei esta cronica, fantastica!

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